vida bandida

O que eu aprendi sobre ser famosa na internet por um dia e meio

Eu não sou famosa na internet. Sim, eu tenho bastante seguidores – especialmente no instagram, e ainda bem que lá – e sou relativamente conhecidinha no meio bloguerístico, mas é mais por estar aqui desde que tudo era realmente mato do que por qualquer outra coisa. Eu não sou famosa-famosa, as pessoas não me conhecem, nada do que eu faço tem grande repercussão. E eu ouso dizer que só considero esse lugar tão acolhedor e bacana, tão casa, tão o lugar onde moram várias amigas, o local em que eu consigo me expressar tão bem, é porque construí, meio sem querer, meio querendo bastante, uma rede segura, de afeto, de carinho, que se ajuda e se motiva, e se gosta minimamente (e, em alguns casos, maximamente mesmo risos).

Daí esses dias um site de decoração veio aqui em casa. Não vou linkar tudo nesse post de desabafo pois não acho justo que as pessoas do site – meninas incríveis e queridas, que se interessaram pelo meu lar, foram super simpáticas e honestas, e fizeram boa parte da minha semana bem feliz e cheia de coisa boa – saibam desses problemas e de como eles me afetaram (mas depois, certamente, coloco o link aqui!). E no meio de um monte de coisas que me deixaram com o coração quentinho pois, além de ser uma coisa que eu sempre quis muito, recebi muito carinho e elogios, vieram também os haters.

Sim, haters. Num site de decoração. É real.

Quando fizemos as fotos, algumas amigas disseram, sempre em tom de piada: ahhh quero ver esse quadro do Che aí o que vai dar! Nós rimos, continuamos a beber nossas respectivas taças de vinho e seguimos o baile como deveríamos, afinal RISOS, não é mesmo. Era uma piada. Isso nunca seria um problema. Mas foi, gente.

Sim, um quadro do Che.

Eu já me questionei muito sobre esse quadro do Che. Primeiro porque não sei até que ponto ele mesmo, Ernestinho, ficaria feliz de ver a sua bela cara estampada em pôsteres e quadros e objetos de decoração. Segundo porque, e mais recentemente, me questiono sobre todo e qualquer ídolo ou ícone homem, seja ele um líder político ou um cantor. Terceiro porque as cores desse pôster são bem fortes e poderiam influenciar diretamente na decoração, risos.

Breve interlúdio: esse quadro do Che não é um quadro ou uma peça de decoração. Ele é um pôster de um filme produzido por alunos cubanos, feito à mão por um senhorzinho que fazia serigrafia numa praça em Havana. Quando soube que a gente era brasileiro, o senhorzinho fez um descontão e enfiou mais uns pôsteres no canudo que a gente levou pra casa. Isso não importa nada pra esse texto, mas essa história é bem legal.

Mas eu nunca tinha me questionado sobre não achar legal ou ideal ou seguro expressar meus princípios ideológicos e políticos, ainda que de maneira metafórica ou subjetiva, na minha própria casa.

Só que isso aconteceu. Dentre os milhares (<3) de likes e comentários de amor, de inspiração, de perguntas engraçadas do tipo como eles fazem pra ter 3 gatos e tudo isso de plantas (é possível, gente, tá turobem), o site recebeu vários comentários de ódio porque nós temos um quadro do Che Guevara na nossa sala de estar. Quer dizer que é bonito ser comunista? O quadro estragou tudo! Agora só faltam emoldurar Hitler e Mussolini! Carniceiro do ditador! Vocês deveriam ter vergonha de postar isso!

Esses foram só alguns, e eu faço questão de não voltar lá pra ver mais coisa.

Um quadro. Na minha casa. Na minha sala. Que eu comprei. Num site de decoração. Vocês entendem meu ponto? Eu não escrevo uma coluna política em que falo abertamente sobre como eu acho que só o comunismo vai salvar o planeta, eu não tentei convencer a ninguém da minha opinião política, eu não abri para discussão sobre como eu cheguei a esse princípio de vida, ninguém sabia a história do senhorzinho serigrafista (feiro? fáro?), nada. Um site de decoração. E comentários de ódio.

