coisas da vida

leituras de janeiro

Conforme prometido – vejam bem, eu estou efetivamente cumprindo uma das coisas que disse que faria por aqui! – um resuminho das minhas leituras do mês. Como eu estou de férias (xiu, não estraga!), consegui ler uma cacetada de livros que eu tinha por aqui parados, além de indicações de amigos e tudo o mais que acabou surgindo no meu Kindle através daquele inferninho de compras que é a Amazon. Também li algumas coisas pro trabalho, mas não vou fazer jabá por aqui – por enquanto. Então desconsiderem essa divergência entre o que eu vou postar aqui e o número de livros lidos no Goodreads, ok?

De todo jeito, achei janeiro um mês bem produtivo e com leituras que me encantaram bastante. Vamos a elas [com as marcações para o #DLdoTigre acima de cada livro]:

[recomendado por um amigo]

clarossinaisdeloucuraClaros sinais de loucura, de Karen Harrington:

a história é contada por Sarah, uma garota de onze/doze anos com uma vida bem maluca… A mãe tentou afogá-la e ao irmão quando eram bebês (e acabou conseguindo matar o irmão) e, desde então, vive presa em uma instituição psiquiátrica. Como o livro é contemporâneo, bom, a Sarah sabe de tudo: acompanhou a cobertura da mídia, sabe que todos seus colegas sabem de sua história, acostumou-se a mudar de cidade toda vez que o clima pesa demais para o lado dela e do pai, que, claro, virou alcoólatra com o trauma. A vida da Sarah não é tranquila: ela oscila entre a falta de ajuste típica da pré-adolescência, somando esse fator meio complicado da família e, puts, ela acha que vai ficar louca como a mãe. Daí o título.

Longe de ficar remoendo tudo naquele tom de autopiedade que a galera adora, a Sarah é uma garota engraçada, mega observadora e bastante autêntica, meio na linha do “já que é pra ser louca, então vou ser louca de verdade”, o que rende várias situações superlegais de reconhecimento de identidade. Todas as dúvidas e nóias da adolescência – primeiro beijo, ajuste nos grupos, escola – ganham um ponto de vista interessante e desprendido daquele julgamento que a gente costuma ter: a protagonista compartilha suas experiências – que ora são bem típicas da idade, tipo se apaixonar pelo carinha mais velho, ora são mega exigentes, como cuidar do pai bêbado – com sua amiga Planta e com as cartas que escreve para Atticus Finch, o protagonista de O sol é para todos (que entra na minha lista de leitura).

O mais legal: Sarah tem dois diários. O que ela escreve tudo o que ela realmente pensa e sente, assumindo que talvez esteja mesmo meio maluca, e revelando tudo o que se passa na sua vida; e o seu diário falso, em que escreve coisas banais do dia a dia, que esconde “mais ou menos”, que é pra quando ela morrer, acharem primeiro e pensarem “poxa, ela era normal”. Sarah <3

Podia passar sem: não curto muito o esquema final do Manoel Carlos, em que tudo da certo e o escritor finaliza com uma frase pra estampar capinhas de iPhone, mas como bem disse um amigo, “ela é tão novinha quando tudo acontece, ainda tem a vida inteira pela frente, vai se decepcionar bastante”. Heh.

[emprestado]

filomenafirmezaFilomena Firmeza, de Patrick Modiano:

o moço ganhou o prêmio Nobel de Literatura no ano passado e, bom… É isso. A Filomena Firmeza, além de ter esse nome sensacional – no original em francês é Catherine Certitude. Eu não sei se a tradução é fiel, mas achei o nome incrívelé uma dessas garotinhas que a gente se apaixona logo de cara. Aparentemente pode parecer uma história bobinha: ela faz aulas de balé e acompanha seu pai em seu trabalho meio complicado e no dia a dia de um pai solteiro, mostrando a cumplicidade comovente entre os dois. Aos poucos, você vai notando que através das memórias da Filomena – o livro é narrado por ela já adulta, rememorando os acontecimentos – rola uma reinterpretação, como se somente agora, quando a vida já mostrou o que tinha pra mostrar, ela entendesse o que rolou.

A mãe da Filomena era uma bailarina americana. O pai, um “comerciante” – um “faz tudo”, cheio de gambiarras – francês. Eles se separaram temporariamente, quando a mãe volta para os EUA e o pai fica, até arrumar seus negócios. Nesse tempo Filomena cresce com ele, ajudando e vendo as trapaças em que se mete. Ela começa a dançar como a mãe – de óculos, uma graça! 

O mais legal: você lê o livro de uma sentada só. Tudo é muito singelo e delicado, e o autor consegue passar a mesma sensação que deve ter pensado para os personagens: só no final você saca que, por trás do cotidiano aparentemente banal, do dia a dia construído, é tudo meio artificial e se escondem outras histórias que não podem ser tão legais assim. E as ilustrações do Sempé (do Le Petit Nicolas)!

Podia passar sem: nadinha. Amei!

[com a capa alaranjada]

pequenaabelhaPequena abelha, de Chris Cleave:

que coisa mais linda e mais triste do mundo. Chorei enquanto estava na praia, de pernas no sol e tomando água de coco – vejam o nível de sofrimento. Eu peguei esse livro sem saber nada sobre o enredo, e foi melhor assim. Dei de cara com uma história sobre refugiados nigerianos em Londres (socorro!), contada pela voz da Abelinha, uma personagem encantadora.

