viaja isa

um passeio guiado pelos Campos Elíseos com o Roteiro Subcentro

Vocês já entenderam – eu espero que sim! – que meu negócio é passear, né? Eu amo passear. Eu aguardo ansiosamente a chegada do final de semana para passear. E passear pra mim tem a ver com estar na cidade, no meio dela, andando por ela, muito mais do que frequentando lugares, lojas, restaurantes (que deixam tudo mais legal, sim, e fazem a gente querer passear mais). Eu entendi isso quando comecei a conseguir organizar viagens pra mim, sozinha: o que eu queria encontrar nos lugares visitados? Eu queria passear. Eu gosto de saber que vou ver determinado monumento ou entrar naquele museu dos sonhos, mas eu amo, eu fico enlouquecida com a possibilidade de andar entre esses lugares e perceber as fachadas, as ruas, as pessoas, os sons, as conversas.

Claro que isso tudo é também sobre andar a pé. Claro. Na minha cabeça nunca fez sentido – financeiramente, ecologicamente mas, também, emocionalmente – ter um carro e perder todas as chances de passear. Claro também que, às vezes, eventualmente, a gente precisa de um transporte mais rápido, até pra começar a ocupar lugares mais distantes dos centrais. Mas, nessas mesmas viagens, eu comecei a perceber que “transporte” quase nunca entrava na equação final dos gastos, de tão pequeno que era o valor. Eu ando a pé. Eu passeio.

Quando eu me mudei pra São Paulo, percebi que não precisava viajar pra passear – e isso mudou tudo! Percebi, depois de anos e mais anos odiando todo e qualquer trajeto que envolvia ir do ABC Paulista pra Capital, que aqui eu poderia simplesmente sair caminhando. E talvez por uma boa dose de desaviso, mesmo, até um tico de falta de cuidado, eu comecei a passear, primeiro por onde era próximo: o Centro. Sim, o Centro de São Paulo.

Há 5 anos me mudei e sou apaixonada desde o primeiro dia. Pelos lugares e pelas possibilidades infinitas, pelas pessoas que são tantas e tão diversas, pela mesma imensidão que, ao mesmo tempo, isola, mas acolhe. O que não significa que seja, nem de longe, o melhor lugar do mundo. É difícil e doloroso morar por aqui, doem os olhos, dói o coração – pra quem tem um e consegue enxergar acima de algumas questões sociais básicas. Dói, cansa, assusta também, mas recompensa, São Paulo sendo esse maior relacionamento abusivo que a gente respeita. Eita.

Então eu passeio e eu passeio pelo meu bairro, que tem esse nome bonito e esses limites confusos para outros melhores: Campos Elíseos, Santa Cecília, quase-Higienópolis. Que feio. Eu passeio e eu faço questão de conhecer e incentivar o que tem por perto. Eu passeio mesmo que as pessoas não pensem nem em vir me visitar porque “imagina deixar o carro nessa rua”, eu passeio mesmo existindo o medo de gente, pura e simples ele, eu passeio porque eu acredito que se a gente não passear, ocupar a cidade, frequentar os espaços, espalhar os nossos braços e as nossas fotos de instagram por esses pedaços, a gente perde. A gente deixa que os outros decidam e ocupem por nós. E não existe um cenário em que isso funcione.

Que bom que tem mais gente que pensa​ e passeia assim. Foi numa dessas andanças que eu cruzei com o Subcentro, um projeto que atua na área formada pelas demarcações territoriais municipais intituladas Campos Elíseos, Barra Funda e Bom Retiro, e usa a economia criativa para promover a ativação do espaço público, fortalecer a história e as instituições culturais e criar alternativas para as demandas ambientais e urgências sociais. Ele atua em várias frentes, de ocupações a mapeamentos, projetos especiais, encontros e debates e, o que eu conheci e obviamente fiquei alucinada pra participar, o Roteiro Subcentro, que promove passeios guiados por essas regiões.

O roteiro que eu participei se chama “Da Aristocracia Cafeeira ao Presente: Campos Elíseos“, explorando o bairro, que no final do século XIX tornou-se local de moradia dos grandes barões do café, com aspirações europeias, circundando as principais ferrovias e um incipiente planejamento urbano, e até os anos 1930 foi definidor dos rumos políticos, econômicos, urbanísticos e sociais do país.