Fiquei pensando durante muito tempo (mesmo) (tocosono) que, caso ocorresse o mesmo “comigo” (COMIGO, né gente, essa ofensa pessoalíssima de entrar num site de decoração e encontrar ali algo de que não gostasse): eu iria xingar? Abro o site que gosto e encontro uma foto, sei lá, do Trump, pra ser assim bem óbvia. Vou falar NOSSA QUE HORROR QUE MAL GOSTO TIRA ISSO CARNICEIRO. Cara, eu não ia. Certamente eu iria zoar com alguém, certamente eu ficaria triste pelo fim da humanidade, certamente eu iria questionar os padrões estéticos daquela pessoa. Em silêncio. Porque é um site de decoração. Porque aqueles profissionais que fizeram aquela matéria têm o direito de postar o que eles quiserem, afinal, é a casa das pessoas, e não as deles. Porque a gente é livre pra escolher o que pendura em cima do nosso sofá.

É mesmo?

Ao mesmo tempo, fiquei horas pensando também se, caso acontecesse o mesmo e eu visse um quadro que incitasse à violência ou que ofendesse os direitos humanos, não é minha obrigação falar, criticar, comentar até sair do ar? É realmente uma reflexão, eu não sei a resposta. Uma casa com uma decoração linda e um quadro white power merece ser divulgada? Eu estou comparando alhos com bugalhos? Eu realmente não sei. Mas eu tenho bastante medo.

(Certamente o Google vai me banir pra sempre de toda a internet depois desse post cheeeeeio de palavra chave MASSA).

Eu aprendi um monte de coisa com esse episódio – na verdade, todas coisas que eu já sabia, mas que realmente não achei que pudessem ser tão reais e palpáveis e cheias de ódio e, bom, reais de novo. Eu lembrei que as pessoas são babacas e repetem as frases prontas (e ruins) como se fossem pré-programadas. Eu realmente entendi que atrás de um computador, sem cara a cara, sem olho no olho, a gente fala mesmo as coisas bizarras que estão guardadas dentro da gente, sem medo de machucar. Eu entendi finalmente que 99,9% das pessoas não param pra pensar no outro nem por 2 segundos. Eu realmente compreendi, agora, e morrendo de medo, que as pessoas são copos cheinhos de raiva, prontos pra transbordar da maneira mais rasa (risos) e imediata que der.

Dos mais de 8 mil likes em uma foto, eu fiquei com ou 5 ou 6 comentários de ódio pra mim.

Isso porque estamos falando de um site de decoração.

No Sesc 24 de Maio, meu novo lugar favorito nessa cidade maluca, tem uma instalação chamada Odiolândia, de Giselle Beiguelman, que nada mais é do que um caixotão escuro em que são projetados comentários postados na internet sobre as ações na Cracolândia. Só isso: uma sala escura, uma tela preta, os comentários em texto passando rápido na nossa frente, um som meio confuso no fundo. A gente fica ou sai da sala? Quem fica, fica com raiva, quer matar que fala? Quem fica fala aquelas coisas e não vê nada demais? Quem sai, sai com vergonha do que falou? Ou porque não aguentou o tranco de saber que existe tanto ódio assim?

Eu não falo publicamente sobre política, eu não uso crack, eu não sou a Dilma o Lula nãoseimaisquem, eu não causo na vida de ninguém, eu aqui só queria mesmo era decorar um pedaço da minha sala com a lembrança de uma viagem maravilhosa e a inocência de princípios que me ensinaram e me motivam e, quem sabe, me carregam e possam um dia virar realidade. Mas eu aprendi mesmo que o que move a gente é a raiva e ódio cada vez mais à mostra e, olha, eu estou exausta. E brava. Mas mais exausta.

Mas o quadro vai continuar lá.

I’ve fallen in love I’ve fallen in love for the first time and this time I know it’s for real I’ve fallen in love, God knows, God knows I’ve fallen in love

Esse post se chamaria “Um ode ao aspirador de pó de pé”,
caso “ode” não fosse um substantivo feminino e criasse
essa impressão horrenda de erro no meu título.
cantem comigo, eu não ligo para SEO.

 

Quando eu fui morar sozinha pela primeira vez, perguntei para minha mãe quais seriam as coisas primordiais que toda boa dona de casa deveria ter. Primeiramente risos, para poder me orgulhar de ter “somente o necessário”, tal qual Balu, segundamente porque não há dinheiro no mundo suficiente para se ter todas as coisas legais que uma pessoa pode ter em casa, no quesito coisas de casa. Mamãe respondeu, entre coisas de nomes que eu nunca havia ouvido falar e pareciam saídas de um capítulo élfico de O Senhor dos Aneis, que: uma máquina de lavar roupas e uma cama.

(Claro que ela também falou da geladeira e do fogão e eu respondi, como vocês devem estar pensando: AFE MÃE É CLARO QUE EU PENSEI NA GELADEIRA E NO FOGÃO NÉ MÃE EU SOU ADULTA NÉ MÃE AFE MÃE. O fogão só chegou em casa 2 meses depois e eu engordei 8 kg.)

Desobedeci mamãe, do alto da minha rebeldia, pois jamais gastaria dinheiro com uma cama, sendo que o Pinterest me dizia que eu poderia dormir em um confortável colchão no chão, como em um loft novaiorquino. Durou 2 meses. Fui correndo comprar uma cama box. A máquina de lavar roupas – conforme indicado e repetido insistentemente pela progenitora – foi, sim, uma Brastemp, e me acompanha até hoje, firme, forte, barulhenta, e salvadora de vidas a cada nova semana. A cama também.

O que mamãe nunca me contou, talvez por aquele sentimento que mães têm de que a Nova Tecnologia Moderna não está do lado certo da humanidade, e Só Era Bom o Que Era Feito Antigamente, é que existe um terceiro item indispensável, utilíssimo, essencial, topster tiro pisão viado, que é o aspirador de pé.

 

O aspirador de pé não é um utensílio que serve para aspirar a sujeira que fica em seus dedos, não. O aspirador de pé é um aspirador de pó que fica em pé, o que resultou nesse nome maravilhoso que poderia ser um belíssimo trocadalho, na minha cabeça de quem fica imaginando o estagiário que falou “vou cadastrar aqui como aspirador de pé JHUAHUAHUEHUHE” no site do Submarino pela primeira vez. O aspirador de pó que fica em pé foi, é, e sempre será o seu melhor amigo na manutenção diária do lar, e vou explicar-lhes os motivos.

O aspirador de pó de pé fica em pé. 

Ele fica em pé e ele é fino e comprido (ui) e ele cabe realmente em qualquer cantinho da sua casa. Ele fica ali, em pé, paradinho, esperando ansiosamente o momento para ser usado, e você só tem que esticar o braço e pegá-lo. Nada de subir na privada pra pegar o aspirador de pó (não de pé) monstruoso que fica guardado naquela caixa velha e carcomida na prateleira do banheirinho do fundo, descobrir onde foi parar aquela mangueira monstrenga, achar o bico no bagulho, demorar muitos tempos para juntar um ao outro, carregar o aspirador de pó (não de pé) até o local desejado e ficar naquele estica e puxa da mangueira do aspirador do fio da tomada e não puxa pela mangueira que estraga a mangueira e meu deus do céu atropelei o gato.

O aspirador de pó de pé é silencioso.

Infinitamente mais silencioso que o aspirador de pó (não de pé), dá pra ouvir música num limite aprovado pelos vizinhos enquanto faz faxina.

O aspirador de pó de pé alcança os cantinhos.

Sem precisar trocar o bico a mangueira as tomadas os fios o mapa astral. Você dá uma viradinha, ele alcança o cantinho. Você nem precisa abaixar.

O aspirador de pó de pé tem o fio comprido.

