teorias da madrugada

Sobre terminar

Cês adoram uma desgraça, né? NINGUÉM TERMINOU NADA AQUI NÃO OW.

Exceto coisas. Que é sobre o que eu tô falando agora. Terminar as coisas. Especificamente os produtos. Mais especificamente os produtos que você comprou e não gostou e tem que usar mesmo assim.

Porque, eu não sei vocês, mas eu sou dessas bem turcas, assim. Do tipo que se eu comprei uma coisa e porventura não gostei do produto em questã, eu uso do mesmo jeito. Até acabar. Porque, afinal de contas, eu usei o meu rico dinheirinho em tal coisa. Não é uma opção não usá-lo – a não ser que eu doe tal produto ruim pra alguma amiga desavisada, obviamente. Dê de presente. Ache algum uso alternativo. Do contrário, eu uso. Xingando, mas uso.

Mas, caros amigos, eu nem sempre fui assim. Eu já falei diversas vezes, aliás, sobre meu histórico de consumidora compulsiva por aqui em que, obviamente, a velocidade com que coisas novas entravam na minha vida era muito maior do que a velocidade em que eu as consumia, resultando em o quê, deixa eu ouvir vocês dizerem? Acúmulo. Olha, eu só não entro na categoria séria de hoarder porque minha preocupação sobre o que as pessoas acham de mim é um pouco – bem pouco – ainda maior do que a compulsão. Ou era.

Dai eu mudei né. Eu mudei quando eu me mudei, quando eu efetivamente passei a ser responsável 1) pelo meu salário; 2) pelas minhas contas e 3) e principalmente, pelo meu espaço. Foi nesse momento que eu mudei completamente meus hábitos de consumo, de compras, e de acúmulo, e me tornei uma pessoa mais consciente e também bem mais hippie. Nuss, bem mais hippie. Só que daí rola um problema com a riponguisse e consciência recém adquirida que é: eu me tornei mais seletiva. E, sendo mais seletiva, significa que aqueles 9018291820910291 produtos que antes habitavam minha penteadeira, meu armário do banheiro e meu criado-mudo, agora… Bom, e agora?

E agora, minha gente, que eu simplesmente preciso terminar com as minhas coisas. Todas elas. Especialmente os milhares de creminhos e hidratantes e géis e produtos de cabelo e afins que habitam esse maravilhoso mundo do meu closet. O que leva a dois movimentos contínuos e engraçados e recentes em minha vida que consistem em: um desespero tremendo em ganhar qualquer coisa que se encaixe na categoria “legal mas não vou usar”/ um desespero tremendo para usar tudo o que eu posso em quantidades homéricas o mais rapidamente possível.

Vou dar alguns exemplos para ilustrar minha vida:

  1. eu deixei de comprar uma revista pois, nela, vinha uma amostrinha de hidratante.
  2. eu fiquei feliz de estar extremamente queimada/torrada de sol e ter que usar toneladas de hidratante em absolutamente todas as partes do meu corpo. Todas elas. Muito hidratante. Muito hidratada.
  3. eu lavei a cabeça 2 vezes no dia para terminar com um condicionar ruim mais rápido do que ele terminaria naturalmente. (tá, disso eu tenho um pouco de vergonha desgurpa)

Então agora eu sou uma pessoa que procura motivos pra acabar com todo e qualquer tipo de tralha e muamba acumulada em minha vida. PAREM DE ME DAR COISAS DE PRESENTE. Por favor. Obrigada!

O prazer indescritível de jogar potinhos fora. A satisfação inenarrável de espremer o tubinho até o final e ouvir aquele barulho de pum. O sentimento de plenitude #plena de perceber que o vidrinho virado de ponta cabeça finalmente atingiu o seu fim – é como assistir um amigo querido cumprindo seu objetivo de vida, sua missão nesse mundo. O fim do hidratante fedido. O encerramento do xampu que deixa tudo ressecado. Toda essa miscelânea maravilhosa de sentimentos que contrasta com o desespero genuíno de ganhar tranqueiras, presentes não muito adequados, amostras e coisinhas mil para experimentar.

Marie Kondo estaria orgulhosa de mim. Minha avó certamente está se revirando no túmulo.

somente o necessário

Viajei recentemente pra uma outra capital, que não São Paulo ou Rio de Janeiro. Ficamos dois dias corridos e, no final, com a sensação de “deu pra ver tudo”. Tudo. O que é isso, tudo? Por um momento conversamos sobre não saber se adaptar a tão pouco. “Aqui é tranquilo, as pessoas são educadas, ninguém te bate no caminho, desviam de você como se você realmente existisse. Mas não tem muito o que fazer, né?”

