coisas da vida

leituras dos últimos tempos

O diário de leitura, que costumava ser mensal, sofreu umas mudanças por motivos de: NUM LEMBRO. Mentira, é que faz tanto tempo – e tanta coisa aconteceu nesse tempo – que parei pra escrever sobre as leituras que, aff, num vai dar pra ser no esquema de antes não. Mas como eu não quero deixar vocês órfãos (HAHAHA) e a minha ansiedade competitiva é grande demais para não estar cumprindo com afinco o meu desafio de 30 livros anuais no Goodreads, segue um overview das leituras dos últimos tempos aí:

leitura_ligaçõesLigações, de Rainbow Rowell

Rainbow, minha amada Rainbow – será que dá tempo de mudar de nome, gente? RAINBOW! – ataca novamente em mais um livro delicinha de ler, porém, mais fraquinho que os outros. Vamos deixar claro: eu sou apaixonada por essa mulher. Muito. Eu acho que ela tem um dom de tornar a leitura muito gostosa e seus personagens são imediatamente apaixonantes. Dessa vez, a gente conhece a Georgie, que é roteirista de séries.

Sim, eu falei roteirista de séries. Veja meu coração dando pulinhos de alegria!

O drama entra logo de cara, quando a gente vê que a Georgie e o Neal – o “cara perfeito” que também é seu marido – estão numa daquelas fases tensas do casamento. Ela prioriza o trabalho, ele não aguenta mais. Eles têm filhos e estão prestes a fazer a viagem de Natal pra casa dos pais dele – e ela tem que trabalhar. Daí, no meio da crise, a Georgie pega um telefone velho na casa da sua mãe e descobre que ele faz… Ligações para o passado! Para um passado em que ela e Neal tinham dado um tempo, pro começo do relacionamento, pra antes do casamento.

A história, que parece que não daria pra se relacionar e tals, fica bem, bem íntima: outro ponto super positivo da Rainbow é conseguir tirar questões bem universais – nesse caso, sobre relacionamentos, sobre o que é o amor, sobre dar prioridade pra você, e não pro boy – de histórias aparentemente bem particulares. Fica bacana! Porém, o drama se perde um pouco e a coisa toda começa a se arrastar num caminho muito novela da Globo. De qualquer maneira, vale a leitura até o fim.

Tem um parto de pugs em determinado momento. Queria finalizar com isso.

leitura_apanhadorO apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger

Antes que me apedrejem aqui, eu já tinha lido a versão em inglês deste livro, mas gente, isso foi num passado muito longínquo e obscuro em que metade das coisas que fazem sentido hoje nem sequer existiam. Então, numa tarde fria, com um bom lugar para ler um livro, acompanhei as aventuras de Holden de uma vez só – e, olha, que puta experiência, tentem fazer vocês também.

A história é a de um menino de 17 anos, Holden Caulfield, que foi reprovado em quase todas as matérias do seu internato de menino rico e é mandado pra casa antes dos outros alunos. Pra fingir que nada aconteceu, nosso amigo resolver dar um rolê pela cidade pra não levantar suspeitas, com um pouco de dinheiro na mão e um monte de minhoquinha na cabeça. O livro todo se passa no período de um final de semana, numa espécie de fluxo de consciência infinito, que mistura os acontecimentos reais, os pensamentos angustiantes e um pouco do passado e da vida dele até ali.

Eu nem sou tão a favor dessa coisa de ~contextualização~ assim, mas a gente fica ainda mais besta quando descobre que este é um livro lá dos anos 50 e bom, nos anos 50, minha gente, a gente não tinha ainda As vantagens de ser Invisível e nem todos esses maravilhoso YA à disposição. Nos anos 50, num tinha essa de “adolescência”, não tinha essa de busca existencial dos 17 anos, não tinha nada disso. Daí, quando você pensa na cabecinha do Holden e na sua, há uns anos, BAM. Muda tudo. É assustadoramente incrível!

Cara, que puta livro.

leitura_arrumaçãoA mágica da arrumação, de Marie Kondo

Ai que coisa marlinda. Japinha Marie Kondo sendo maravilhosa e destruindo toda a nossa bagunça acumuladora ocidental capitalista em 3, 2, 1. Apesar de achar um pouco too much – especificamente falando em tempos de mudança de cada e inúmeros site de decoração – e muita gente ter considerado o método KonMari bem radical, a gente tem que avançar na leitura pra perceber que tudo se resume a uma coisa simples: eu quero ter esse item? Querer da maneira mais íntima e sentimental do mundo, nesse caso, que é um absurdo tremendo se a gente fala em tempos de consumo maluco, desenfreado, de blogueiras de moda e de itens “tem que ter”, né? Mas é isso mesmo.

