vida bandida

corpo são, mente descaralhada

Como vocês sabe, há algum tempo eu venho frequentando a academia. Nesse período, já cometi algumas selfies de treino, já legendei imagens com “de hoje tá pago”, já até levei um famigerado squeeze com um famigerado whey protein (a versão vegana – deusa do céu, que coisa horrorosa). Logo eu, que me vangloriava de nunca ter feito tais coisas, fiz. Eu confesso, eu fiz. E digo mais: se você for semi-constantemente à academia, você também vai fazer. Vai por mim. É praticamente incontrolável.

Eu tenho vários problemas com a academia. O primeiro deles é que eu detesto ir à academia. Eu detesto todas as funções que envolvem ir à academia, e o problema é o trajeto todo em si, não necessariamente o fato de estar na academia, entende? Ir à academia significa que 1) eu vou acordar duas horas antes do necessário; 2) os gatos ainda estarão dormindo quando eu acordar então eu não vou acordar sendo afofada; 3) eu terei que acordar e viver um período sem tomar banho, que é uma das coisas que eu mais odeio no mundo; 4) eu terei que colocar uma roupa sem ter tomado banho; 5) uma roupa apertada; 6) eu terei que me comunicar minimamente com outros seres humanos (desgurpa mozão); 6) eu terei que comer alguma coisa antes de ter efetivamente acordado; 7) eu terei que dar bom dia às pessoas no elevador e na portaria do prédio e da academia antes de ter acordado.

Pronto, esse é meu primeiro problema com a academia, dividido em tópicos, para que não reste dúvida. É muito difícil chegar na academia, gente. Não é praticamente difícil, visto que ela está a dois quarteirões da minha casa, mas exige toda essa série de passos aí em cima. As 7 a.m. Deveria ser proibido. A partir do momento que eu estou na academia, os problemas deixam de envolver movimentos e existência no plano terreno e passam a ser a minha cabecinha.

Sim, a minha cabecinha.

Por quê, vocês perguntariam? Vou contar-lher-lhes.

Primeiro eu tô lá correndo na esteira. CORRENDO NA ESTEIRA. Tão lendo isso? Como eu tenho o fôlego de uma lontra com asma, eu não consigo correr necessariamente sem interrupções, então eu faço um ~treino em que corro uma quantidade de minutos X e ando uma outra quantidade de minutos Y (obviamente eu não vou contar quantos pra não ser julgada). Só que eu gosto de correr? Não, eu detesto correr. Eu gosto de 1) bater em pessoas com (às vezes) seu consentimento; 2) me agarrar numa barra de ferro e (tentar) ficar de ponta-cabeça. Eu não gosto de correr. Então eu tô correndo – no minuto em que eu devo correr – e pensando meu deus do céu eu esqueci de acentuar aquela palavra ontem no livro que eu tô fazendo no trabalho deve ter sido na página 163 eu lembro que tinha uma ilustração de um coentro do lado mas será que era 163 ou 173 será que eu esqueci de acentuar ou não tem mais acento eu deveria ter feito aquele curso da nova ortografia caralho Isadora que farsa que você é amanhã tem a moça do brigadeiro será que vai ter pipoca. Já no minuto que eu deveria estar ~descansando, eu estou pensando -58, -57, -56, -55 caralho um minuto passa muito rápido eu não vou aguentar mais correr -15, -14 por que eu tô pensando nisso eita porra tenho que começar a correr de novo socorro. Uma ótima maneira de desperdiçar meia hora da sua vida, eu diria.

Dai eu vou pros APARELHOS. O pessoal da malhação precisa muito de uma consultoria de marketing, né? Bom, eu tô lá nos aparelhos e eu não posso dizer que eu odeio estar nos aparelhos, porque pelo menos eu vejo uma função em estar nos aparelhos. Mínima, assim, mas se me dizem que se eu ficar 3 séries de 15 movimentos puxando aquele troço e eu vou ficar com as coxa da Gracyanne, quem sou eu pra desacreditar o moço? Uhum. Então eu me dirijo até o moço treinador professor coach e pergunto onde eu tenho que sentar e qual parte do meu corpo eu devo mexer, e eu faço.

