do coração

revirar-se

Esse caso inominável e bizarro e a gente tá o quê? Explicando pra homem como se comportar.

Tem que explicar. Tem que ensinar. Tem que falar “se você não para de tomar cerveja com o parça que bate na mina, você é igual”. Tem que ser didático e “se você dá risada da piada no whatsapp você é igual”. Tem que contar que “se você acha exagero você é exatamente igual”. Que “se você fala da roupa do batom do biquíni da gorda da vaca da Dilma da puta” você é exatamente igual. Você tem que dizer que não importa a roupa a droga a bebida o filho a idade o funk a escola. Você tem que construir os argumentos pro desconstruidão pegar mulher. Mas ele é tão legal.

Você, mulher, tem que explicar como é fundo e dolorido e pra onde você olha e pra onde você corre tem mais e mais e mais gente igual. Você, mulher, tem que se legitimar através do texto do brother que está envergonhado e que país é esse e que imagina que gente doente, que mundo doente, mas eu não sou assim, eu sou do bem. Você, mulher, nós, mulheres, a gente tem que ouvir que a solução e fazer os 33 virarem mulherzinha na prisão.

Virarem mulherzinha. Mais 33 mulherzinhas.

Mas a gente não precisa do feminismo, não.

Nayyirah Waheed 01

A gente está indignado, indignadíssimo, com um crime. Um crime absurdo, hediondo, impensável, um crime. Um crime que acontece todo dia – todo. santo. dia. – e ninguém vê. Um crime que quando não são 33 ou não repercute ou não pega tão mal não se pronunciar, passa em branco. Ou, pior ainda: é justificado. Um crime injustificável e inominável e indefensável, tanto quanto os outros 1 a cada 11 minutos crimes que acontecem diariamente mas, esses, sutis, justificáveis, mas e a roupa, mas tinha cara de safada, mas tava querendo, mas tá chorando porque se tá gostando.

Tá todo mundo indignado com a violência e a crueldade da favela, do morro, do tráfico, dos animais, dos pobres, do povo sem estudo porque tem que ler e ter cultura. Ninguém sequer de quantas vezes silenciou as duas ou três mulheres da reunião descoladinha na sala do lado da mesa de bilhar. Quantas vezes chamou de gostosa de vaca vagabunda de puta rodada e essa não essa é só pra comer na balada milionária. De quantas vezes rechaçou, recusou, de quantas vezes julgou a roupa e falou da amiga gorda, da mina vaca, da competição, da legging apertada, de que precisa emagrecer mas tem um rosto lindo. Mas tá todo mundo muito indignado.

Não é nossa função ensinar. Não é nossa função validar. Não é nossa função explicar. São séculos nos tratando como incapazes, burras, menos eficazes. São séculos no diminutivo. No bonitinho. No sensível. Meninas. No educado. No paternalismo patronizing patrocínio que apadrinha ampara protege sustenta defende auxilia. Está. No. Discurso. Não é nossa função compartilhar texto pra deixar (mais) famoso. Vamos escrever nossos próprios textos. Vamos nos compartilhar, divulgar, proteger.  Nos cuidar. Entender quem é o inimigo. Guardar as brigas internas num lugar importante, mas nutri-las com carinho e cuidado para brigá-las com a compreensão de quem já esteve do lado de lá. Quando for possível.

what
massacre
happens to my son
between
him
living within my skin.
drinking my cells.
my water.
my organs.
and
his soft psyche turning cruel.
does he not remember
he
is half woman.

– from

É preciso se unir. E abraçar e cuidar e empoderar e gritar junto e dar as mãos para cada uma das mulheres a nossa volta. Todas-elas. Todas-elas. Todas aquelas que renegamos, que rechaçamos, que chamamos de vadia, que temos inveja, que desprezamos, que nos machucaram, que nos feriram. É preciso abraçá-las. Precisamos promover todas as mulheres a quem admiramos, amamos, todas as mulheres que são muito próximas para dizermos que precisam se emancipar. Aquelas. E todas as que têm medo de falar por erro, e todas as que não desconstruíram e precisam, e todas as que não perceberam mas vão. É preciso dizer que nos inspiram. Que nos dão força. Que estamos juntas. Que somos fortes.

É preciso se posicionar. É preciso entender que não são 30 homens doentes: são 30 filhos saudáveis do patriarcado. Que estupro não é doença, não é sexo, não é desejo: é poder, é política, é dominação. É discurso. Coitada, coitada, coitada… Sofrer coito. Sofrer. Que está na linguagem. Naquele que dizemos todo dia. Na raiz da palavra. Presidenta. Mulher. Mulherzinha. Inha. Nos olhares por cima dos ombros na rua. Na hierarquia superior do homem.

É preciso (se) revirar. Tudo. Do zero. De dentro. Com força. Vermelho.

Nayyirah Waheed 02

Todos os trechos destacados desse post são de Salt, da poeta Nayyirah Waheed. Acho que nunca li nada tão poderoso. Dá pra ler o livro inteiro de graça na Amazon. Façam isso por vocês hoje. E também assistam o documentário Shes’s Beautiful When She’s Angry, sobre o movimento feminista dos anos 1960/70, na Netflix. Pra encher a gente de ideias e de força.

7 Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *