teorias da madrugada

eu não sei usar o whatsapp

Eu não sei usar o whatsapp.

Em primeiro lugar, eu não entendo o whastapp. Veja bem: eu não sou uma dessas pessoas blasé que reclama da tecnologia, dos smartphones, da vida, do café gourmet. Eu amo imensamente todas as facilidades, eu abro o Instagram como primeira coisa do meu dia, eu sofro a cada mensagem do Facebook que o 3G da Vivo não me deixa ler imediatamente. Mas eu não entendo o whatsapp.

Não consigo imaginar uma coisa mais opressora do que um aplicativo que me deixa conectada a todo mundo o tempo todo. NÃO DÁ. Tipo, tô cagando, gente. Não, não assim, no sentido figurado: eu tô literalmente cagando, e vocês estão lá, me contando sobre a vida, sobre o jantar, sobre o moço que não liga de volta. Eu tô dormindo: vocês estão me falando sobre o que viram na rua. Eu tô comendo: vocês estão me contando sobre o que estão comendo.

Não que eu não queira saber tudo isso. É claro que quero, amigos queridos. Mas me mandem um email. É tão mais elegante. Tão mais “chegado”. Tão mais íntimo. Tem tantas possibilidades mais que eu resposta, nossa, vocês nem imaginam. [Parênteses, ou chaves: aqui entra também o meu plano requentado da Vivo, que não entrega as mensagens quando ele não quer.] Se for urgente, então, por favor: me liga, minha nossa senhora. Nem que seja pra falar que o boyzinho não te liga. Serião. Vai ser mais legal.

“Ah, Isa, mas você tá no trabalho, eu preciso te contar…”. Nega, eu tô sempre no trabalho. E eu tô sempre conectada. O que significa que a chance de eu ler seu email, sua mensagem no Facebook (hello xoxo media!), sua DM no Twitter são infinitamente maiores do que eu alcançar meu celular – provavelmente sem bateria, aliás -, conectar no wifi da firma (hello plano requentado da Vivo), esperar o app abrir (oi, iPhone 4 desatualizado) e te responder no tempo em que uma mensagem de whatsapp demandaria.

Dai a gente entra no: eu não sei usar o whatsapp. Porque, por mais que eu demore, eu respondo ao Facebook, aos emails, às DMs, ao resto da vida inteira, e é te ligo de voltar, se você der sorte. Mas daí eu faço todo o procedimento citado acima e, quando o troço conecta, IH GENTE, deu xabu no trabalho. E eu esqueço o celular. E daí o que acontece? Ninguém me lembra que aquela mensagem um dia na história desse país existiu. E aí vocês dizem que eu sou relapsa.

E pra terminar uma conversa então, meu povo? Emoticons são infinitos. Você manda um delicado “oi, fulana, hoje vou chegar atrasada porque meu gato entrou embaixo da cama e não quis mais sair de lá”, e a pessoa te responde “claro, fica tranquila!”. Você responde :). A pessoa responde :). Daí você manda um 😉 pra não parecer muito escrota. Ela te manda um gatinho com corações nos olhos. Você manda sorriso. Ela piscadinha. Ela te manda um avião. Você uma boia de piscina. INFINITAMENTE. Até o sol raiar e eu parar de achar que estou sendo mal educada com as pessoas.

Sabe, eu sou legal, gente. Eu sou educada. Eu gosto de conversar. Mas eu não sei usar o whatsapp. Sejam elegantes e me escrevam emails. Com assinatura, sabe?

Beijos com saudades,

Isadora. 

Assim.

porque eu gosto de John Green

Quando começou a febre do moçoilo, eu fui bem vendida atrás dos livros. Não é mistério pra ninguém o quanto eu gosto de literatura juvenil, então nada mais justo do que descobrir quem era tal do tio que postava vídeos incríveis por aí, tinha um Instagram hypezinho e, de quebra, fazia uns livros. Mas não: eu nunca entrei – mentira, agora eu entrei e tô viciada, é claro – no canal dele, e só comecei a seguir as fotos depois que vi aquele que garoto bun-di-nha tinha sido escolhido pra fazer o Augustus no cinema. Bleh. A princípio, comprei Quem é você, Alaska? totalmente sem querer na Feira da Usp, só porque o livro estava custando 10 dilmas e a capa me chamou a atenção.

Dai em diante, eu me forcei a ler todos. Sim, eu me forcei a ler todos os livros do John Green numa espécie de desafio pessoal e segunda chance em looping pra ele: porque eu não curti os finais. Eu não gostei do final de Alaskamaôe, quem curtiu? -, eu abominei o final de Cidades de Papel, eu quase infartei com Katherine e, bom, em A Culpa é das Estrelas não teve muito jeito, né? Mas tá. Pode ser que eu tenha um lado Disney muito forte dentro de mim, desses que espera final com Canção Original vencedora de Oscar e tudo o mais, mas porra, John: histórias boas demais pra finais ruins – mais ou menos a mesma impressão que eu tive com a série Divergente, com a diferença que eu não quis atirar os do Green na privada.