E precisa?

A velha dúvida de pegar os gatos e fugir pra uma casa no meio do mato é e sempre foi essa: mas vai ter o que fazer? Pra quem fugiu de São Bernardo e foi morar bem no Centro de São Paulo, que na primeira semana ficou completamente absurdada com a quantidade de lugares-passeios-eventos que poderia visitar sem demorar 2h30… Será que dá? Sempre me questionei. Se a ansiedade bate a cada final de semana e varia entre “como é que eu vou dar conta de fazer tudo?” e “as pessoas estão fazendo mil coisas em mil lugares diferentes e eu não estou fazendo nada!”. Se, nas férias, o que me corrói é “por que eu não estou visitando lugares desconhecidos?”. Será que dá? Ficar sem nada. Ficar com tão pouco. Ficar com dois dias corridinhos e acabou?

Ou a gente é que é maluco mesmo? Ou é o Instagram o Facebook o Swarm, ou são as mil e umas stories de gente se divertido e postando e frequentando e sendo o que a gente nem sabe se é verdade, mas são, que deixa a gente assim? Ou se dois dias e acabou está bom, e um ou outro bar, e um ou dois restaurantes, e menos brigas porque não fazemos nada de diferente, será que são suficientes? Será que cozinhar, que produzir em casa, que juntar amigos novos, de não fazer nada, será que seria o suficiente? Será que uma casinha e um jardim, e os gatos, sempre os gatos, e passarinhos e outros bichos que eu teria que me acostumar? E fotos no Instagram que fossem menos hypadas e mais verdadeiras, e uma ou outra visita ocasional pra matar a saudade de ter que estar em 256 lugares ao mesmo tempo, e uma ou outra tatuagem, e comer no restaurante vietnamita outra vez?

E viver com menos, e precisar de menos, e ter menos, e ter mais.

 

Será que seria suficiente? Será que algum dia vai ser?

biblioteca do autoconhecimento: por uma vida mais criativa

Não vamos aqui falar sobre a idade, né, migas. Não vamos. Vamos falar sobre como ficamos cada vez mais belas e conscientes de nossa existência. Isso sim. Mas cês não notaram que, nos últimos tempos, a gente tem ficado cada vez mais autoconsciente? Eu tô. Sobre o que eu coloco na minha vida, sim, mas sobre mim também.

Deve ser o tal do retorno de Saturno. Eita.

E eu ando lendo. Ando lendo coisas daquela linha tênue que o elitismo literário não permite que a gente chame de autoajuda, então chamaremos de autoconhecimento. Ói que bonito. Ando lendo e pensando e refletindo sobre as coisas daqui de dentro.

Acho que vocês perceberam que, esse ano, eu estou me dedicando muito a mim. E isso se refletiu bastante em coisas que eu estou fazendo, assim, literalmente: mão na massa, canetinha, lápis de cor, tesoura sem ponta, giz de cera, linhas, agulhas, queimadura de cola quente.

Esse ano eu parei de fazer “cursos para a carreira” (e sinto falta deles, quero deixar claro aqui) para fazer “cursos de zoeira”. Olha que bizarro, como a gente divide isso, né? Foi num desses workshops que uma das professoras me falou “você tá no ano sabático da autodescoberta”. Ô, se tô, profa. Não que eu tenha raspado a cabeça e ido pra Índia (embora haja vontade, viu). Mas eu resolvi apostar numa coisa mais minha, pura e simplesmente pra me divertir. Sem expectativas. Sem motivos. Só porque sim.

A gente se cobra um monte desse PRA QUÊ, né? Há pouco tempo pra tentar, pouco dinheiro pra gastar, pouca vida pra se viver, então pra quê? Pra quê tentar algo que não vai ter retorno nenhum, nada palpável, nada que dê pra colocar no Linkedin? PRA QUE sim, gente. Porque é divertido. Porque o processo é maravilhoso. Porque as descobertas são infinitas no caminho.

