let it bleed

As pessoas, né.

Eu tenho três características que não deixam a minha vida mais fácil: 1) tenho muita dificuldade em me resguardar, conto tudo, pra todo mundo, porque tenho muita facilidade em me abrir com as pessoas; 2) sempre acredito que as pessoas estão aí pra fazer o bem e serem legais, e que “poxa vida, ela não é tão ruim assim, vamos dar uma chance”, 3) eu preciso muito das pessoas, muito. Sou um bicho extremamente sociável que se sente mal de ficar sozinha.

“Ai que boazinha que você é, Isa, quero ser sua amiga!”. Não gente, eu sou é trouxa.

Minha adolescência inteira foi um sucessivo chorar pelos amigos – eu raramente chorava pelos meninos, eu preferia escrever cartas imensas que nunca foram lidas por eles. Eu chorava e chorava e chorava e insistia em DRs longuérrimas com crianças de 13 anos que mal entendiam sobre o que eu estava falando. Um tal de “o que eu te fiz?” – porque, é claro, eu sempre admitia a culpa de ter feito algo de errado – seguidos de “nada, Isa, tá tudo bem!” e mais um dia sem lugar pra sentar.

Nem Susan Miller seria capaz de explicar porque essa fase resolveu voltar agora.

Não sei se é porque a vida tá bagunçada como era aos 17 anos – mesmo estando tudo aparentemente muito bem -, mas essa sensação de porrada diária, do “eu faço mais por você do que você por mim” é tão recorrente quanto os dias em que não guardavam lugar pra mim na aula de matemática.

A diferença é que aqui, no alto dos meus 27 anos, eu entendi que esse problema é meu, e não dos outros.

As pessoas têm muita dificuldade em entender as necessidades do outro, especialmente quando o outro em questão tem questões que vão além da hora do recreio ou da baladinha do final de semana. As pessoas param de se entender quando os horários não batem mais, quando os programas não são mais os mesmos, quando as prioridades não são mais você ou eu. Pela proximidade, pelo amor, pela importância, ao invés de ponderar essas coisas e estar lá, por perto, apesar de tudo isso, elas simplesmente se afastam, numa birrinha inconveniente e infantil de “se você quiser saber de mim, você sabe onde me encontrar”.

O que sempre pegou, pra mim, nesses casos todos, é o ponto muito simples de que eu sempre tentei me adequar às necessidades dos outros. Fosse os horários complicados pelo trabalho, pela vida, por São Paulo, fosse a quantidade imensa festas-que-eu-não-queria-ter-ido e dinheiros-que-eu-não-queria-ter-dado para ceder um pouco para o gosto do amigo. Fosse os cinco minutos que eu gasto pra escrever um email dizendo “estou com saudades, a vida está corrida, me conta de você, quero saber como você está”. E daí a pergunta que ficava era: “se eu posso fazer isso por ele, por que catzo ele não pode fazer o mínimo por mim?”

Então aqui, do alto dos meus 27 anos, eu entendi que esse problema é meu, e não dos outros.

Que essa pergunta tem que parar de acontecer. Que eu preciso parar de me cobrar. E, que, principalmente: eu não tenho o direito de esperar nada de ninguém. Não é justo que eu espere das pessoas o mesmo que eu estou disposta a dar. Dói, pra cacete, saber disso. Especialmente porque eu não tenho nenhuma intenção de parar de dar, de compartilhar. Mas eu preciso parar de esperar em troca.

Eu nunca vou entender como as pessoas não enxergam o mal que elas fazem às outras. A única explicação, pra mim, é que existe mesmo uma parcela de gente que é mais sensível, mais aberta e mais “porosa”, mas que essas sejam características que as outras não conseguem perceber, sacar que um “ah, me esqueci da sua festa no sábado!” dilacera a gente. Talvez até exista uma explicação um pouco mais racional, quem sabe até um pouco médica, relacionada à ansiedade, falta de confiança em si mesmo e mais um monte de probleminha que a gente carrega, vai saber.

Talvez eu faça tudo isso que me machuca com outras pessoas. Muito provavelmente eu faço isso com outras pessoas.

Minha cabeça tá nesse looping infinito de pensamos e sofrimentos acerca do tema há um tempinho. Duro. Até porque eu comecei a me sentir meio juvenil de me permitir sentir assim depois de tanto tempo construindo aquela carapuça do não deixe os outros bringing you down, você é foda, você é fodona, eles que não sabem o que estão perdendo e o que mais eu encontrei de conselhos guardados nos fichários da sétima série.

Até que eu lembrei que ano passado aprendi muita coisa com uma palavrinha:

VULNERABILIDADE. É o que você demonstra quando se abre para o mundo sem nenhuma garantia. É quando você permite que as pessoas vejam quem você realmente é, sem saber se elas vão gostar ou não do que verão.

Eu li esse texto maravilhoso sobre vulnerabilidade no Não Sei Lidar depois de receber a newsletter maravilhosa da Anna Vitória sobre vulnerabilidade e, além de ter a certeza absoluta de que a internet é um lugar absolutamente maravilhoso, entendi que nossas questões internas sobre ser vulnerável talvez seja assim, meio geracional. Talvez o grande problema dessas pessoas de vinte e poucos, trinta anos, cheias de hashtags e questões comportamentais no trabalho seja uma carapuça blasé de “não me toques”, um medo profundo de se relacionar e um pavor desses paralisantes de se machucar.

