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maio vegano: 1 mês sem consumir nada de origem animal

Todo mundo me disse que ia acontecer e eu, claro, fiquei naquele mix de negação entre “mas queijo é tão bom, nada a verrrrrrr” e “eu espero que aconteça mesmo”. Aconteceu 🙂

Que bom ❤

Fiquei com vontade de começar essa história de #maioveganodaisa, um mês sem comer nada de origem animal real oficial, porque percebi que – e acredito que seja uma coisa que acontece muito com as pessoas que decidem se tornar vegetarianas – eu havia aumentado MUITO o consumo de queijos e ovos que, antes, nunca tinha sido tão alto. Muito nível: 2 ovos de manhã, todo dia, queijo o tempo todo, a todo tempo. Além disso, e ainda bem, me envolvi mais nas discussões e procurei ler mais sobre a parte política do veganismo, e então apareceu A Política Sexual da Carne na minha frente. Não teve jeito – mas disso eu falo mais adiante.

A gente costuma achar que, comparada à produção de carne e leite, por exemplo, a produção de ovos tende a ser mais tranquila em relação à exploração animal, porém é muito pelo contrário: essa matéria do Gastrolândia dá um ótimo panorama sobre como vivem as galinhas poedeiras. Claro, você pode procurar comprar ovos de granjas orgânicas, de “galinhas que vivem livres”, mas ainda que tentemos excluir a maior parte da exploração excessiva, bom: ainda estamos usando os bichos para produção de comida pra gente. Desnecessariamente. É.

[…] não há como uma ave que vive durante um ano e meio numa gaiola menor do que uma folha de sulfite, tomando antibiótico, sofrendo mutilação e comendo ração cheia de pesticida possa produzir um ovo saudável. Não consigo chamar isso de alimento. – Gastrolândia.

Já o leite tem aquela coisa meio de vilão de várias dietas diferentes que pedem por “produtos sem lactose” como uma das estratégias pra emagrecer, já que a maioria das pessoas tem um ou outro grau de intolerância à lactose: e temos mesmo, já que a gente é o único mamífero que consome leite tanto tempo depois da infância e de outras fêmeas. Há um tempinho rolou esse vídeo bem explicativo e direto (e com imagens bem fortes!) da Hana Khalil que explica os problemas por trás do consumo de leite e derivados e como a cadeira de produção é tão horrorosa quanto a da carne.

Vale lembrar também que estou usando “maio vegano” aqui apenas com o objetivo da divulgação da parada, porque ser vegano vai além da comida: é uma decisão que passa pela carne, leite e seus derivados, ovos, mel, manteiga – ou seja, todo e qualquer alimento de origem animal -, mas também por outros produtos como lã, couro, remédios, xampus, produtos de higiene pessoal, cosméticos, marcas que financiam rodeios, testes em animais etc. Todo e qualquer tipo de crueldade. O veganismo não é só uma opção alimentar, mas uma postura ética diante do sofrimento e da exploração em relação aos animais. Esse caminho já está rolando pra mim há algum tempinho, mas está longe de se concluir, e eu abro exceções demais pra dizer por aí que “sou vegana” – o mais certo seria falar de vegetarianismo estrito, ou seja: sem nada de origem animal na alimentação.

Na verdade, eu já vou ficar bem feliz se tornar minha casa um lugar vegano – ou vegetariano estrito com inclinações veganas, vamos dizer assim. Se eu cortar dentro da minha rotina todos os produtos de origem animal e que façam testes e usem da crueldade entre espécies para se criarem, vou considerar minha missão bem próxima de cumprida. Deixo as exceções praqueles momentos em que não dependem completamente de mim, pra locais que (ainda) não têm opções veganas, pra almoços na casa dos pais que não entendem (ainda) muito bem essa coisa de leite e de ovo. Essa relação afetiva com a comida, do alimentar os filhos, do alimentar os queridos com o que se tem ali é a mais difícil de desconstruir. Vamos aos pouquinhos.