Dá pra aspirar o corredor, a cozinha, a sala e o outro corredor e a portinha do banheiro de uma tomadada só. Juro.

O aspirador de pó de pé custa menos de R$ 150 temers. 

Antes de eu ser convertida na seita d’O Aspirador de Pó de Pé eu achei que essa seria uma maravilha tecnológica daquelas inalcançáveis, tal qual o robô que limpa vidros e os higienizadores sônicos de pele. Um dia, durante uma Black Friday, pensei “será que o sonho do aspirador de pó de pé é realmente tão distante assim pra mim?”, mentalizando o bilhete dourado do Willy Wonka e tal foi minha surpresa quando descobri que existem modelos de menos de R$ 150 temers. O meu custou mais exatamente R$ 129,90 em uma promoção e entregou no dia seguinte.

Ou seja: o aspirador de o pó de pé é como varrer a casa, só que com um aspirador de pó. 

Que fica em pé.

Esse não é um publipost. Mas poderia ser.

As 3 situações mais malucas que eu já vivi

E estamos todos vivos e inteirinhos. E há quem diga que eu não sou uma pessoa aventureira:

// 01: O dia que saímos andando de madrugada a esmo em Havana com tudo dentro de uma mala por causa de uma barata monstruosa

Vejam, a viagem pra Cuba foi maravilhosa, sim, mas temos que lembrar que estávamos em Cuba, mais precisamente em Habana Vieja, mais precisamente mochilando há cerca de 20 dias, mais precisamente dormindo na casa das pessoas há cerca de quase um mês. Já havíamos tido a experiência de acordar com uma barata andando nas nossas pernas – na verdade, nas pernas do mozão, se fosse nas minhas eu não estaria aqui hoje pra contar essa história – e não havíamos particularmente gostado da mesma. Eis que em nossa última estada, num dos únicos prédios altos de Havana, cerca de 13 andares acima do nível em que as baratas deveriam permanecer, no apartamento de uma senhorinha que, sim, havia participado da Revolução, com uma vista que conseguíamos ver talvez até mesmo os mullets de Trump à distância, apareceu não somente uma barata, como uma baratona da porra, cascuda, enorme, que mais parecia um dinossauro. Sim, essa foi também a ocasião em que a cama estava infestada de pulgas. Não tivemos nenhuma dúvida sobre enfiar tudo nos mochilões e sair andando na rua, em Havana, mais precisamente em Habana Vieja, às 2 a.m. Em busca do quê? Nós não sabíamos. (A gente sabe que encontrou o amor verdadeiro quando tromba com pulgas e baratas monstruosas em Havana e só se olha e, sem usar palavras, enfia tudo no mochilão e vai embora do lugar na mesma hora). Mas nós saímos com tudo nas costas em busca de alguma perspectiva melhor que pulgas e baratas – o que, na rua, de madrugada, não parecia nem um pouco uma possibilidade – e, depois de bater em 2 lugares diferentes, acabamos nos hospedando um dos hotéis da máfia no coração da praça central de Havana. Deu certo. A cama era king size – estava quebrada, mas era king size. Não tinha barata. Nem pulga.

// 02: dia em que quase morremos assassinados por um porco gigante em Guarulhos, também de madrugada