Mas eu vou acreditar que tio John Green queira apenas nos passar aquela bonita mensagem do “a jornada é o que importa” e um senso de realidade às histórias dos seus livros do tipo “isso poderia ter acontecido com você, a vida é assim, chata e nada apoteótica”. Vejam que eu construí toda uma tese baseada na culpa e absolvição do moço. Ele merece.

Eu gosto muito de John Green primeiro e principalmente por conta dos personagens femininos. Mais que as protagonistas de todos os livros, as meninas são os principais objetos das histórias – seja pro bem ou pro mal. Normalmente, é pro mal. Elas são todas um pouco descontroladas, um pouco fora da casinha, um pouco “ah que bonitinha que ela é, não, pera”. Ou seja: absolutamente normais. Às vezes, é claro, rola uma força-ção-zinha de barra, naquele sentido “mas ninguém pode ser tão complexa assim”, uma idealização de Tangerine meio adaptada pro mundo teenager, mas eu relevo, porque a gente precisa de novos ídolos, né gente? Então, ao meu ver, nada melhor do que ter uma adolescente dizendo que “eu sou IGUALZINHA a menina descontrolada que larga todo mundo pra trás só porque está a fim de se conhecer melhor” do que, sei lá, nego ainda pirando na Mia Farrow. Eu amo a Mia Farrow. Mas chega.

(Claro que aqui não coube nenhuma super análise feminista da minha parte, apenas uma leitura superficial e de percepção, mesmo.)

Depois tem esse lance da realidade que ele pegou muito bem de um dos pontos de vistas mais difíceis que tem: a adolescência. Porque, né, gente, que porra você sabia da vida com 16 anos? Nada. É, nada. E ele saca isso. Saca que, além do câncer, da doença, do amor, da viagem, da loucura, eles são adolescente, e daí você espera coisas tipicamente adolescentes de cada personagem porque, antes de mais nada, eles são adolescentes. Fim. Então é tipo: adolescente com câncer. Check. Mas adolescente que-dirige-que-bebe-que-fode-que-vai-a-escola-que-não-quer-ir-a-escola-que-não-quer-não-ir-a-escola com câncer. Sem subestimar o leitor só porque ele é “jovem”. Sem ter texto curto só porque ele é jovem. Sem ser ilustrado só porque ele é jovem.

E ele é divertido, né gente. E o ponto principal da minha vida é a habilidade de rir da minha própria cara, então nada melhor do que treinar isso com um moço alto, loiro, nerd (claro), engraçado e que ainda escreve bem.john2

* Pras pessoas que querem me matar quando eu falei mal do ator que faz o Augustus: calma, que no filme eu também me apaixonei. Mas é puro paranauê, gente, não tem nada de bonito ali, jesuis. 

do que eu falo quando falo de corrida

Agora eu sou dessas que corre na rua. É gente, vocês viveram pra ver esse momento. Eu comprei shortinhos “coxas-saradas”, eu pretendo ter um tênis fluorescente, eu estou, inclusive, pesquisando preço daqueles troços que você põe no braço pra segurar o iPod. Sérião. E foi aí que eu percebi uma regra pra ser aplicada em todas as áreas da vida mas, especialmente, aos relacionamentos.

É a regra da corrida.

Não, nada a ver com quão sarado o possível bofe é. Absolutamente longe disso. A regra da corrida diz respeito à maneira que o possível bofe corre. Porque gente, você pode se vestir com as melhores roupas, andar com o melhor carro, pedir bebida que pixca, ser legal, descolado, engraçado, bonito e gostoso, até. Mas, caro futuro bofe, se na hora de correr a coisa desanda, bom… É porque tem algo aí dentro de você, escondido.

Esses dias eu estava saindo da empresa e vi um cara desses que você olha na rua. Alto, moreno, braços tatuados, barba no ponto, camiseta descolada. Cara de desáiner, mas sem os óculos de aro grosso. Farol fechou, eu mantive a minha distância, olhando pras meninas do meu lado, que riam bonitinho pro bonitinho. E então, o ônibus dele chegou.  E o amigo alto, moreno, braços tatuados e barbudo saiu correndo.

E aí, gente, tudo desmontou. A pose garotão-da-augusta desmoronou, e o menino de 13 anos gordinho, tímido e que era surrado na escola reapareceu – mesmo atrás da barba. Era um rebolado, misturado com braços descoordenados, com cabeças de cachorrinho de caminhão, com nenhum gingado aparente. Toda e qualquer sensualidade foi-se embora, levada por um impiedoso Trianon-Masp atrasado. Até as meninas notaram.