Algumas considerações:

  1. O café da manhã foi/é a parte mais difícil: o meu café da manhã – e acredito que da grande maioria dos brasileiros – sempre foi composto de iogurte + fruta + pão com queijo ou manteiga ou os dois. Quando me tornei vegetariana, incluí o ovo, e foi um ovo pesadão. É a parte mais difícil, mas também a que eu mais estou gostando de inventar: maionese de abacate, conserva de legumes, babaganush, pastinha de tofu;  grãomelete (omelete de grão-de-bico), pães artesanais e menos farinha refinada, frutas, frutas, frutas. Tá bem lindo!
  2. Snacks também são complicadinhos: mas, de novo, a gente inventa. Eu agora ando munida de cachos de banana e uva, mas também de pipoca (sim, pipoca! sem manteiga), de milho e favas torradinhos, de frutas secas. Se não tem opção, peço um pão francês sem nada mesmo, ou com um fiozinho de azeite. Mas ainda rolam uns desafios.
  3. Tem que estar disposto a cozinhar: porque a maioria das coisas industrializadas ainda “contêm traços” ou realmente tem leite, ovos e/ou manteiga; porque os restaurantes dificilmente estão preparados pra essa demanda, porque as pessoas mal sabem como as coisas que elas estão comendo são feitas. Como vegetariana eu passei muito pouco sufoco, mas vegana, a coisa aperta. Sim, é difícil comer fora de casa, mas quando a gente passa a cozinhar “tudo o que pode” (entre aspas porque não é nada restritivo, tem uma infinidade de opções!) entende também como dá pra se virar. E claro, São Paulo é linda e tem milhares de opções maravilhosas, tem sim, com opções de restaurantes especializados & lanchos em locais diversos;
  4. Reduzi muito, muito mesmo, o consumo de industrializados: o que, independentemente do tipo de alimentação que você deseja seguir, é uma coisa sempre boa, né não?
  5. Eu tô muito feliz com meu cabelo, minha pele, minhas unhas e meu intestino: o que já estava bom desde que parei de comer bichos, minina. Intestino da bombando – e de uma maneira muito mais saudável, vale explicar, sem aqueles desarranjos bizarros por conta do leite – e minhas unhas e meu cabelo estão crescendo de um jeito tão rápido que eu tô precisando até me adpatar, hahaha! Fiz um tratamento de pele bem forte no último ano que tinha resolvido a coisa das espinhas, porém deixado a pele sem viço, e nesse último mês notei uma pele muito mais bonita e com cara de saudável.

Fiz aquela bateria de exames para analisar todas as vitaminas, ferro, colesterol e tudo mais que tem dentro desse corpinho – façam, sempre, a gente tem que acompanhar, galera! – no começo de maio e pretendo fazer um daqui uns 2 meses pra efeitos de comparação, mas eu sempre prestei muita atenção em como é minha digestão, como me sinto depois de comer, o quanto que tenho de fome ao longo do dia e, assim, empiricamente, também só noto melhorias significativas. De maneira geral: eu tô feliz demais comigo meixma e isso é bem importante. Não só no sentido de ter cumprido um desafio que me propus (isso também), mas por ter conseguido ir um pouquinho mais além no caminho dessa consciência mais ampla do que a gente consome e como. 

Desse processo todo, que vocês acompanham aqui um pouco mais a vibe alimentar dele, mas que é imensamente político, destaco um divisor de águas (ai que brega!) que foi essencial pra me manter firme mesmo quando as coisas foram/são difíceis: o livro A Política Sexual da Carne: uma teoria crítica feminista-vegetariana, de Carol J. Abrams. Pra mim, se trata do melhor exemplo de como o veganismo está atrelado não somente a um princípio alimentar, àquela coisa que conhecemos da “dó dos animais” (nunca me passou pela cabeça tratar apenas como uma “dieta”, então nem vou entrar no mérito), mas é uma decisão primordialmente política: seja pela relação com as grandes cadeiras da produção da carne, seja pelo capitalismo mais porco atrelado à ela, seja pela sua relação intrínseca com o patriarcado e uma cultura carnista, violenta, opressora, próxima da escravagista. 

A autora compara a opressão sofrida pelas mulheres e o consumo de animais como resultado de seus papéis na sociedade patriarcal, embasando-se no que ela mesma chama de “referente ausente”, no qual o objeto a ser consumido (figurativamente o corpo da mulher e literalmente o corpo do animal) é separado/alienado do indivíduo, como ser inteiro. Política sexual da carne, nas palavras da autora, significa uma atitude e uma ação que animaliza mulheres e sexualiza e efemina os animais. A mulher, animalizada; o animal, sexualizado. A política sexual da carne também pode ser entendida como a presunção de que os homens precisam de carne e têm direito a ela, assim como o consumo de carne é uma atividade masculina associada à virilidade. – do blog Casa da Mãe Joanna

Essa é uma das leituras que vem mexendo tanto comigo que eu ainda não consegui digerir tudo e escrever sobre ela, mas indico fortemente o podcast Outras Mamas, que está fazendo uma leitura acompanhada e debatendo cada um dos capítulos apresentados no livro. É ótimo, divertido e altamente explicativo!