Eu acho um absurdo quem diz que não sou uma pessoa jovem e que topa rolês espontâneos. Once upon a time, in a galaxy far far away aqui no Centro de São Paulo mesmo, enquanto ainda morávamos 1) eu em São Bernardo do Campo 2) mozão em Osasco, frequentávamos uma agradável festinha de aniversário. Eis que por volta das 23h, como todo bom morador da província, nos olhamos com o olhar cúmplice do “é hora de ir embora pegar 14 trens e 16 ônibus”. Mas uma simpática pessoa de bom coração disse: imagina, eu também moro em Osasco, dou uma carona pra vocês. Só vou passar rapidinho no aniversário de uma amiga aqui perto e levar a Nossa Outra Amiga* pra casa, se vocês não se importarem. Todas as pessoas que moram na Província sabem que qualquer desvio é mais interessante que voltar de 14 trens e 16 ônibus, então aceitamos. Insira aqui uma longa passagem por um karaokê festa estranha com gente esquisita, então estávamos no carro. Eu, semi embriagada, achei que as placas “Rio de Janeiro” e “Campinas” eram fruto da minha imaginação, mas era tudo real (ou bem perto disso): após longas horas de trajeto, chegávamos em Guarulhos. Guarulhos. Eis que Nossa Outra Amiga disse, com muita simpatia: vocês não querem entrar e conhecer o Woody Allen*? Que fofo, pensei, ela tem um doguinho chamado Woody Allen, hehehe. Entramos, efetivamente conhecemos vários doguinhos, até o momento em que era disse: venham ver o Woody! Oras, então Woody não era um daqueles doguinhos? Que curioso, quantos doguinhos! Atravessamos seu grande quintal até um corredor fechado com um portão certamente importado de Alcatraz e pudemos avistar Woody Allen: um porco. Um porco enorme. Um porco certamente maior que eu. Woody, como bom porco de estimação, sorriu e deixou ser afagado. Nós, como bons filhos de apartamentos que somos, quisemos afagar o Woody. Woody não gostou de se sentir encurralado e apalpado por 5 pessoas diferentes. Woody ficou bravo. Woody saiu berrando e tentando morder nossos calcanhares, enquanto todos corríamos em direções diferentes tentando escalar as paredes e árvores do quintal. Eu só pensava “como eu vou explicar pra minha chefe que não vou poder ir pro trabalho porque um porco comeu minha perna?”. Nossa Outra Amiga, depois de conter Woody, soltou, entre suspiros: eu nunca tinha visto ele tão bravo assim, hehe.

// 03: O dia em que fui abandonada com uma cômoda maior que eu no meio da rua em Higienópolis, essa foi de tarde mesmo

Eu compro móveis onde for; Eu compro móveis nos brechós da São João, eu compro móveis em Famílias Vendem Tudos risos, eu compro móveis na internet, eu compro móveis de pessoas descartando móveis na rua. Eu nunca tinha comprado um móvel no Enjoei, mas uma amiga disse que “tudo bem”, e eu comprei uma cômoda antiga maravilhosa a preço de banana. Uma cômoda de madeira, uma cômoda robusta, uma cômoda de 1m de largura x 96 cm de altura x 53 cm de profundidade. Anotaram essas medidas? Pois bem, meu carreto não. Meu carreto, depois de me deixar esperando por 35 minutos na casa da pessoa num sábado à tarde, esgotando todo e qualquer assunto que uma pessoa pode ter com outra num sábado à tarde com uma cômoda debaixo do braço, chegou com um Corsa Sedan, uma cara de tacho, e um “viiiiiiiiiiiiixe”. Meu carreto também não me ajudou a tentar colocar a cômoda em seu Corsa Sedan, ele preferiu deixar isso a cargo do moço da pizzaria ao lado da casa da pessoa desconhecida que havia me vendido a cômoda, que comprovou o “vixe”, a cômoda não cabia, e tirou da minha boca as palavras “como é que você diz que faz carreto e não mede seu carro pra ver se o móvel cabe lá dentro”. Certa de que estava participando de alguma pegadinha do programa do Luciano Huck, que estavam me filmando e que iam, a partir desse momento de desespero, me buscar com uma limusine, levar a cômoda de riquixá e reformar toda a minha casa com um projeto horrível de um arquiteto rico, eu, comprovando que a expressão “sentar e chorar” é realmente possível em qualquer cenário, escalei a cômoda de 1m de largura x 96 cm de altura x 53 cm de profundidade, sentei em seu tampo maciço de madeira na calçada de uma rua rica de Higienópolis, e chorei.

