do coração

uma pausa

Não daqui, ou talvez até seja. A questão é justamente entender do que seria necessário se afastar. É natural que a medida que as coisas vão mudando e acontecendo a gente tenha que se adaptar e eu imaginei mesmo que uma hora ou outra as coisas dessem uma pesada – subestimei 100% o quanto, haha! É engraçado que, na verdade, os planos seguem nos seus caminhos, e salvo um atraso ou outro (repletos de culpa e autopiedade, aiaiai!), tudo está dentro dos trilhos. Até demais. Mas fica uma sensação meio atrasada de “que enorme bagunça, eu não estou dando conta!” e nem sei ao certo do quê.

Abri algumas portas e deixei entrar. É lindo, segue lindo, segue o melhor lembrete que eu poderia me dar. Mas exige, compete, dá aquilo de novo: a culpa, a sensação de sempre falhar. Também venho aprendendo a fechar outros pedacinhos que exigiam mais atenção – e, claro, daqueles que as pessoas mais percebem que são vulneráveis, e ali mesmo enfiam os dedos e cutucam feridas. Nunca não dói. Nem sempre funciona. Mas segue sendo a lição mais importante que tem. Exige ali uma energia que tantas vezes falta e tanto. Cansa. Dá vontade de desligar e sumir.

Tem um serviço no Japão (claro!) que oferece isso pras pessoas: sumir. Deleta-se tudo, larga-se todos, declara-se perdida aquela pessoa que você e era e puf! Não tem mais. Sem notificação no whatsapp. Sem responsabilidade emocional. Há.

E aí o que era uma gripe virou uma super infecção, dessas que dá medo de ouvir o nome e deixa a gente sem conseguir levantar a mão pra mudar o filme na TV. Eu, que sempre fui dessas de falar “ninguém fica tão mal assim” fiquei e baqueei, e sigo brigando com o coquetel de remédios que tenho que tomar e que me fazem tão, tão mal, “mais mal que se fosse sem”, mas na verdade eu sei que não. Logo eu, há, que pelos outros insisti em viajar e ir em festas e fingir que estava tudo bem, logo eu, há, que aí em cima estou falando de aprender a abrir mão e se respeitar. Aí o que dá.

E quando me perguntaram “o que você está sentindo?” minha vontade era responder: você vive no mesmo país que eu? E ele vive e não me deu atestado e pediu pra eu conversar com o meu chefe, porque ele tem certeza que o capitalismo vai entender que eu preciso descansar, que a gente não precisa produzir, que tudo bem ter um trabalho medíocre, que a gente não precisa achar propósito em tudo o que faz, que o whatsapp tem que desligar e as notificações sumirem, que a gente não precisa estar em todos os lugares, que dá pra olhar pro que a gente tem com carinho e orgulho, que tudo bem a Netflix perguntar se ainda tem alguém aí assistindo, é tudo isso que eu estou sentindo, cara, você tá mesmo olhando pra mim?

E além de tudo vem uma sensação maluca de que eu falhei, comigo, com esse corpo de quem eu tanto cuido, com quem tanto me preocupo, que tanto eu acarinho na tentativa de desconstruir tudo o que já me ensinaram sobre ele. Que só entram coisas boas, que tanto eu venero e me orgulho, e ele me falha assim, e as pessoas te olham assado, e você pensa “será mesmo que tô fazendo tudo certo?”. Você tá mesmo olhando pra mim, cara? Eu tô mesmo olhando pra mim? Pra dentro, pra tudo isso que tem, que não sai, que não extrapola, que não extravasa, que é além do corpo e da carne e do amor da massagem e do creme e do exercício e da paciência. A gente tem que ouvir os sinais. Tá olhando mesmo pra mim, cara?

4 Comments

  • Morgana

    Me sinto assim para pior, as vezes penso que tudo que tenho feito de nada adianta, que o mundo está perdido, e eu nesse tumulto acabei perdendo o amor que sentia, a empatia pelas pessoas… não é fácil.

  • Fran

    Meu Deus! Esse texto me fez refletir muito sobre as pausas que preciso fazer na minha vida. Sabe quando você passa o dia todo no sofá (nos últimos 30 dias no caso) e ainda assim se sente esgotada? Amei! ❤️

    • Isadora

      sei SUPER. às vezes a gente acha que tá cuidando da gente “de fora”, mas precisa mais olhar com carinho pra dentro e entender o que precisa ser feito, né? respira bem fundo, lindeza! a gente se encontra, eu te prometo ♥

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