Lá no instagram eu fiz um destaque (iuhu!) sobre o que ando comendo, com algumas dicas bacanas de receitinhas simples e rápidas e nutritivas, algumas pastinhas que descobri que são fáceis de fazer no café da manhã (como a de tofu mesmo!), alguns pratos gostosos que estão fazendo parte do meu dia, e até uma listinha de produtos de beleza naturais que entraram no meu radar nos últimos tempos. Ah, também indico vários perfis bacanas que compartilham receitas e dicas de quem está há muito mais tempo que eu nesse processo. Vai la ver!

Então é isso. O que vem agora? Ainda não me sinto completamente segura em dizer que vou me tornar vegana, mas certamente cortarei o consumo de produtos de origem animal aqui em casa – e, fora de casa, reduzirei drasticamente o consumo. Tiro dessa lição a delícia que é saber que é possível e divertido usar a criatividade pra comer bem, pra ser consciente, pra tomar um pouco da responsabilidade por esse mundão que a gente vive e fazer algo por ele. Sinto também os benefícios palpáveis na minha saúde e na minha vida. E aqui dentro <3

Fazendo as pesquisas pra esse post achei essa série do Hypeness escrita pela Gabriela Alberti, que fez o mesmo desafio que eu e teve resultados (ou descobertas) bem parecidas – o que só me deixou ainda mais feliz por perceber que não é uma coisa individual, mas pode chegar em muito mais gente. O site, aliás, tem bastante informação legal pra quem quer dar uma procurada no tema. Indico também o Vista-se, que é o maior portal vegano da América Latina, e o Rota Veg, pra conhecer os restaurantes e outros picos por aí. Eu particularmente não funciono bem com os documentários – tem a coisa de se manter em negação sim, o que acaba sendo meio engraçado no meu caso hehe – então deixo a indicação do filme mais incrível do mundo: Okja. É ficção, risos.

Se eu puder dar um conselho: vem, de peito aberto.

 

21 Comments

  • luhsmile

    Isa, tu já ouviu a palavra da AVEIOCA? Três colheres ou um pouco mais de aveia, água morna até virar uma pastinha, sal, açafrão, uma frigideira que não gruda e eis o melhor café da manhã de todos os tempos (se eu quero comer com algo doce só não coloco açafrão) !!!! Foi uma dica pessoal ™ da Cristal hahaha e me salvou porque eu queria parar de comer crepioca (e tapioca não me alimenta bem). Eu adoro ler esses relatos pq dá pra ver que mudando pequenos hábitos a gente consegue fazer uma boa diferença… Por enquanto tenho deixado o ovo pra receitas especiais (estou só procrastinando essa versão vegana do quiche…), assim como o queijo, que nunca compro pra deixar em casa.

    • Isadora

      siiiiiiiiiiiiiiim eu faço bastante, até! às vezes dá uma desmantelada, mas é mágico, né?

      amo que você tem dicas insiders da Cristal ♥ hahahahah!

      QUERO MEU QUICHE.

  • Tany

    Miga, que gostoso ler esse post. A gente conversa sempre sobre isso e eu acho que ter alguém perto é essencial pra te dar uma força. Considero que diminuir nem que seja um pouquinho a carne vem de amigas como você e eu acho que informação compartilhada, por mais que ninguém decida mudar nada no momento, é sempre algo positivo pra plantar a sementinha na nossa cabeça já que como a gente viu pelo teu mês e também por tudo na vida, mudanças são coisas que vão acontecendo aos poucos. Principalmente aquelas que vem para ficar.

    Parabéns pelo um mês porque qualquer coisa que planejamos para “experimentar/testar” em nós mesmas e abrir mão de certas coisas por um período de tempo é merecido uma comemoração mesmo que internamente. E obrigada pelo texto tão fácil de ler, sem julgamentos – para pessoas como eu que ainda comem carne – e com muita coisa pra se pensar e pesquisar depois disso. 🙂

  • Raquel M.

