do coração

era a roupa certa para um dia difícil

Eu achava que os corações partidos estavam seguros lá com os 20 e pouquinhos. Achava que depois a gente aprendia a lidar de uma maneira diferente. Toda vez que me disseram “eu sei que dói, mas passa”, confiei como que só tem aquilo pra confiar – e passou. Achei que nunca voltaria. Achava que todas aquelas fases – a que você fica com raiva e quer falar, a que você está destruída e quer só chorar, a que você ainda não acredita e fica completamente anestesiada – estavam diretamente ligadas aos que os 20 e pouquinhos não traziam, à falta de segurança, ao descobrimento inteiro, à certeza de que sabemos de tudo.

Toda vez que eu fico triste, eu descubro um livro novo. Eu não sei se eu descubro este livro porque eu estou triste ou se eu fico triste e então descubro magicamente um livro que me faz querer morar lá dentro. Mas quando eu não tenho muita força pra colher os caquinhos eu deixo eles esparramados mesmo, e me encontro inteira lendo sem parar, como se a sequência das frases e a coerência da história fosse me reconstruindo. Normalmente esse livro é um desses meio mágicos, que lembram pra gente que a gente pode fugir pra lugares mais incríveis, onde nada faz sentido e a gente pode viver uma outra vida. Onde os gatos não fazem mais do que a sua obrigação de nos levar por caminhos desconhecidos e lagos são oceanos e as pessoas sabem todos os mistérios do Universo, como que o dinheiro destrói todos os nossos sentimentos e que a gente precisa aprender a confiar uns nos outros.

O pavor ainda não tinha abandonado minha alma. Mas havia uma gatinha no meu travesseiro e ela ronronava em meu rosto e vibrava suavemente a cada ronronar, e logo eu adormeci.

8 Comments

  • Anny

    Depois dos 30 e pouquinho tbm acontece isso, to na fase de deixar os caquinhos esparramados sabe, mas ainda tenho aquela fé de que o tempo cura tudo.

  • Janice

    Pq toda essa tristeza?! Pegue um gatinho, molha as plantinhas e um toma um café, com o cheirinho de terra molhada, e fica bem!
    História velha, mas, “vai passar”.
    Bjks.

  • Carolina

    Minha querida, não tá tudo bem com você, né? Eu realmente espero que esteja, mas sinto que não.
    Já te falei o tanto que gosto de você e do seu blog, o quanto considero-o um refúgio especial na internet. E seus últimos textos me tem feito querer ir além de comentar. Queria poder te dar um abraço e um pedaço de bolo de chocolate, mas, na impossibilidade, sinta-se abraçada e coma um pedaço de bolo.

    Acredito que o mais lindo dos 20 anos é a nossa disponibilidade de viver. Estamos nos tornando adultos, querendo viver, fazer e acontecer. E quebramos a cara. E esperamos que isso não vá mais acontecer. Mas coração doendo é coração que bate. E passa. E volta. E sempre tem gente pra ajudar a passar de novo.

    Grande beijo!

    • Isadora

      te mandei um email (foi?) com a minha resposta pra você, mas saiba aqui também que: seu abraço chegou em mim, muito ♥ obrigada por esse carinho tão genuíno (e poderoso!), querida!

  • Natalia

    Alô. Eu também achava que isso era uma coisa dos vinte e poucos e me sentia um pouco aliviada por daqui uns anos não ter mais que me preocupar com isso, mas a vida tá sempre ai para mostrar que a gente não sabe de nada.

    Mas curtindo minha bad eu percebi que uma hora tem que passar, senão qual o ponto da vida? Não que eu acredite muito em destino ou que as coisas acontecem por um motivo, mas acho que uma hora passa, senão a gente acaba desistindo. Ou talvez a gente apenas muda a maneira de encarar porque sabe que não dá para continuar do jeito que tá.

    (olha eu confabulando no seu post)
    Mas dá um abraço aqui e estamos juntas. O mundo não acabou e estamos vivas, com muitos livros para ler até nos sentimos melhor.

    • Isadora

      você tem toda razão: ou passa, ou a gente muda a maneira de encarar, né? ficar em posição fetal curtindo a bad não é uma opção, pelo menos, não por muito tempo, haha.

      pode desabafar sempre, viu? ♥

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