(Depois eu arranjei um anjo de um taxista que topou levar a cômoda no seu carro em troca de favores sexuais que não poderei descrever aqui e cheguei em casa e a cômoda é linda mesmo podem comprar móveis onde vocês quiserem continuem.)

daora a vida

 

* Foram usados nomes fictícios para proteger a identidade de seres humanos e porcos (o porco chamava Tarantino. TARANTINO!).

em 100 metros você chegará ao seu destino

Às vezes eu falo pras pessoas que moro perto do trabalho e elas dão aquele sorrisinho leve, timidamente invejoso, porém incrédulo, do tipo “você mora a uma estação de metrô”. Eu digo que moro do lado do trabalho, assim, enfatizando do lado com itálico e tudo e as pessoas continuam achando que é só perto. O pessoal tem dificuldade em aceitar que eu realmente moro ao-lado-do-trabalho.

Meu prédio. O estacionamento do trabalho. O prédio do trabalho.

Assim.

O Google diz pra mim que do lado significa cerca de 1 minuto a pé, 97 metros, mais precisamente. Eu já pensei em gravar um vlog risos vídeo mostrando pra vocês exatamente o número de passos que eu dou em direção ao famigerado chiqueirinho, mas tenho medo dos stalkers risos. Mas eu moro realmente do lado do trabalho, a ponto de ver a sala dos colegas da janela da minha lavanderia, e o mais engraçado de tudo é que eu nem fiz de propósito: eu já morava aí antes de trabalhar no atual trabalho.

Eu diria que é o universo o karma a Susan Miller me dizendo que eu já paguei todos os pecados por ter vivido 10 anos da minha maravilhosa vida adulta indo e voltando para São Bernardo todos os dias – e não apenas indo e voltando para São Bernardo, mas indo e voltando para São Bernardo do 1) Jaguaré; 2) Usp; 3) Jaguaré. Cês vejam que não foi fácil. Um dos falecidos blogs lá dos idos de 2017 tinha até um filtro especial pra quando eu digitava “Berrini”. Uma hora eu tinha que ganhar alguma benesse dos astros, não é mesmo?

E bom, além de morar do lado do trabalho, na rua do meu trabalho tem um restaurante vegano. Eu não sou vegana, mas eu sou vegetariana e gosto muito da proposta de almoçar em um lugar que não tenha absolutamente nenhum produto de origem animal. Tem isso, e tem o lance de que o restaurante vegano é o único estabelecimento que aceita meu maravilhoso VR de 12 golpinhos na região. Doze. Golpes. Logo, é claro que eu almoço no restaurante vegano todos os dias.

Disclaimer: muito já foi dito sobre eu almoçar em casa neste recinto virtual, mas a verdade é que mozão não tava dando conta de cozinhar tudo o que Isadora Gil, filha de Bela Gil, a terceira de seu nome, está consumindo em termos alimentícios em sua fase musa fitness veganinha. E o restaurante vegano de 12 conto é na rua de casa. Voltemos.

O restaurante vegano da rua de casa que é a mesma rua do trabalho fica a exatos, segundo o Google, 600 metros de distância. 600 metros. 7 minutos caminhando. Então vocês calculem que eu levo 1 minuto de casa até o trabalho, depois mais 1 minuto do trabalho até passar na frente de casa e seguir mais 7 minutos em direção ao restaurante vegano na outra direção na mesma rua de casa do trabalho e volto mais 7 minutos até em casa mais 1 minuto até o trabalho.

O que eu já achava um absurdo em termos de movimentação diária, que me levava a ir visitar o banheiro da firma incansavelmente em busca de algum remelexo de pernas, que me deixava seriamente preocupada com varizes e outros problemas circulatórios, tudo isso mudou drasticamente quando o restaurante vegano da rua de casa da rua do trabalho abriu uma filial.

Na frente do trabalho.

A 2 minutos de casa. Mais exatamente 140 metros de distância. 1 minuto de casa até o trabalho 2 minutos do trabalho até o restaurante volta 2 minutos 1 minuto do trabalho até em casa. Uns 12 passos. 12 passos entre meu trabalho minha casa o restaurante que eu almoço todos os dias meus gatos minhas plantas meus gatos minhas coisas o trabalho a comida meus gatos minhas plantas. Cês entendem porque eu não saio de casa?

