era a roupa certa para um dia difícil

Eu achava que os corações partidos estavam seguros lá com os 20 e pouquinhos. Achava que depois a gente aprendia a lidar de uma maneira diferente. Toda vez que me disseram “eu sei que dói, mas passa”, confiei como que só tem aquilo pra confiar – e passou. Achei que nunca voltaria. Achava que todas aquelas fases – a que você fica com raiva e quer falar, a que você está destruída e quer só chorar, a que você ainda não acredita e fica completamente anestesiada – estavam diretamente ligadas aos que os 20 e pouquinhos não traziam, à falta de segurança, ao descobrimento inteiro, à certeza de que sabemos de tudo.

Toda vez que eu fico triste, eu descubro um livro novo. Eu não sei se eu descubro este livro porque eu estou triste ou se eu fico triste e então descubro magicamente um livro que me faz querer morar lá dentro. Mas quando eu não tenho muita força pra colher os caquinhos eu deixo eles esparramados mesmo, e me encontro inteira lendo sem parar, como se a sequência das frases e a coerência da história fosse me reconstruindo. Normalmente esse livro é um desses meio mágicos, que lembram pra gente que a gente pode fugir pra lugares mais incríveis, onde nada faz sentido e a gente pode viver uma outra vida. Onde os gatos não fazem mais do que a sua obrigação de nos levar por caminhos desconhecidos e lagos são oceanos e as pessoas sabem todos os mistérios do Universo, como que o dinheiro destrói todos os nossos sentimentos e que a gente precisa aprender a confiar uns nos outros.

O pavor ainda não tinha abandonado minha alma. Mas havia uma gatinha no meu travesseiro e ela ronronava em meu rosto e vibrava suavemente a cada ronronar, e logo eu adormeci.