Claro que na academia que eu vou, vocês precisam saber, não tem nenhum desses sistemas tecnológicos de treinos e acompanhamento, tá? É uma academia de bairro que não é a Smartfit, o treino está anotado na cabeça do moço, o moço se formou em Educação Física em 1954 e tá tudo bem. Eu acho. Então eu pergunto pro moço, o moço me indica, o moço regula as parada pra mim, viva o moço. Daí começa a cabecinha.

“Cadeira flexora extensora professora em 95º 50 kg 3 séries de 15 repetições”.

Eu sento no aparelho e 1) eu não caibo; 2) eu não sei arrumá-lo para que eu possa nele caber. Eu chamo o moço. Eu não arrisco simplesmente tentar arrumar o aparelho sozinha ou, nunca, subir no aparelho sozinha porque eu obviamente posso cair e morrer, cair e derrubar o aparelho (já aconteceu), subir e depois não conseguir mais sair (ainda acontece). Então eu chamo o moço e espero o moço e tenho que lidar com a frustração do moço sobre ter que ajudar essa pequena pessoa que não consegue subir sozinha no aparelho, e não uma panicat em busca de ajuda para adaptar seus glúteos avantajados ao aparelho. Paciência. O moço nunca chega, claro, o moço tá certamente ocupado com coisa mais importante que eu, eu aproveito pra postar uma selfie de treino afinal se não teve selfie não teve treino e fingir que eu sei fazer qualquer coisa naquele lugar do capeta.

Arruma, subo, sento, faço, 3 séries, 15 repetições, eita.

Na hora que eu decido sair, fazendo aquela cara de NOSSA QUE EXERCÍCIÃO DA PORRA QUE EU ACABEI DE FAZER VO SÓ SAIR DO APARELHO AGORA SUAVE e tô vendo todo um filme da minha vida na minha frente… O moço aparece. Me oferece ajuda. Me estende a mão. Eu conto dos meus problemas, ele dos seus. Nos beijamos e seguimos a vida que. Nessa hora, eu, no mínimo, enganchei alguma parte da roupa no aparelho e fez MUITO barulho. Nos momentos mais sérios, eu derrubei o troço que segura todos os pesos e eles estão caindo em câmera lenta, tipo aqueles vídeos de dominó enfileirado.

Tem também a parte que eu tô fazendo o exercício no aparelho em questão. Então digamos que eu esteja, vamos supor, dando uns coice naquele troço que a gente dá coice pra supostamente ficar com o bumbum na nuca. Você tá lá, chutando 35kg pra traz, focando nos seus glúteos, pensando que a cada repetição toda uma série de músculos estriados e nervos e tendões estão contribuindo para que você chegue mais perto do objetivo alcançado meu deus olha aquele catiorríneo ali na rua que fofíneo será que ele tem dono olha o dono veio atrás como é que ele deixa o catiorríneo solto vou sair daqui rapidão perguntar se ele não quer me dar o catiorríneo o Benja ficou bravo 3 meses com o Raposo ele queria assassinar o irmão mas dessa vez vai ser de boa um catiorríneo que fofo será que o catiorríneo destrói os móveis e as prantinha fora Temer catiorríneo era pra fazer quantas repetições mesmo?

Nunca dá certo. Se existe algum tipo de conexão entre o que eu penso e a parte do corpo que eu mexo, ou ainda, o lado do meu corpo que eu movimento, certamente eu me transformarei num centauro manquitola em breve.

Então, você me pergunta, eu vou à academia? Eu vou, migos. E por que será que vocês não estão vendo os efeitos que deveriam ser visíveis em minhas partes, caros leitores? Por isso. Obviamente isso me frustra imensamente já que eu estou gastando meu sono-tempo-dinheiro efetivamente indo à academia, porém dessa maneira supracitada, e eu passo as outras 2 horas depois da academia procurando “pq academia não funciona google pesquisar”, “maneiras de ficar grandona monstro sem precisar me mover” e “gracyanne me ajuda”.

Isso quando eu não somente durmo, que é o que acontece na maioria das vezes, já que eu vou um dia nessa joça e saio achando que já fiquei forte e queimei as calorias da semana inteira, não é mesmo?

30 antes dos 30 – Tirar os dentes do siso

Uma história de superação.