Daí que eu já falei que eu não sei fazer resenha de livro, então eu vou aqui encher esse textão de citação da Elizabeth Gilbert no livro-Bíblia dela que é o Grande Magia (vocês acharam que eu ia falar de Comer, Rezar e Amar, né, safadas?). Vai começar agora, vai vendo. Só que antes eu tenho que dizer pra vocês, serem humanos que estão aqui lindo esse textão não sei por qual motivo, que se vocês têm alguma pontinha de curiosidade aí dentro, porfa: leiam esse livro. Agora vai:

“Faça o que ela [a curiosidade] lhe pedir. É uma pista. Pode não parecer nada, mas é uma pista. Siga essa pista. Confie nela. Veja aonde a curiosidade o leva em seguida. Então siga a pista seguinte, e a seguinte, e a seguinte. Lembre-se, não precisa ser uma voz no deserto; é apenas uma inofensiva caça ao tesouro. Seguir essa caça ao tesouro da curiosidade pode levá-lo a lugares incríveis e inesperados. Talvez o leve até sua paixão, ainda que por um caminho estranho e impossível de rastrear, de becos escuros, cavernas subterrâneas e portas secretas. Ou talvez não o leve a lugar nenhum.
Você pode passar a vida inteira seguindo a curiosidade e não conseguir absolutamente nada com isso, exceto por uma coisa: você terá a satisfação de saber que passou toda sua existência dedicando-se a uma nobre virtude humana. E isso deve ser mais do que o bastante para lhe permitir dizer que levou uma vida rica e esplêndida.”

A gente é forçado, desde muito cedo, a fazer escolhas definitivas e seguir com elas pro resto da vida, né? Eu sempre ouvi: você escreve muito bem. Você deveria fazer algo sobre isso. Você se expressa muito bem, você deveria fazer algo sobre isso. Por que você não faz Direito? Ou Jornalismo? Ou Letras (ô engano minha gente). E, claro, como outro humaninho que precisa de confete qualquer, claro que eu levei isso adiante. Fiz tudo do jeitinho que deveria. Cheguei onde eu deveria sendo uma pessoa “que escreve bem”.

Veja bem: escrever é criativo. Me dá prazer. Me liberta. Me impede de morder o sofá. Mas eu sou muito, muito mais que escrever, e até agora, eu não me permiti ser mais que “a pessoa que escreve” porque, bom, eu sou a pessoa que escreve bem.

Eu amo criar.

Eu amo escrever, sim, e eu amo ler, e inventar/descobrir mundos, gente, coisas novas. Mas eu também amo desenhar. E rabiscar, e sentir a textura de canetinha, lápis – lápis 6B! – de papel Canson, eu amo misturar as cores. Eu também amo mexer com terra. Terra, mesmo: enfiar a mão na terra, colocar num vaso, tirar, ter que raspar a terra da unha. E claro, as plantinhas, e tudo que aparece com elas. Muitas, muitas, muitas plantinhas. Eu amo tudo o que tem a ver com beleza. Com encher os olhos de significado, com coisas bonitas, com criar coisas bonitas, seja de papel, de palavras, de tinta, no computador. Eu amo pintar – não criar um desenho, pintar mesmo: pegar uma porta inteira e pintar de branco, deixando tudo bonitão, harmônico, impecável. Eu sou absolutamente louca por decorar as coisas, seja a minha casa, que me dá um orgulho imenso, seja a mesa do trabalho, seja pensar em como a casa de um desconhecido ficaria mais bonita com um quadro. Amo decorar no macro e no micro, seja deixando uma página mais engraçadinha se eu desenhar umas florzinhas e usar duas cores de caneta.

Mas eu também amo organizar as coisas. Organizar num nível virginiano, de etiquetas, de sistemas, de catálogos. E eu absolutamente sou alucinada por planilhas. Planilhas e tabelas e organização em organogramas e cronogramas e listas. Eu sei lidar muito bem com dinheiro, produção, administração de coisas e coisos, eu me daria muito bem, eu não tenho a menor dúvida disso, cuidando de um negócio – não financeiramente bem, isso não dá pra saber, mas organizacionalmente bem. E, cara, eu sei programar. Minimamente, mas eu sei programar o suficiente pra me virar bem no mundo das internet. Eu adoraria saber programar mais e melhor. Eu adoraria fazer meus sites, blog, portfólio, eu tenho uma facilidade incrível de aprender a mexer em programas de layout, edição de fotos e imagens e afins.

E tudo bem.

Por favor, assistam esse vídeo comigo:

Se você não quis assistir (você não sabe o que tá perdendo), é um Ted Talk da Emilie Wapnick, coach “de carreira e de vida” e maravilhosa, que fala sobre multipotencialidade e como algumas pessoas (ainda bem) não têm uma vocação. Elas fazem mil coisas. Muitas coisas. Olha que coisa linda, isso, que todo mundo no Renascimento era mil coisas e era ser mil coisas era bom. Era reconhecido. Era possível. Não é mágico?

