domingo é um dia bunda #5

Eu ainda surto quando não tenho um plano. Seja o plano, detalhado, pra esse domingo ensolarado, seja um plano de vida que me coloque nessa ou naquela cidade definitivamente, nesse ou naquele país. Se eu paro pra pensar, é aquele vórtice infinito de medo paralisante misturado com a necessidade de me levantar agora e fazer algo – na maioria das vezes, algo equivocadíssimo.

A gente segue tentando encher os buracos, e os buracos são cada vez mais nítidos. Talvez a gente até tenha se acostumado com eles. Já não são tão escuros e gelados, vez ou outra, eu diria, são até um pouco aconchegantes. Buracos que dão aquela abraçada de leve, meio safada, mas também meio paternal, dizendo: vem cá, senta aqui, curte esse pedaço de tempo de fazer nada, curte esse dia que pedaço de dia que você vai nunca mais vai lembrar. E você vai jogando o jogo: esse eu não lembro, esse passa em branco, o próximo eu guardo, amanhã eu escrevo, eu fotografo, eu registro.

Tudo ainda te assusta, te enerva, te deixa o quê? É, ansiosa. Chegar antes – mas não antes o suficiente. Não saber quantas noites você vai ter que ficar fora. A lista interminável de coisas para comprar pra casa. Os quilos que não vão embora, por mais que você se esforce. A pele que não fica boa nunca. Não ter absolutamente nenhum controle sobre quem vai ficar na minha frente naquele show, o show, meu show. Ter a certeza, toda vez que sai de casa, que a gente perdeu uma briga importante e que estamos em minoria.

Tudo o que te acalma é cada vez mais nítido, também. Chacoalhar a cabeça e mandar fisicamente embora os pensamentos. Saber que vai acabar. Estar cada vez mais em paz com a pessoa que você escolheu ser. Se incomodar cada vez menos quando tentam te convencer que você está errada sobre essa pessoa. Os gatos. As escolhas. O sol que bate na janela no fim da tarde – mesmo de domingo. Escrever. Cantar sozinha pela casa. Qualquer coisa que eu faça com as minhas mãos. Terminá-las.

Falta muito, ainda. Falta mais calma, falta mais espontaneidade, faltam mais chacoalhões. Falta aquela casa pequena de dois andares cheia de plantas, dois ou três gatos, falta acordar cedo todo dia, incluir frutas na rotina. Falta entender, de uma vez por todas, que a vida é isso aí, e que tá tudo bem, e que a comanda individual dessa conta fecha – ainda que a do mundo esteja longe de fechar. E não é você que vai arrumar isso. E que, quem importa, fica. E que o que importa já está aí.

Eu ainda surto, mas cada vez menos.