Vamo contar a história da pequena Menina Isadora.

Pequena Menina Isadora sempre foi uma menina muito metida a forçuda. Pequena Menina Isadora sempre foi brigona e briguenta, sempre achou que dava conta de todas as intempéries, sempre foi de fazer esportes brutos, de se provar. Fugiu da aula de balé pra fazer taewkondo, quebrou o çu jogando futebol cos meninos, perdeu o tampão do dedão no asfalto mais vezes do que pode recordar. Menina Isadora sempre se orgulhou de ser uma menina brutalhona e fuck the police esteótipo de gênero.

Mas. Menina Isadora morre de medo de dentista.

É um medo, assim, que é um pavor. A internet deve estar recheada de textões sobre a diferença entre medo e fobia, declarações apaixonadas sobre não brinque com o meu medo, o que é banal pra você pode ser um gatilho pra mim, e, se ainda orkut tivéssemos, certamente haveriam grupos seccionados em Eu Tenho Medo de Brilho Labial. Certeza. A questão é que eu tenho e sempre tive um medo do caralho de dentista de ficar suando na cadeira durante a aplicação de flúor hardcore passar vergonha dar tontura cair pressão.

Obviamente patético. O que nunca me ajudou a superá-lo.

Desde os 17 anos menina Isadora precisa extrair os dentes do siso. Menina Isadora foi lá em algum dentista aleatório e ele disse que eita tá tudo torto vamo fazer um raio x e extrair tudo. Menina Isadora começou a chorar na palavra “raio”. De pânico. Chorar e suar na cadeira de dentista. Desde então, nossa protagonista já passou por mais 10 dentistas – considerando (mentira) que ela vai ao dentista uma vez ao ano (mentira) – ignorando solenemente a recomendação “você precisa extrair todos seus quatro dentes do siso mas não dói relaxa vai dar tudo certo todo mundo faz isso” porque:

  1. Não dão anestesia geral para extração de dente do siso;
  2. Eu não posso fazer essa cirurgia chapada;

Logo, segui a vida, fazendo posts em que vocês me zoaram sobre a necessidade urgente de arrancar logo essas merda.

Eis que Menina Isadora foi recentemente fazer a sua visita ao dentista depois de muito tempo sem fazê-la talvez dois anos não nego nem confirmo e a conversa a seguir ocorreu:

Dentista: – Hmmmm, ahammmm, estou vendo aqui os seus sisos…
Menina Isadora: – HhJAHJHsnajhHAsnasnaysamenenammmm [EU SEI DOTORA EU TENHO QUE TIRAR DESGURPA EU TENHO MEDO SOCORR]
Dentista: – Nossa, eles são bem grandes pra sua arcada dentária, né?
Menina Isadora: – HAHJEnasnasuwwebnasdbaueera [MINHA NOSSA SENHORA EU VOMORRE]
Dentista: – O bom é que sua boca tem bastante espaço e todos nasceram direitinho, só falta um terminar de nascer aqui embaixo, parabéns.

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PARABÉNS.

OK?

Eu fui parabenizada pela dentista por ter espaço suficiente na minha boca para comportar todos os meus quatro magnânimos dentes do siso e nunca mais vou precisar pensar em extraí-los pois eu sou fodona parabéns pra mim rainha da higienização bucal.

 

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Então é isso. Fuck the police.

Não façam isso em casa plmdds.

 


esse post faz parte da série ~30 antes dos 30~, lista ambiciosa de coisas que eu separei pra fazer antes da fatídica idade chegar. você pode acompanhar meu fracasso por aqui – mas eu torceria por mim. estou torcendo. vamos lá. 

vai com calma

Olar meu povo, feliz ano novo!

O que dizer de um ano que já começa na loucura loucura loucura de modos que a gente só consegue chegar por aqui em pleno dia 15? Não sei. Tá sendo bom? Não sei. Tá sendo ruim? Não sei. Tá sendo cheio de coisa? Tá, ô se tá.