    Fico feliz por vc Isa!
    Faz 11 anos que sou vegetariana, faz 6 meses que parei de consumir leite e derivados… E assim segue até eliminar tudo, não é fácil … Mas não é difícil como muitos imaginam! Vale muito! #govegan
    😘

  • VANESSA BRUNT

    MEU DEUS! Eu nem sei como agradecer por esse relato SENSACIONAL e tão repleto de alertas fundamentais. Que abrir de olhos incrível! Estou lendo o máximo que posso sobre o tema e mudando a minha mente cada vez mais – que sempre sentiu repulsa ao pensar em qualquer animal sofrendo. Adorei você ter citado os lados positivos disso para a saúde, que é um dos pontos mais criticados pelos avessos. Maravilhoso!

    http://www.semquases.com

  • Aline Amorim

    Depois que eu passei a comer melhor, percebi algumas mudanças no meu corpo. Imagino que as mudanças que você notou foram ainda maiores.
    Foi muito legal ler seu texto. Eu tenho pensado em diminuir o consumo de carne, mas não tenho muita criatividade para variar o cardápio. Seria legal se você desse umas dicas aqui.
    beijos

    • Isadora

      alimentação faz uma diferença absurda na vida da gente, né?

      eu dou várias dicas de receitas lá no insta, você já deu uma olhadinha? @eagoraisadora 🙂

      beijo!

  • maki

    miga, eu amei esse post? sabe que, desde que parei de comer carne, eu já estava me sentindo melhor, mas agora acho que a decisão assentou, eu tô mais consciente do que posso ou não comer (e comecei a comprar marmitinhas, yay!) e tô me sentindo muito confortável. eu já não era de comer muito leite e queijo (apesar de adorar os dois), porque tenho uma intolerância bem puxada e tenho crises de enxaqueca horríveis. o mesmo com glúten, que me deixa mega inchada. enfim, desde que fiz reeducação alimentar e tirei a carne, percebi diferenças muito boas. eu só realmente não posso tirar o ovo ainda por ordens médicas, tem umas coisas que precisam balancear, e confesso que gosto dos ovinhos que como todos os dias. por enquanto tô confortável, mas quero só pensar em mais opções para café da manhã (vou tentar fazer guacamole!) e colocar mais variedade de frutas no dia sabe? nisso, eu ainda peco um pouquinho hehe perdão pela bíblia, mas me empolguei com o assunto ahahaha

  • Ray

    eu passo horas lendo coisas sobre virar vegana, relatos legais e até dicas pra começar mas quem disse que coloco em prática? já cortei algumas coisas por um tempo mas sempre acabo voltando porque moro com outras pessoas e as vezes não rola aquele tempo extra de eu mesma colocar a mão na massa, sei que é uma desculpa esfarrapada já que com a carne eu me viro e não como meeeesmo mas a gente vai devagarzinho, né?

    mas e sobre seus gatinhos, isa? cê pensa em mudar a dieta deles?

    • Isadora

      é sempre mais difícil quando tem outras pessoas envolvidas, né? lá em casa rolou uma conversa, eu contei da minha vontade e o boy embarcou, mas se há divergência, fica mais complicado, tanto pela tentação de comer outras coisas quanto pela falta de ajuda na hora de cozinhar.

      os bichos são naturalmente carnívoros, eles nem podem cortar a carne da dieta que falta nutriente 🙂

  • clara rocha

    Venho aprendendo um pouco mais sobre o assunto, mas ao mesmo tempo sinto que tenho um longo caminho ainda para percorrer. Principalmente porque eu não sou muito criativa na cozinha e acabo sempre fazendo mais do mesmo (o que pra mim não tem problema, porque amo comer comida repetida), mas o paladar enjoa e eu mesmo me sinto meio “preguiçosa” sabe ? Existem tantas comidas gostosas aí e eu não estou fazendo só porque digo “ah…não sei fazer” ou “ah da muito trabalho”, as vezes tenho vontade de sair do meu corpo e me chacoalhar hahahahaha eu sempre babo nas suas comidinhas, nas suas e nas da Kat, maravilhosa do blog outro blog HAHHAHA ♥

    • Isadora

      aaaaah amiga, mas a gente pega o jeito! no começo parece que vai dar um super trabalho, mas eu juro: não dá não. até porque a maioria das minhas receitas é: pica, tempera, joga no forno, PRONTO. hahahaha! te juro! tem muita coisa gostosa e simples que dá pra fazer ♥

  • Ramina Xavier

    AFF, que relato lindo!
    Tô me organizando pra fazer o desafio agora em Julho e o POST super me ajudou e animou!
    Preciso me organizar semana a semana pra comprar tudinho e deixar mais fácil essa jornada!

    #GoVegan ou #GoVegetarianismoEstrito

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