Desde então, passei a aplicar a regra da corrida para as pessoas da minha convivência. Não todas, mas especialmente aquelas que a gente acha que são legais-demais, bonitas-demais, legais-e-bonitas-demais, conhecidas-demais, tem-os-melhores-amigos-demais. Quer ver quem elas realmente são? Bota aquela repórter que usa as coleções da passarela pra correr (diz que o bonitão tatuado tá esperando por ela). Pode ter certeza que, uma  hora, ela deixa aparecer que ela também assiste The Voice na quinta à noite.

o lado de cá é bem bonito

Depois de um dia como esse, o que a gente faz? A gente escreve.

Eu decidi fazer História com 17 anos porque eu gostava de histórias. Sempre gostei de ouvir histórias e de inventá-las. Do Pirlimpimpim meio pornográfico da minha Bisa às continuações de Harry Potter que só existiam na minha cabeça, eu sempre fui apaixonada por histórias. Daí eu me enganei tremendamente achando que era ali, na margem dos 47/100 da Fuvest que eu ia achá-las.

Pra resumir o causo todo, eu desisti de História e das histórias antigas e me encontrei no Jornalismo. E encontrei pelo caminho um monte de gente contando novas histórias. Descobrindo novos personagens. Dando voz a cenas inimagináveis pro meu mundinho sãobernardense que mal sabia pegar o metrô.

Daí eu me decepcionei com o Jornalismo. Porque, no meio de tantas histórias, encontrei enredos engessados, e personagens abafados, e gente demais metendo o dedo na história alheia – gente que nada tinha a ver com aquilo e que, ao meu ver, cometia o pior pecado de todos: não gostar de ouvir histórias.

Eu fui forçada a mudar de caminho novamente. Não tenho a cara de pau de falar “eu tomei coragem, fui lá e mudei”. Não, não, de jeito nenhum. A formatura, o mercado, os amigos jornalistas e mais um monte de coisas me fizeram ter que abrir caminhos novos – na porrada. Pro meu desgosto. Com força. E um medo do caramba.

E hoje eu vejo que não poderia ter sido melhor de outra forma. Porque se não fosse essa falta de opção, de ter que encontrar outras maneiras de contar, outros lugares para expor, eu estaria hoje presa a uma coisa que não queria mais já fazia tempo – e que já sabia que não queria. Foi no susto, no grito, que eu aprendi a me desapegar ao sonho dos outros e pensar no que efetivamente me faria feliz.

Meio que aquela coisa piegas de fazer a limonada com os limões que a vida te dá.

É basicamente isso: eu desapeguei. Pode até ser que um dia eu volte atrás e fale “cadê aquele jornalismão que eu queria desde o começo?”. Pode ser. Mas eu não dependo mais disso. Na força, eu aprendi que tem tantas outras coisas por aí tão incríveis quanto ele e que me permitiram muito mais. E, que se eu voltar, vai ser bem mais leve.

Se a vida tivesse sido diferente, tenho certeza que não estaria fazendo os planos que estou fazendo agora. Se eu seguisse a carreira bonita que eu queria quando saí da faculdade, tenho certeza que chegaria naquele momento de glória e promoção previsível. Mas só. Na raça, eu aprendi a viver com a incerteza de uma maneira amigável. Uma amizade colorida que flerta, beija e vai embora, mas sempre dá uma ligadinha pra dizer que gostou.

Me dói imensamente ver os grandes amigos jornalistas que sempre me inspiraram sendo obrigados a desapegar também – e em condições tão degradantes. Me dói muito. Mas o que me alivia e que eu tento mostrar é: o lado de cá é bem bonito. É cheio de chances, de oportunidades, de espaços novos, não desbravados, de gente que não sabemos onde vivem ou do que se alimentam.

De histórias pra gente contar de uma maneira diferente. Nova. Que ninguém ainda sabe como faz. Que é no acerto e no erro, sim. E no tesão de quem quer fazer funcionar. Mas, no final, a gente sempre não quis sempre isso?

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De uma das pessoas que me ensinou a desapegar, porque o outro lado pode ser ainda mais bonito.

<4

Não consigo fazer corações virtuais. Não, não é uma metáfora: eu só não sou capaz de digitar ésse-três sem errar. (Ésse-dois eu nem tento, ok?). É sempre – sempre – ésse-quatro. Assim:

<4

Meus dedos são tortos, meu cérebro entende errado, tenho dislexia tardia, ou qualquer uma das anteriores. Só não consigo fazer corações virtuais e, acidentalmente, assim, tão espontaneamente, meus corações são meio quadrados e com pernas estranhas saindo pela culatra. Você, caro amigo stalker, pode fazer uma pesquisa rápida pela internet e ver que, em 90% das publicações em que eu expresso meu amor por algo, ou alguém, ou pugs, lá está meu coração-quadrado-quatro sem sentido. E, logo abaixo, um novo comentário me corrigindo – nem sempre bem sucedido. E eu amo muito na internet.

Entendam como quiser.