É um desses livros que você anota as dicas pra vida, do tipo: não é pra arrumar um pedacinho por dia – tire um dia e arrume TUDO; arrume por temas, e não por cômodos; nunca deixe sua mãe participar da arrumação com você; seja sincera: o que esse objeto te faz sentir? 

A gente tem (eu tenho, pelo menos, vocês têm também?) aquela mania estranha de guardar as coisas porque vaique. Vaique eu emagreço, vaique eu precise ir pra um lugar que precise dessa legging de oncinha com pintas neon, vaique um dia eu volte a usar esse material todo da 7ª série, vaique um dia eu volte com o ex e precise de todas as cartas de amor e fotos que tínhamos juntos. Gente: desapega. Guardar só gera menos espaço pra energia circular, e energia parada não significa nada de bom, nada de novo, nada de diferente – isso é Isa Kondo, não Marie Kondo 😉

Tia Marie vai na onda também do tal do armário cápsula, que virou moda e a gente tá aqui amando, e numa vibe mais geral, nessa percepção (tardia que só, né, gente?) que a gente não precisa de tanto pra ser feliz. Então bota abraçar o livro, dizer que o ama e partir pra arrumação e desapego, porque nada como a casa limpa e o coração tranquilo <3

leitura_cachorroTe vendo um cachorro, de Juan Pablo Villalobos

Juan Pablo Villalobos é um dos meus autores favoritos contemporâneos, e mescla duas coisas que meu coração revolucionário não pode resistir: histórias da América Latina/Central e um teco de realismo fantástico. Não dá, né? Eu sou fãzoca desde que comprei, obviamente pela capa – continue, mercado editorial, por favor, não pare! – o Festa no Covil. Depois veio o Se vivêssemos num lugar normal e, agora, Te vendo um cachorro. E eu não sei ainda qual meu favorito.

Já falei que não tô nem perto de fazer altas resenhas literárias por aqui, mas o sentimento geral de quando eu termino um livro do Villalobos é: eu preciso sair correndo e ir pro México. Eu imagino que todas as histórias tenham muito das lembranças de infância/vida adulta do autor, e ele consegue passar essa sensação de “este é um lugar completamente diferente de tudo o que você viu” misturada com aquela de “eu me lembro, mas não muito bem, posso ter inventado alguma coisa porque faz muito tempo” maravilhosamente. Ou seja: é tudo aquilo que eu queria ser como ~contadora de histórias~ e bom, ainda por cima, é mexicano. Já disse que meu coração não aguenta?

Bom, falando especificamente da história em si: os três livros formam uma trilogia, não necessariamente por histórias contínuas, mas por uma linearidade na voz dos narradores. O primeiro é Tochtli (leia fazendo o som, por favor), filho de um traficante de drogas, que ama hipopótamos-anões e palavras difíceis – não não, nem de longe é meu favorito, imaginem <3 -, depois vem Orestes, adolescente, que vive na base da disputa de quesadillas com os irmãos, e agora, Teo, um senhor de quase 80 anos completamente desbocado e artista. Tá vendo? Rola uma evolução.

O Teo é um desses senhores meio safados, meio tristes, que a gente adora e tem aquela pena ao mesmo tempo. Ele vive num prédio com um monte de outros aposentados, fãs de literatura que juram que ele próprio está escrevendo um romance. E daí, na narrativa meio amalucada e completamente cheia de sarcasmo, o autor consegue fazer, como faz também nos outros livros, a crítica social que pretende desde o começo ao seu país. Nada sutil, nada encoberto, mas lindo, lindo, lindo que só.

leitura_amigaA amiga genial, de Elena Ferrante

Não vai ter resenha cabeçuda nem enaltecendo a tal da “Ferrante Fever” que tentaram promover por aí – essa história de escritora misteriosa, que ninguém sabe quem é, que não fala com ninguém, mais me desmotiva do que anima pra procurar mais sobre dona Elena. E não precisa: o livro é sensacional, absolutamente sensacional, sem toda a parafernália literata.