Passeamos, então, pela Estação Júlio Prestes, dentro e fora – e cercados de seguranças e cercados pela polícia que, pontualmente “lava a praça”, expulsando com mangueiras os usuários de crack da região (que prontamente voltam ao seu território), num show grotesco e transparente da total falência de todos os braços institucionais -; pelo Liceu Sagrado Coração que, olhem, eu nem sabia o que era ou que estava ali, ao meu lado, suntuoso, enorme, rebuscado; pelo ótimo Museu da Energia, com paradinha no amado Sesc Bom Retiro, pelo Casarão Dino Bueno, englobado pela gigantesca Porto Seguro; pelo Palácio dos Campos Elíseos, a residência do governador, que hoje abriga o SEBRAE e uma grade de cursos e um espaço incríveis, completamente sem utilização; finalizando na belíssima Casa da Don’Anna, restaurada e agora aberta para eventos; com passagem pelas fachadas do Memorial da Resistência de São Paulo, dos casarões que só restaram o esqueleto pelo bairro, na Avenida Rio Branco; e andamos.

Andamos e andamos e andamos por 5, 6 horas, parando pra observar as construções e ouvir as histórias dos lugares e das pessoas que passaram, e também pra nos observarem em grupo, passeando por aí. E entramos em locais que jamais entraríamos, descobrimos, nos encantamos um pouco mais, construímos um roteiro nosso, particular, que está só esperando pra ser refeito. Em breve.

E, nas palavras da organização:

​O Subcentro surgiu da vontade de empoderar uma região que as pessoas não frequentam no centro de São Paulo. Queremos mostrar a importância histórica, a efervescência cultural e mudar a situação de miséria de milhares de seres humanos que vivem em Campos Elíseos, Barra Funda e Bom Retiro. Para isso, sábado passado aconteceu uma das nossas iniciativas, o roteiro Subcentro, um percurso histórico-cultural-social que é uma imersão nas complexidades e belezas da região. Fazemos tudo com muita dedicação e vontade de que um dia aqui se torne um pólo cultural e educativo juntamente com a melhoria da vida das pessoas que se encontram em situação de miséria. De pouco em pouco, estamos plantando uma sementinha.

​O roteiro foi desenvolvido pelo Subcentro em parceria com a Estação História e pra ficar sabendo dos próximos – eu já estou louca pra fazer os passeios pela Barra Funda e Bom Retiro! – é só ficar de olho nas redes sociais do projeto. E ficam aqui dois convites meus pra você: conheça seu bairro – ainda que você tenha medo, junte um grupo, arrume um bonde, organize sua turma. E venha pro Centro! A gente precisa ocupar essa cidade 👊🖤

6 Comments

  • Tany

    nossa, miga, tava falando disso esses dias com amigas que sentia falta de andar. que é muito legal ir em museus, exposições, na paulista, mas andar nos bairros é algo que quando faço me questiono porque não faço mais. conheço vários bairros desde que mudei, mas conforme vou andando em outros penso “pq não venho sempre pra cá ou de vez em quando? pq sempre fico pelos mesmos locais?” e eu já seguia esse projeto. sempre pensava em ir ou outro passeio, mas acabava nunca indo, deixava pra lá…
    isso me fez mudar de ideia porque a gente vive em uma cidade, e em bairros, tão especiais! cheios de história, cheios de cantos bonitos, cheios de identidade e não dá pra ficar ocupando somente alguns espaços, mas temos que ocupar a cidade toda. sempre. sempre que der, pelo menos.

    me chama pra um desses passeios, aliás.
    tô saudosa.
    <3

    • Isadora

      siiiiiim amiga, é tão gostoso dar um rolê no nosso bairro, no nosso pedacinho. é importante, sabe? a gente tem que ocupar os espaços.

      QUE SAUDADE ♥

  • Tati

    Aaaaah, que delicia de passeio! Morei por quase 15 anos em SP e sempre no centro. Também não tinha carro e AMAVA passear, desvendar, conhecer as histórias daqueles lugares… Com certeza vou me programar para participar de um próximo passeio do Subcentro! Obrigada pela indicação, pelas fotos, pelo relato. Sou tão sua fã! <3

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