Ah: a academia fica a 300 metros de casa. 4 minutos, de acordo com o Google.

Provavelmente eu morra ainda este ano.

As 3 coisas mais constrangedoras pelas quais eu já passei

A vida só é suportável se a gente encher a cara souber dar risada da própria desgraça, não é mesmo, minha gente? É mesmo sim, segue a lista:

// 01: O dia que eu caí do palco no discurso de formatura

Na oitava série Isadorinha era uma aluna muito querida por todos e foi escolhida para fazer o discurso de formatura. Não só dizê-lo, como escrevê-lo. Isadorinha usou de toda sua habilidade letrística para tal feito, inclusive lançando mão da citação de Martin Luther King (deusa da apropriação cultural mim desgurpa) para um evento tão importante e que mudou os rumos da sociedade a partir de então. Isadorinha não só usou seus dotes literários como também seu conhecimento teatral para, como boa estudante tilelê que já era, propor um discurso meio jogral em que Isadorinha trocava de lugar com seu coleguinha de turma, e cada um recitava um trecho do discurso. Pois bem: na primeira troca de lugar o que Isadorinha fez? Isadorinha caiu feio bosta de cima do palco de 2m de altura. Feito bosta. Isadorinha pousou lindamente de pé (e de saltos), arrumou o capelo, voltou para cima do palco pela escadinha lateral e terminou o discurso como Beyoncé faria. No vídeo da formatura dá pra ouvir “oooooooh!” e o efeito especial de uma criança desaparecendo.

// 02: O dia que meu a sola do meu sapato descolou no meu primeiro dia de trabalho (da vida inteira)

Quando você está no seu primeiro dia de trabalho – estágio, no caso – da sua vida inteira, você não tem roupas. Até então você só usava tênis de corrida + uniforme, no máximo uma sandália da handbook de final de semana. Você não tem roupas. Você faz o quê? Você pega um sapato emprestado da sua mãe. Sapato esse que sua mãe usou quando? Antes de ficar grávida de você. O que acontece nesse cenário? No seu primeiro dia de trabalho da sua vida inteira você sai pra almoçar com a sua primeira chefe da vida inteira e a sola do sapato da sua mãe descola, cai, fica pra trás, sua chefe vê, e você tem que pedir pra ela entrar na Besni e comprar um sapato novo pra você porque, claro, você ainda não tem salário, já que esse é seu primeiro dia de trabalho da sua vida inteira. Não que a vida profissional tenha ficado muito diferente disso nos próximos anos

// 03: O dia que eu passei um dia inteiro berrando na classe que tinha algo cheirando ketchup, mas na real era só o meu cabelo que cheirava ketchup

Isadorinha ainda mais inha que a que caiu do palco passou por aquele momento constrangedor chamado piolhos. De alguma maneira que a minha excelentíssima mãe se pergunta até hoje, sim, eu peguei piolhos. E obviamente e desesperadamente comecei a tratar dos piolhos de todas as maneiras possíveis. Uma dessas maneiras era tomar banho com um xampu indicado pela médica que, segundo a própria, acabaria com os piolhos e NADA MAIS. E nada mais. Daí eu usei o xampu e saí de casa como boa pré-adolescente rebelde: de cabelos molhados amarrados no rabo de cavalo mais apertado possível. Cheguei na escola, soltei o cabelo e comecei completamente non related NOSSA QUE CHEIRO DE KETCHUP NOSSA ALGUÉM DERRUBOU KETCHUP NA ROUPA NOSSA MEU DEUS QUE CHEIRO DE KETCHUP GENTE CÊS NÃO TÃO SENTINDO O CHEIRO KETCHUP CHEIRO BEU TEUS KETCHUP. Claro que o cheiro era do meu cabelo e eu só percebi quando? Quando um coleguinha amigavelmente me avisou.

Bom é que agora eu sei que, quem voltar aqui, é porque me ama genuinamente, né? Amo vocês.