vida bandida

canja

Então que o restaurante da firma custa R$ 13,50 pros “não-funcionários e colaboradores”, e você se encaixa nessa magnânima categoria. E dai que o restaurante da firma é ruim. Claro que, além disso, você gasta R$ 13,50 por dia – não é uma metáfora, a minha vida se desenrola em ironias metafísicas assim – de transporte público, porque você (ainda) mora em outra cidade. Não preciso dizer nada sobre a qualidade do transporte.

Nesse cenário, fica óbvio que eu estou emagrecendo. Até porque – por mais uma dessas ironias cósmicas – R$ 27 é exatamente o valor da parcela do próximo mês na Renner, porque todas nós jornalistas precisamos de um vestido de cavalinhos. Todas nós. Logo, entre gastar esse valor com comida ruim e pagar minhas dívidas para que eu possa fazer mais dívidas, eu não como.

Obviamente essa é só mais uma piada ruim. Quem me conhece sabe que eu não tenho maturidade suficiente nem para levar meu próprio corpo a sério. Então, e é no desespero que nós conhecemos o melhor e o pior das pessoas, eu descobri a alternativa que me permite 1) me alimentar de uma maneira minimamente não-fatal; 2) gastar menos que a parcela da Renner: sopa.

Existe sopa na firma. Sopa grossa, encorpada, com colheres nada saudáveis de maisena e outras substâncias não identificadas ou identificáveis. Mas sopa boa, que enche a barriga e esquenta o coração nos dias que o vestido de cavalinho fica para lavar.

Menos quando tem canja.

Quando tem canja, sou só eu. Eu e aquele caldo aguado de resto de frango e resto de arroz e resto de amor. Quando tem canja, não há lei. Quando tem canja a gente investe mais R$ 0,80 centavos no pacotinho de queijo ralado. Quando tem canja, você está sozinha na lanchonete.

E você tenta. Colherada after colherada você bota pra dentro, pensando na sopa de ervilha – que te traz pedacinhos de bacon surpresa -, na sopa de feijão – que, se você tiver sorte, tem cenoura molinha -, na sopa, DEUS, na sopa de mandioquinha. E enquanto você imagina porque desfiariam uma coisa se ela fosse realmente boa e checa o instagram à procura de fotos inspiradoras de rodízios japoneses, olha em volta ansiosa por um suspiro que seja de compaixão.

E derruba o celular na canja.

das maravilhas do home office

Porque eu ouço o tempo todo os amigos falando das maravilhas do home office. A gente cria pastas no Pinterest que certamente vão demandar mais do que trabalhar em casa para se tornarem reais, e vamos lendo revistas de gente linda dizendo que encontrou o prazer trabalhando com o que ama em horários flexíveis, e segue achando que a linha evolutiva da vida te levará, indiscutivelmente, para melhores em que você acorda cedo, malha, volta para casa, faz almoço e começa a trabalhar de pantufas.

E nesses maravilhosos dia de trabalhar em casa, descobrimos que não é nada disso. A começar pelo fato de “trabalhar” consistir em arrumar o quarto, desfazer todas as trapalhadas que fez sem querer em 4 anos de faculdade – do tipo manter 3 contas em bancos diferentes, com taxas mensais diferentes – e “atualizar o seu perfil profissional”. Ou seja: procurar um emprego que você não tenha que trabalhar de casa.

Primeiro que você está sempre de pijamas. Porque você acorda – obviamente em um horário nada comercial – e vai tomar seu café. Todos os outros membros da sua casa estão lá, em seus empregos fora de casa, então você continua de pijama. Come sua bananinha, volta para o quarto e põe o computador no colo. Na sua cama. Ajeita o travesseiro atrás e, convenhamos, nada menos confortável do que ficar sentada na sua cama de calça jeans. Então você continua de pijamas. E você até resolve as coisas que você precisava resolver e, quando chega a hora do almoço, palmas: que manhã mais produtiva. Resolvi três das dez tarefas do dia e ainda é a hora do almoço.

Mais ou menos às 19h você percebe que o dia acabou e você continuou ali: de pijamas. Então você levanta da cama e toma um banho, porque, meu deus, você pode estar pobre, mas a gente é limpinha. E quando sai do chuveiro percebe que logo mais você vai ter que dormir, afinal de contas amanhã é dia de acordar cedo para resolver duas das dez tarefas de hoje, que não deram certo porque você acordou tarde hoje. Então, nada melhor do que já se enfiar nos pijamas, pra não correr o risco.

E se você pensa, olha, que vida perfeita essa, se eu pudesse eu também viveria de pijamas, pensa que todos os seus dias ficam com cara de domingos à noite, que na televisão só tem programa que te faz sentir simpatia pela Ana Maria Braga e que não tem pra quê ganhar dinheiro se a única coisa com que você vai gastá-lo são, adivinhem? Pijamas.

Porque nem home office aqui tá glamouroso, minha gente.