Basicamente, o livro se desenvolve através da voz de dois personagens: a Pequena Abelha, jovem nigeriana que fugiu da guerra em seu país para a Inglaterra, mas acaba indo para uma prisão de refugiados; e Sarah (outra¬¬), que Pequena Abelha conheceu por um dia em um incidente pra lá de confuso na Nigéria, há anos. As vidas das duas voltam a se cruzar da maneira mais dramática possível, e elas são obrigadas a enfrentarem o passado juntas, de novo. TADAM. Parece enredo de novela, mas gente, juro: é maravilhoso. Mesmo nas horas mais forçadinhas – tipo, CHORA LEITOR, vou matar uns 4 personagens aqui – é tudo escrito de uma maneira tão maravilhosa que você só quer continuar grifando e grifando e chorando de raiva por não ter escrito nada parecido.

O mais legal: a maneira com que a história é contada. Sério. Se você procurar outras resenhas por aí (tem várias mais completas que a minha, vai em frente!), vai ver várias frases de efeito falando de cicatrizes e destino e futuro e o terceiro mundo. Isso é lindo, mas entra um pouquinho na frase da capinha de iPhone que eu citei ali em cima. Tô falando de como o moço Cleave conseguiu captar algumas diferenças de linguagem que formam abismos imensos entre dois mundos.

Ás vezes eu penso que gostaria de ser uma moeda de uma libra esterlina em vez de uma menina africana. Todo mundo ficaria satisfeito ao me ver.

Todas as histórias das moças começavam com os-homens-vieram-e-eles. E todas terminavam com então-me-puseram-aqui-dentro.

Isto era sempre um problema pra mim quando estava aprendendo a falar a língua de vocês. Todas as palavras sabem se defender. No momento em que você vai agarrá-las, elas se dividem em dois significados diferentes de modo que a compreensão se fecha no vazio do ar. Admiro vocês. Vocês são iguais a feiticeiros, tornaram sua língua tão segura quanto seu dinheiro.

Abelinha passa o livro inteiro angustiada por uma busca de uma identidade que ela não consegue encontrar em lugar nenhum. Ela não é mais nigeriana, e também não é inglesa, por mais que se esforce.

Ah, pra quem ler: e o Batman <3 <3 <3

Podia passar sem: nas últimas páginas, a Sarah tem uma epifania e dá uma de Highlander pra vencer todos os inimigos da humanidade, de Gotham e da Abelinha. Fica-forçado, é claro. Acho que o próprio autor percebeu que o desfecho não era dos mais verossímeis e acabou correndo com um monte de acontecimento importante, tipo viagem-a-África-matança-suborno-aventuras-girafas-elefantes e final. Não prejudica o livro, não, a poesia continua lá, mas podia ter sido um pouco mais elaborado.

[recomendado por um amigo]

quartoQuarto, de Emma Donoghue:

outro narrador infantil aqui e veja, temos um padrão. É, eu não tenho jeito, adoro histórias contadas por crianças. Só que, no caso de Quarto, não tem nada de bonitinho na narrativa: Jack, um garoto de 5 anos, descreve como é seu dia a dia com a mãe. Tudo bem literal, mostrando como eles acordam, comem, brincam, leem, se exercitam, dormem… no Quarto, que é só o que eles têm. Jack e a mãe vivem em um cativeiro desde que ela foi raptada, há mais de 5 anos, pelo “velho Nick”, que vai visitá-la toda noite. Tenebroso.

É claro que não é tudo horrível, porque a gente fica apaixonada pela relação da mãe com o Jack. É linda a maneira que ela constrói o mundo para o filho, usando as poucas coisas que pode, e é lindo ver a criança incrível que o Jack se tornou apesar de todo o drama. O livro é dividido em duas partes: a agoniante vida dos dois dentro do Quarto e, depois (spoiler necessário), o comecinho da história deles no mundo real, no Lá Fora. É aí que acho que a autora consegue fugir do lugar comum “e tudo terminou bem”: ela desconstrói um pouco a coisa da mãe super heroína e do final feliz, e mostra, além do processo de adaptação de Jack, com milhões de coisas e pessoas novas, como as pessoas não estão preparadas pra ficarem sozinhas. Nunca.

O mais legal: sem dúvida, acompanhar as coisas mirabolantes que passam na cabeça de uma criança de 5 anos que, apesar de viver numa situação praticamente inconcebível, ainda é uma criança (fantástica <3) de 5 anos. Ah, e vai virar filme! Tem tudo pra ser bacana, viu!?

Podia passar sem: a coisa também se estende um pouco mais do que o necessário, e acaba desgastando bastante os dois personagens – afinal, são praticamente só os dois. O drama beira o brega em algumas partes – mas né, gente, olha esse tema ¬¬

E vocês, o que leram esse mês?

* Das quatro leituras do mês, três (apesar de eu só ter marcado duas, Pequena abelha também foi pescado em uma conversa nossa) foram indicações do queridíssimo Vitor – gente, vão ver as ilustras dele, pfv – que com certeza entendeu direitinho o meu gosto literário e predileção por narradores infantis/jovens. Gracias, Vi <3

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