reforma

Na frente de casa tem um prédio desses baixinhos, sem personalidade, quase meio sem graça. Quando a gente morava de frente pra ele, um dia, fofocando da janela, percebemos que os janelões que antes pareciam dividir cada um dos três andares em dois eram, na verdade, só janelões, e um cachorrinho desses sem personalidade, quase meio sem graça, atravessava correndo de um lado pro outro do apartamento imenso, bem iluminado, com janelões que mais pareciam de dois. Quando a placa de “vende-se” apareceu na portaria completamente sem personalidade a gente ligou, só pra fazer graça mesmo, e perguntou como é que era essa história. O apartamento à venda era o do último andar, imenso, os janelões, todos os quartos do mundo – e não era só isso não, a laje era dele também, lá em cima, tudo aberto, dobrando o tamanho, e tem também uma edícula, moça, precisa de uma reforminha, a laje é meio velhinha, mas tem bastante espaço.

Precisa de uma reforminha. Tem uma laje imensa pra você fazer o que quiser.

Isso faz bem uns 3 anos, mas essa semana a plaquinha de “vende-se” voltou pra portaria sem graça, que fica ao lado do antigo mercadinho da rua, desses que a gente conhece a dona, a filha da dona, o marido da dona, aquela moça que não é filha nem irmã mas é certamente da família da dona. A dona que sabia que eu sou louca por abacate e kinder bueno. O mercadinho que sempre tinha cup noodles de legumes e vendeu milka a 8 reais por um tempo. O mercadinho fechou – a gente tem um Extra e um Dia% na mesma quadra, obrigada capitalismo – e agora ele tem uma plaquinha irmã da placa de “vende-se” do apartamento dos janelões e da laje e da reforminha. “Aluga-se”.

A laje toda coberta por grama e uns tijolinhos, pintar as paredes de cinza mesmo, pela luminosidade. Começar a reformar a edícula descascando todas as paredes e deixando a estrutura à mostra, só precisa de uma boa iluminação e um banheirinho, as coisas aqui de casa estão ótimas, novas, a gente leva tudo e se espalha. A gente coloca aquelas portas teladas duplas, de segurança, os gatos não sobem pra laje e ali a gente cria as plantinha todas. Dá pra ter as árvores que a gente sempre quis, dá pra plantar a mudinha de café, da pra estender a horta e cuidar das rúculas bebê. Daí a gente desce e pinta todo o mercadinho de branco e compra umas tábuas dessas clarinhas e vai montando as prateleiras, e coloca umas cores, e dá até pra ter o torno de cerâmica, e dá até pra ter um tearzão.

A gente sobe e desce com os vasinhos todo dia, daí lá em cima eles tomam o sol e a chuva que precisam e ficam verdões bonitos pras pessoas comprarem, e a gente explica como cuida, e a gente fala que tudo bem ter gato, que só precisa de cuidado. E a gente trabalha bastante e também descansa bastante, porque dá pra se esticar na grama no meio de São Paulo, e se a gente só olhar pra cima nem parece que estamos cercados por prédios, dá só pra abstrair o barulho do ônibus e o alarme das 18h. E a gente vai demorar uns 2 meses até entrar em um acordo pro nome da lojinha-café-espaço-de-convivência-livraria, mas aí você vai surgir com um nome incrível, e a gente vai rir pra sempre lembrando de como escolhemos aquilo. E a gente chama os amigos pra desenhar nas paredes, pra falar poesia, pra discutir política, pra tomar um café. E de vez em quando vem gente chata porque tem gente chata mesmo e tudo bem também, porque a gente tem a gente e tá tudo bem.

Eu passo todo dia ali na frente e por uns 3 minutos vem tudo isso, e eu planejo e sei as cores das paredes dos cartões das molduras e das lâmpadas. Eu sinto o cheiro da comida do bem que a gente vai fazer, das velas que a gente vai ter, eu me aperto com as contas que a gente vai pagar, eu sorrio de saber que mais um dia vai ser tudo igual e bom e igual. E se não for assim, também, a gente segue tendo a gente, e o sonho de a gente ser bem mais, e se não for, tudo bem também.