O que seria bem inteligente. Se você vai lá e se machuca uma, duas, três vezes, cada uma mais dolorida que a outra, talvez fosse a hora de sacar “bom, eu não deveria me abrir tanto assim” ou “hum, talvez não fosse tão legal esperar tanto dos outros assim”. Seria, não seria? Pergunta se eu consigo? Aham.

E aí, numa série de acontecimentos que só provam a minha teoria de que seria maravilhoso que todos nós vivêssemos dentro da internet, faz uma semana que eu lembro e releio todo dia aquele email de ano novo que a Renata mandou nos primeiros dias de 2015, que destaca um trecho assim de um vídeo:

“conexão é o porquê de estarmos aqui. É o que dá propósito e significado às nossas vidas. É a razão de tudo. Não importa se você fala com pessoas que trabalhem com justiça social, saúde mental, abuso ou negligência, o que sabemos é que conexão, a habilidade de se sentir conectado, é – neurobiologicamente é assim que somos feitos – é o porquê de estarmos aqui.”

É um trecho desse vídeo aqui:

Cês viram? Essa é a Brene Brown, uma pesquisadora foda que estuda conexão humana e temas como vulnerabilidade, coragem, vergonha e merecimento (<3), no TEDxHouston. Sabe o que mais a Brene fez? Ela escreveu o prefácio do livro da Amanda Palmer, A Arte de Pedir. E ela escreveu isso aqui:

Mas este livro não trata de ver as pessoas a uma distância segura — aquele lugar sedutor em que muitos de nós vivemos, nos escondemos e para o qual corremos em busca do que pensamos ser segurança emocional. A arte de pedir é um livro sobre o cultivo da confiança e da maior proximidade possível com o amor, a vulnerabilidade e a conexão. Uma proximidade incômoda. Perigosa. Bela. E a proximidade incômoda é exatamente onde precisamos ficar se quisermos transformar essa cultura de afastamento e desconfiança fundamental.

(Tempo: eu descobri há um tempo, mas consolidei esse ano, que eu não sou nem um pouco capaz de escrever sobre as coisas que mudaram a minha vida. Nem um pouco capaz. Eu não sei falar sobre o show dos Rolling Stones, sobre minha viagem pra Cuba, sobre a morte do meu melhor amigo, sobre o livro da Amanda Palmer. Então eu vou ficar fazendo citações avulsas sem nenhum respeito por você, leitor, como se você soubesse minimamente do que eu estou falando, ok? Ok.)

Então tem esse email reverberando naquele ponto obscuro da minha cabecinha, e daí tem esse livro recém-lido, e aí tem tudo o que está acontecendo na vida, no país, no mundo, e daí tem essas newsletters, e daí tem festa de aniversário e daí me aparece a Carol, uma dessas pessoas pra quem eu talvez seja uma péssima amiga, dizendo que fui (gente, fui eu!) quem mostrou o vídeo da Brene pra ela, e que a ajudou em algum momento aquilo. E eu comento no twitter que queria escrever sobre esse tema e um. monte. de. gente. me pede pra ir em frente, mesmo que saia tudo torto e doa pra caralho.

Coincidência, amigos? Eu acho que não.

Vejam, eu não tenho nenhum bom conselho pra oferecer sobre o assunto. Na real, mesmo, esse post é um grande mimimi pessoal que muito provavelmente não interesse a ninguém. Mas, se todos esses fatores convergiram para dar num desabafo desse tamanho em que tudo faz sentido e que, em último caso, faça sentido pra mais alguém… Não é sobre isso que a gente tem que falar?

Tipo, não é esse o sentido de tudo? Se conectar, conhecer, compartilhar… Não é por isso que cada vez mais surgem coisas – negócios, coletivos, empresas, marcas pequenas, blogs, newsletter – colaborativas? Parceria, essa relação de confiança que faz com que nossos pais pensem “meu deus você vai ser sequestrada por essa pessoa da internet deve ser um terrorista não faça isso!”. Não é disso aí que fala a vida? #reflequissoes

Deve ter gente que não precisa disso. Que está satisfeita com a sua cota de trocas e não precisa de mais conexões – não interessa o quanto você ache essencial pra sua vida que você precisa daquilo. Paciência. Não é uma questão de quem é mais ou menos humano, sensível ou interessante, é mesmo mais sutil, mais interior, mais pessoal. Enquanto fizer sentido pra mim, eu vou estar aberta a isso. Mesmo.

A conexão é minha, de mim para os outros, e o que volta do mundo pra dentro é só o que eu permito. Essas conexões, essas trocas, sejam elas positivas ou negativas, dependem exclusivamente do que eu quero que elas sejam. Eu me adequo às necessidades alheias porque ter essa conexão é importante pra mim – e é egoísta demais da minha parte achar que a outra pessoa precisa dessa interação tanto quanto eu.

Eu preciso ser mais paciente comigo, mesmo que as pessoas não sejam. E se elas não podem me dar nada em troca, eu tenho que me bastar. Dar o que eu preciso pra ficar bem e, aí sim, me dar mais. Tornar essa relação mais justa pra mim. Talvez, sim, seja o caso de achar um ponto de equilíbrio entre a parte vulnerável e aquela vulnerável demais, aquela que quebra com facilidade, mais delicada. Talvez. Mesmo quebrando, a gente acaba construindo algo.

Deve ser sobre isso aí que fala a vida.