A vida de vocês também costuma ter uns ciclos assim, cheios de coisas, e outros em que parece que nada acontece? A minha sim. Especialmente dividida em meses, ou em fases. Do tipo: dez-mar é UMA LOUCURA. Começa no final do ano, em que todo mundo está louquinho pra se ver e matar a saudades/tirar do sistema o fato de que não conseguiu ver os amigos durante o ano inteiro, emenda com natal e ano novo, sempre aquela tensão relacionada às festas, vai pra janeiro e a gente tentando desesperadamente aproveitar o verão – e o verão é maravilhoso, saidaquisevocênãogostaeuquerosolequeimaduradeterceirograu – daí já vem a melhor época do ano, também conhecida como CARNAVAL, dois finais de semana e mais uns diazinhos regados à catuaba, bloquinho na rua e chuvarada tóxica de São Paulo e termina como? Com o meu aniversário.

É mágico.

É aquela fase em que a gente pensa “porra, talvez a vida seja boa mesmo, olha quanta coisa legal acontecendo, olha esses dias ensolarados, olha essa gente feliz!”, em que a gente questiona a necessidade da existência de blogs, newsletters e afins, já que a famigerada ~vida real parece muito mais legal, em que a gente faz declarações de amor à cidade, aos migos, e que tudo parece bom e próspero.

Daí começa a degringolar.

Esse ano eu resolvi não deixar a peteca cair e tentar – digo tentar porque MEUDEUSDOCÉU eu nunca vi tanta enrolação pra programar férias nessa vida socorro burocracia #nãoreclamedacrisetrabalhe #oimickjagger – emendar as minhas férias quaseque nesse período: digamos, em maio, já que tem o aniversário do boy em abril, o que garante uma boa thread de amor e amigos. Conseguiremos? Vamos acompanhar. Temos dinheiro pra viajar esse ano? Nenhum. Ficaremos em São Paulo e faremos listas daquelas coisas que nunca fizemos mas que “faremos nas próximas férias em casa”? Ô SE FAREMOS. Terminaremos as férias com aquele sentimento maravilhoso de frustração? Wait and see.

Lá pra maio/junho, e o segundo semestre de uma maneira geral nunca me agradaram muito – ano passado, ok, tivemos um certo casamento aí e uma certa viagem aí, então não conta. Mas, basicamente, já começa a bater aquela bad de “poxa já passou mais um ano e aí o que você fez?” e a voz da Simone começa a aparecer discretamente no fundo do seu cérebro. E, cacete, parece que esse ano vai ser mucho louco, desses de muito trabalho e pouco tempo pra descanso – e só o que eu queria era descansar um pouco. Estamos cansadas por antecipação? Estamos.

Claro que eu me meti, além do trabalho real oficial, em mais um ou dois projetos paralelos que demandam muito, muito tempo e dedicação e finais de semana de movimentação. Como lidaremos com isso? Não faço a menor ideia (com “crises de ansiedade”, eu digitei e apaguei, mas vou tentar lidar de uma maneira melhor com isso esse ano também). Isso porque, desses dois projetos, nenhum entra no quesito “realização de sonhos”. Ainda tem isso pra gente pensar. Sem contar meus cursos de miçangas que, me parece, terão que entrar num profundo standby esse ano.

Então é isso. Eu prometi que não faria grandes resoluções de ano novo – a única que fiz até agora entrou na agenda-bonitinha como cuidar mais de mim, mas na real, quer dizer “mexer essa bunda gorda” e “parar de ser mão de vaca com comida”, mas eu nunca, em hipótese alguma, assumiria isso pra vocês – e também (ainda) não passei perto das previsões de tia Susaninha, cês acreditam? Juro que (ainda) não, e que tá tudo bem assim, desse jeito meio “manda aí que nóis resolve daqui”. Quem é essa pessoa que vos escreve e o que ela fez com a sua amiga Isadora? Eu não sei. Gosto dela? Também não sei. Quanto tempo ela ficará por aqui? São questões.

2017eita

Essa sou eu depois de ter aceitado fazer um bate e volta que demorou 9h na ida e 6h na volta até o litoral norte na casa de pessoas completamente desconhecidas sem nenhum planejamento prévio num final de semana que marcou 38 graus com um colchão inflável sem saber se havia mais de um banheiro e postando essa foto no instagram sem poder conferir se meu mamilo estava efetivamente aparecendo porque o sol não permitia e postando mesmo assim (não estava aparecendo). eita.

 

Vamos aguardar.