A amiga genial é o primeiro da série chamada napolitana, que conta a história de duas amigas, Elena Greco (Lenu) e Rafaella Cerullo (Lila). Esse primeiro livro foca na infância delas. E daí? Bom, e daí que a escrita da sra. Ferrante é absolutamente envolvente: a ambientação, o bairro em que moram as duas garotas e suas famílias é, claramente, um dos personagens mais importantes da narrativa; ao mesmo tempo, o mergulho que a gente faz na cabeça das meninas é profundo e constrangedor, já que a autora não se esforça em nada para esconder aquela série de pensamentos horríveis, mesquinhos e às vezes até meio assustadores que a gente tem.

Numa história aparentemente simples, de competição entre amigas, das maluquices da adolescência, da evolução interior de cada uma, a gente consegue ter um panorama da Itália do pós-guerra e, ao mesmo tempo, uma reflexão sobre amizade e relacionamentos. Eu, particularmente, adoro a maneira como o bairro e as famílias são descritos: as fofocas, a construção dos mitos – o ogro comedor de criancinhas, a senhora maluca apaixonada – as safadezas das crianças, são muito próximas de todo mundo que teve uma família italiana dessas cheias de intrigas e um vocabulário pra lá de macarrônico.

É desses livros que mexem com aquelas coisas que a gente tem guardadas lá no fundo, mesmo que não se lembre (ou não queira admitir). Lindo, lindo.

***

Apesar de parecer bastante coisa, eu estou pra lá de atrasada no desafio de leitura do ano, e muito infeliz com a quantidade de livros/tempo de leitura que estou tendo. Me indiquem coisas bacanas? Prometo solenemente melhorar!

5 Comments

  • Nay

    Olha, apesar de louco e inconsequente, Holden Caulfield está no meu céu literário de tanto que amo esse personagem e esse livro. Certamente um dos meus preferidos na vida. Eu li o digital e até hoje não comprei o físico por motivos de estar uma pequena fortuna nas livrarias! GZUIS

    Vou indicar o livro que to lendo e amando e falando que todo mundo precisa pelo amor de Deus ler que é o livro da Amanda Palmer, A Arte de Pedir. Sério, pensa num livro maravilhoso de tudo, que vc tem vontade de grifar quase todas as páginas… é esse!

    Beijos!

  • Alessandra Rocha

    CATCHER <3 <3 <3 <3 eu amo tanto esse livro, ele me causa tantos feels! Agora, confesso que peguei abusinho desse KonMari com esse BOOM de armário capsula, minimalismo e zzzzzzzzZzzzz RONC, desculpa, hahhaa mas super concordo com o que você disse e assino embaixo, meu desapego demora um pouco mas sempre vem. Quero ler mais alguma coisa da RR, porque amei tanto Fangirl mas nunca mais li nada dela, aliás… 2015 em termos de leitura começou bem mas degringolou horrores e to me sentindo culpadíssima haha, vi esse "te vendo um cachorro" e quase comprei pela capa também, agora quero!

    beijo!

  • Re Vitrola

    Eu tô doida pra ler esse da Kondo, mas tenho medo de ficar mei loka, hahaha! Essas coisas mexem comigo, pois eu já sou meio agoniada com acúmulo, mas não sou organizada, dá pra entender? Se eu fizesse disso um hábito, não teria que tirar um dia “CHEGA JÁ DEU” e sair me desfazendo de quase tudo como eu faço.

    Eu fiquei curiosa pra ler esse do Pablo Villalobos pq eu curti Festa no Covil, gosto da forma como ele escreve até quero ler de novo (e adoro essas capas).

    bêjo,
    Re

  • Lee

    Mirmã, velho. Passei UM SÉCULO sem entrar nos meus blogs favoritos. Estou estudando pra uma prova, e enlouquecendo um pouco à cada dia. Cá chego eu pra só agora ver que teu blog tá até de layout novo! <3

    Não li nenhum livrinho dessa tua lista. Ultimamente, só tenho lido coisa chata por causa da prova, mas paciência, né? Eu tô com ligações perigosas no e-reader para começar, mas antes de ir pra ele quero terminar Confess e The Martian. Todo mundo também falou super do livro da Marie, e fiquei super curiosa. Adoro ler coisas sobre organização, e talvez possa me ajudar porque ultimamente minha vida tá uma zona. Não me apedreja porque não li O apanhador no campo de centeio. Ainda. Mas irei. haha

    Beijo, Isa! Fica bem! Ótimo dia pra ti. 🙂

  • Aline

    A Amiga Genial me surpreendeu muito! Que livro foda sobre mulheres num contexto de violência e precariedade. Já tô louca pelos seguintes!

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