coisas da vida

paladino da dieta

Eu confesso: sempre tive complexo de mártir. Não é nem difícil admitir isso, porque, admitindo, eu confesso que tenho uma condição, uma condição médica, o que me faz automaticamente entrar numa lista de pessoas com condições médicas e bom, eu tenho esse complexo de mártir. Mas a questão é que eu finalmente eu encontrei um caminho – desses que não faz mal a ninguém, claro – pra canalizar esse sentimento. E esse caminho é minha dieta.

Me privar das coisas maravilhosas que a vida me dá é terrível, sim. E, por princípio, eu sou contra essa história de restringir, cortar, tirar definitivamente. Mas quando 1) os quilos ultrapassam a barreira das suas roupas; 2) você não tem dinheiro pra ir num médico; 3) você tem uma viagem em que usará biquíni em 90% do tempo, você apela pras revistas. Ah, sim, meus amigos: as revistas e os blogs de gente com barrigas chapadas e “antes e depois” que mais encantadores do que o Google Glass.

E aí a gente descobre uma dessas dietas loucas que tiram tudo do cardápio e você emagrece. Pois, claro, você emagrece – e sempre tem uma conhecida que fez a dieta, emagreceu, e tá aí, vivona, com a saúde em dia, pra te motivar. E você decide fazer a dieta. Claro, você adia o começo umas duas, três vezes, até expurgar toda a cerveja do seu organismo (de preferência, com mais cerveja). E então, você começa.

O primeiro dia é maravilhoso. “Eu estou fazendo dieta”, é a placa que você manda fazer na gráfica rápida do lado da sua casa. Põe no Facebook. Pede ajuda das amigas, com aquele ar de “vou ficar mais magra de vocês, preparem-se” – é, amigas, a gente pensa isso, não finjam que não. Você pega seu filé de frango pensando naquele biquíni, no short que mostra a polpa da bunda, nos braços bronzeados. E sorri.

Do segundo dia em diante, você vira o super-herói da dieta. E não é um super-herói pimpão, tipo o Homem Aranha. Não, não. É um super-herói soturno e atormentado. Desses que se escondem em cavernas e têm vozes estranhas. Desses que têm um passado negro e nenhuma perspectiva de futuro. Resta-lhe, somente, seguir com a dieta.

Alface. Cenoura. Frango. Desnatado. Sem gordura. Light. Cada pedaço, cada mordida, é uma batalha contra o mal vencida. Cada cheirada no chocolate alheio – não finja, amiga, não finja… – são anos de corrupção e vandalismo, ops, destruídos. Seus amigos te chamam para tomar cerveja: você para no shopping, come frango e soja. E bebe Coca Zero no bar. Gotham está a salvo. Pensa no biquíni. Biquíni manchado de suor e sangue.

* Esse é meu último post sobre dieta. Talvez.

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