Meanwhile eu entrei na onda, claro, do gracioso e hipster bullet journal planner agendinha incrementada e vou te dizer que está sendo bem legal me organizar por ali. Na real, sem muitos códigos e adesivos personalizados: só uma organização semanal pareada com uma lista de tarefas em que, yes you can, eu anoto tudo o que preciso fazer e não me cobro absurdamente se não consigo cumprir mais do que 1 ou 2 tarefas daquela lista – mas sempre me esforço muito bonitinhamente para cumprir ao menos 1 ou 2 tarefas da lista. Mesmo. Vem funcionando.

Novamente, vamos aguardar. Vem de boas, tá, 2017? Vamos tentar seguir assim até o final, sem dramas. Te amo. Beijos.

2016 eita; ou seventy years of being human

Tá todo mundo feliz que 2016 acabou.

Cara, foi treta. Foi difícil. Foi truncado. Exigiu muito da gente. Levou muito da gente. Colocou todos os nossos princípios à prova todo-o-santo-tempo. Se foi. Mas tá aí: a gente sobreviveu. E eu, no alto da minha patetice pisciana, acho que a gente acabou aprendendo com tudo o que se viu obrigado a desapegar. Na marra. Estamos todos cansados, exaustos, sem ter de onde tirar energia.

E também que eu não posso reclamar. Mesmo que tenha sido no meio de um monte de dificuldade, 2016 foi o ano que, bom… Que eu posso dizer que tudo o que foi importante deu certo. Que eu resolvi fazer um casamento do zero em 5 meses – e deu certo e foi lindo. Que eu dei um passo importante pra esse amor tão certo. Que a casinha se tornou finalmente um lar. Que, no meio do fim do mundo profissional que tá rolando, eu consegui pelo menos entender que tatu-do-bem, mesmo que não esteja, porque a gente consegue no final. Que eu botei em prática um dos planos do papel e, mesmo que não seja fácil, ele tá por aí, na vida.

Mesmo que seja na marra, algo fica. Fica que a gente aprendeu a ser resiliente. Fica que a gente descobriu pontos em comum, mesmo quando todo o mundo parecia contra a gente. Mesmo quando somos minoria. Fica que a gente percebe que tem muita gente disposto a lutar, a seguir. Fica que a gente aprende que nem sempre precisamos de tanto. De tantos. Fica que a gente descobre que tudo bem chorar também. Cair.

Foi um ano, acima de tudo, de crescimento pessoal. Dolorido, eita, bem dolorido, porque a gente vai se espremendo e moldando numa casca que às vezes não serve que, depois de um tempo, para de abraçar e começa a esmagar a gente. Dói se livrar dela, dói se desvencilhar de uns pedacinhos que ficam grudados, às vezes, não sai tudo de uma vez: a gente tem que ficar cutucando, tirando com cuidado, descascando até não sobrar mais nada. Longe de mim colocar aqui uma metáfora sobre casulos e lagartas e borboletas, mas é isso aí.

É difícil deixar pra trás, também. Pessoas, princípios, amores, hábitos. A gente se apega a coisas que talvez nem fossem tão reais assim. Também, quando desapega, tem essa mania besta de olhar com desdém, como quem não quer, como quem se alivia – e pode ter alívio, sim, mas que ele seja mais doce. Longe de mim colocar aqui a palavra gratidão, mas é isso aí. Olhar pra trás com a certeza de que ficou e pode continuar lá, mas sem ressentimentos ou mágoa.

Ver o que foi bom. Se esforçar pra ver o que for bom. Ver o que foi bom. Se agarrar no que foi bom.

Eu tou bem feliz com quem eu sou. Eu tou bem feliz com o que eu construí. Eu tou bem feliz com quem me acompanhou até aqui – embora eu precise me lembrar sempre de que tudo bem não estarem também. Eu tou bem feliz com a Isadora, de maneira geral. Foi a duras penas que a gente aprendeu, em 2016, que o foco tem que ser a gente, sempre, então que em 2017 a gente consiga lidar com essa lição de maneira mais calma e mais generosa.

