você não tem direito sobre o meu corpo

Eu uso esse troço aqui [e isso originalmente era um post de Facebook, mas vale sobre as redes sociais e o blog de uma maneira geral] de uma maneira bem egoísta, me fechando na minha bolha bonita de gatinhos, livros e drag queens. Eu evito me meter em discussões. Eu evito as confusões. Eu fico doente com as postagens de vocês – que, mesmo na boa intenção, compartilham o chorume – e eu não me envolvo. Eu não escrevo textão.

E eu estou errada, cara, como eu estou errada sobre não lutar!

Mas daí vem essa semana.

Daí vem essa semana e vem tudo com ela, tanta, tanta coisa errada que no momento que eu parei pra fazer essa lista, eu não consegui. Eu honestamente não consigo começar a colocar “no papel”, ou aqui, tudo o que está errado com a gente. Cada item dessa lista dói mais que o anterior, dói em tantos níveis próximos e tantos níveis distantes que não dá pra acreditar num mundo em que as pessoas simplesmente se esforçam tanto em prejudicar o outro.

Eu não costumo dar muita opinião por aqui mas a coisa é: você quer reclamar da ciclofaixa, que deixa teu carro espremido? Ok. Você quer reclamar da velocidade na marginal que te impede de correr? Ok. Você quer reclamar da presidente que está roubando o seu suado dinheiro? Ok. Eu acho você um babaca. Mas você tem o direito.

Mas você não tem direito nenhum sobre o meu corpo. Absolutamente nenhum. Nem sobre o meu, nem sobre o da Valentina, nem sobre os dos travestis usados como peças de carros no anúncio premiado, nem sobre o da presidente que está supostamente roubando o seu dinheiro, nem sobre o do menino homossexual que apanhou na rua só por existir. Você não tem nenhum direito sobre o nosso corpo. E não muda nada na sua vida não ter. Muda na minha.

É engraçado ver as pessoas dizendo que “é coisa de doente” ou que “nem todo homem é assim, né” e “também não generaliza” – isso porque eu não tenho coragem de entrar nos absurdos que tem gente dizendo sobre incentivar essas atitudes. Nas palavras da minha amiga Teresa Perosa, bem melhor que eu nessa coisa de lutar,

“Só é surpresa pra quem não presta atenção. Aliás, só é surpresa, para quem não é mulher. A verdade é que muito cedo aprendemos que nossos corpos, nossos destinos, a possibilidade de chegar em casa sã e salva, isso nunca foi nosso. Sempre foi deles. Ser mulher no espaço público é ser pública, de usufruto público. É automático.”

Eu honestamente não sei como vocês não são capazes de enxergar. Eu honestamente não sei como vocês conseguem.

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você não tem direito sobre o meu cabelo

você não tem direito sobre o meu peso

você não tem direito sobre a minha bunda

você não tem direito sobre o meu sexo

você não tem direito sobre o meu útero

você não tem direito sobre o que eu falo

você não tem direito sobre o que eu penso

você não tem direito sobre o meu corpo

Esse foi só um desabafo que nem começou a ser desentalado aqui da garganta. É só uma partezinha minúscula de uma luta diária que a gente vai tentando, tentando, tentando, até aparecer uma coisa linda como a surpresa da prova do ENEM, que faz a gente olhar com um pouco mais de atenção praquilo que está na frente dos nossos olhos diariamente. Mais que esse desabafo, por favor, façam um favor a vocês mesmos e leiam o Think Olga e a Capitolina, esses espaços incríveis de mulheres absolutamente maravilhosas que estão aqui pra ajudar a gente nos momentos em que parece mais fácil desistir.