Por isso, eu vou me permitir fazer essa transição de uma maneira mais leve, sem cobranças, sem pressão – sem listas!. Aproveitar que cai tudo num sábado e não permite muita comemoração ou rituais de passagem pra ser essa a resolução: atenção diária ao que foi bom. Comemorações diárias. Celebrações diárias. Ser feliz todo dia sim – e respeitar os dias ruins também.

É engraçado: parece que 2016 me ouviu falando essas coisas todas e resolveu dar seu último suspiro nas duas últimas semanas. Não sei aí com você, mas por aqui, tá tudo bagunçado, de corte de cabelo (que estava maravilhoso ¬¬) que deu errado a conta da Uber e todos os cartões que foram clonados, de maluquices mil no trabalho a burocracias da vida adulta que você nem sabe como surgiram. Dessas que desestabilizam a gente e nos deixam naquele estágio de “mas por que isso tá acontecendo comigo, se eu faço tudo direito?”.

O truque, eu acho, é respirar. Tudo bem dar errado. Não é só com você. A gente não pode controlar tudo. E tentar não criar o bichinho da raiva e da amargura aí dentro. Por pra fora, berrar no travesseiro, comer o pote de sorvete inteiro. Agarrar os gatos – falei que 2016 teve até gatinho novo filhote bebê? Teve.

E como eu ando nessas de não saber direito o que dizer, nem como, nem pra quem, eu queria deixar vocês com duas reflexões mais bonitas e completas que apareceram na minha vida essa semana, justo nela, toda complicada e cheia de problemas. A primeira é da Nath que, com as suas cartas, foi um dos pontos altos do ano, sempre pontual, sempre no timing certo: que o seu próximo ano seja repleto desses momentos que você quer registrar para guardar, postar, compartilhar. Porque a vida do instagram é, sim, muito maravilhosa e, no final das contas, a nossa vida é isso aí: um amontoado de bons momentos que a gente quer guardar pra sempre (em volta de um amontoado de momentos blé que a gente só esquece).

A segunda é um mix da apresentação da Patti Smith no Prêmio Nobel, no lugar do Bob Dylan, com a reflexão que ela fez na The New Yorker sobre o ocorrido – ela ficou nervosa, errou a letra, pediu pra voltar. Musa eterna da minha vida, essa mulher incrível que, a medida que envelhece, vai deixando mais e mais pensamentos importantes pra gente:

When my husband, Fred, died, my father told me that time does not heal all wounds but gives us the tools to endure them. I have found this to be true in the greatest and smallest of matters. Looking to the future, I am certain that the hard rain will not cease falling, and that we will all need to be vigilant. The year is coming to an end; on December 30th, I will perform “Horses” with my band, and my son and daughter, in the city where I was born. And all the things I have seen and experienced and remember will be within me, and the remorse I had felt so heavily will joyfully meld with all other moments. Seventy years of moments, seventy years of being human.

– How does it feel, Patti Smith (The New Yorker)

Todo mundo deveria assistir essa apresentação, pelo menos uma vez na vida.

Que a gente se permita ser assim: mais humanos, com mais erros, com mais sentimentos. Vamos com calma. Com amor. E vamos mais gentis.

Vem, sim, 2017. Seja legal com a gente!

hello can you hear me

Eu não posso falar.

Esse não é um texto metafórico metafísico metonímico em que eu relaciono os acontecimentos do mundo com a minha rouquidão nem nada. Poderia? Poderia, ô se poderia. Mas não é. Essa não é uma grande divagação sobre eu, como mulher, me sinto completamente impotente e insignificante diante dos últimos acontecimentos. Deveria? Uhum. Mas não é também.

Isso é uma recomendação médica.

Sexta-feira à noite, aquele stress gostoso, aquela sensação de “só eu me preocupo com essa porra de verdade” e o quê? Gripe. Aquele começo de gripe gostoso, maroto, moleque, que te deixa toda meio entupida e toda meio quente, de um jeito nada nada nada sensual. Como boa filha da minha mãe que sou, botei pra dentro o combo de remédios mais do que conhecido e capotei às 20h30.

Acordei “nova”: 80% menos entupida (20% eu sempre sou), 90% menos quente (HEH) e sem gripe. Vida que segue. Claro que, pra comemorar, eu resolvi fazer tudo o que não faço em absolutamente nenhum final de semana da minha vida: arrumei a casa inteira – que, na minha língua, significa “desmontar móveis e espalhá-los por outros cômodos” – fui a um aniversário/boteco à tarde e emendei com uma balada num rooftop no Centro de São Paulo de madrugada.

Não, não vou explicar como fui parar em uma balada num rooftop no Centro de São Paulo de madrugada. (Não foi bom)

Ah, Isa, que divertido, que bom que no dia seguinte você conseguiu acordar às 11h30, comer resto de pizza e passar o dia todo reassistindo os melhores episódios de Gilmore Girls de pijama sem tomar banho! Não, amigos. No dia seguinte eu fiz tudo menos acordar às 11h30, comer resto de pizza e passar o dia todo reassistindo os melhores episódios de Gilmore Girls de pijama sem tomar banho. Eu recebi meus pais num horário aceitável, porém não suficiente (com comida, pfv, muita comida, pelo menos isso), eu conversei como uma filha que não via os pais há mais de 1 mês, eu falei falei falei falei falei e depois? Eu saí, na chuva, para encontrar amigos e falar falar falar falar falar mais. E até cantar.

Deu certo? Já sabemos.

Segunda-feira lá estava eu completamente rouca. Não é assim, sexy rouca, Phoebe cantando jazz rouca. Não é engraçadinho rouca, tipo “ai que voz engraçada, Isa, você curtiu muito no final de semana, hein?”. É rouca nível: MENINA VOCÊ TEM CERTEZA QUE VOCÊ TÁ BEM no cafézinho do trabalho rouca. Então, eu tenho. Dói? Muito pouco, já tive piores, já arranquei as amígdalas no susto de dor. Tô comendo? Miga, vai ser necessário mais uns 2 Trumps e umas 3 gargantas pra eu parar de comer. Tô com febre? Num tô. Tô participando do surto de Caxumba de SP (sempre quis participar de um surto de doença contagiosa de SP)? Num tô. Tô funcional? Quem está, não é mesmo?

Daí ontem eu fui no médico e, depois de ele ter me perguntando exatamente 4 vezes se eu não sou alérgica a nenhum remédio – Sono? Alzheimer? Pouco caso? Plantão? Queria ter certeza? Nunca saberemos, mas em uma delas eu recebi “melhor testar, né?” – rolou um terrorismozinho básico que consistiu na frase: você não pode mais falar em hipótese alguma de jeito nenhum porque sua garganta-esôfago-celébro já está lesionado e se você forçar pode criar um calo definitivo e ficar com a voz prejudicada pra sempre ou ter até que operar.

Cês leram direito? A parte do DEFINITIVO FICAR COM A VOZ PREJUDICADA PRA SEMPRE.

Gente. Cês sabem a angústia que é pra uma pessoa com ascendente em Sagitário e lua em Leão não poder falar cas pessoa? [insira o meme do MIMIMI SIGNI DI NIVI aqui] Cês imaginam o meu desespero de não conseguir responder as, em média, 18 interações sem graça-reaça-sobre doenças dos velhos do meu prédio no elevador todas as manhãs? Cês têm ideia do que é não conseguir puxar assuntos imbecis olha-o-tempo-tá-chovendo-tá-calor no elevador da firma? Vocês conseguem entender o que é não poder sair correndo pra sala da coleguinha de trabalho berrando NÃO NÃO ERA ISSO PLMDDS CÊ FEZ ERRADO FOI O ARQUIVO ERRADO LIGA PRA CHINA ANTES DE IMPRIMIR MINHA FILHA SOCORR JESUSA e ter que mandar um email e esperar que ela visualize o mesmo?

Cês têm ideia do que é não poder responder toda vez que meu gato me chama MAMAI?

como estou por dentro

 

Pois é, amigos. E que dia é hoje? Sexta-feira. E desde quando eu tô assim? Desde sábado. E o que aconteceu desde então que eu não pude comentar em voz alta pra ninguém chorar gritar me esgoelar falar que eu vou embora pra sempre? Pois é. Então cês me desgurpe, mas enquanto não houver voz eu vou vir aqui fazer textão do desabafo e me esgoelar virtualmente com vocês enquanto tento ferozmente não procurar no Google “ficar rouca pra sempre é possível”.