“Quase nunca é perda de tempo se dedicar a algo que lhe atraia, mesmo que depois você acabe desistindo. Talvez você aplique o que aprendeu numa área totalmente diferente, de uma forma que não poderia ter imaginado.”

Pra quê? Não importa. Pra se libertar, pra se expressar, pra não matar alguém, pra se esquecer do mundo. Ou porque sim. Porque é divertido. “O resultado não pode importar […] Porque é divertido, não é?” – e essa é a Liz Gilbert falando, não eu. E você precisa ser o melhor em tudo o que você faz? Deusmelivre, não. Você não precisa ser nem bom. Você precisa ser só curioso e apaixonado – pra sempre? Deusnão. Só enquanto durar a curiosidade e a paixão. E tudo bem.

Isso não é maravilhoso? Não é sobre isso tudo o que vale a pena, não é pra isso que a gente luta? Pra que a gente possa ser tudo aquilo o que a gente quiser, e tudo bem? Quem tá falando isso é a Emilie Wapnick, a mola da palestra, não sou eu não: “Abrace sua maneira de funcionar, seja ela como for. Se for um especialista convicto, então, seja como for, se especialize. É assim que dará o melhor de si. Mas, para os multipotenciais aqui presentes,inclusive os que perceberam que são assim durante os últimos 12 minutos digo a vocês: abracem suas múltiplas paixões. Sigam sua curiosidade, dentro daquela toca do coelho. Explorem suas interseções. Abraçar nossa forma de funcionar nos leva a ter uma vida mais feliz e autêntica.”

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Uma vida mais feliz e autêntica? É isso aí que a gente quer, num é? Eu acho. E pagar as contas. De resto, é isso aí. Então eu vou terminar esse desabafo improdutivo, porém criativo e cheio de referências, com mais uma citação mela-cueca da Liz Gilberth que poderia virar um pôster em nossas mesas de madeira crua apoiada em cavaletes coloridos em nossos home-offices criativos:

Acredito piamente que precisamos todos encontrar algo para fazer na vida que nos impeça de comer o sofá. Quer façamos disso uma profissão ou não, precisamos de uma atividade que vá além do trivial e que nos leve além dos papéis convencionais e limitadores que desempenhamos na sociedade (mãe, funcionário, vizinho, irmão, chefe etc.). Todos precisamos de algo que ajude a nos esquecermos de nós mesmos por um tempo […] Precisamos de algo que nos leve além de nós mesmos a ponto de nos fazer esquecer de comer, de fazer xixi, de parar a grama, de guardar rancor de inimigos, de ficar ruminando inseguranças. A oração pode fazer isso por nós, assim como o serviço comunitário, o sexo, exercícios físicos e até o abuso de substância químicas (embora com terríveis consequências). Mas a vida criativa também pode. Talvez a maior bênção da criatividade seja esta: ao absorver nossa atenção por um período curto e mágico, consegue nos aliviar temporariamente do terrível fardo de sermos quem somos. E o melhor de tudo é que, ao fim de sua aventura criativa, você terá um suvenir, algo que você fez, algo para lembrá-lo para sempre de seu encontro breve, porém transformador, com a inspiração.

let it bleed

As pessoas, né.

Eu tenho três características que não deixam a minha vida mais fácil: 1) tenho muita dificuldade em me resguardar, conto tudo, pra todo mundo, porque tenho muita facilidade em me abrir com as pessoas; 2) sempre acredito que as pessoas estão aí pra fazer o bem e serem legais, e que “poxa vida, ela não é tão ruim assim, vamos dar uma chance”, 3) eu preciso muito das pessoas, muito. Sou um bicho extremamente sociável que se sente mal de ficar sozinha.

“Ai que boazinha que você é, Isa, quero ser sua amiga!”. Não gente, eu sou é trouxa.

Minha adolescência inteira foi um sucessivo chorar pelos amigos – eu raramente chorava pelos meninos, eu preferia escrever cartas imensas que nunca foram lidas por eles. Eu chorava e chorava e chorava e insistia em DRs longuérrimas com crianças de 13 anos que mal entendiam sobre o que eu estava falando. Um tal de “o que eu te fiz?” – porque, é claro, eu sempre admitia a culpa de ter feito algo de errado – seguidos de “nada, Isa, tá tudo bem!” e mais um dia sem lugar pra sentar.

Nem Susan Miller seria capaz de explicar porque essa fase resolveu voltar agora.

Não sei se é porque a vida tá bagunçada como era aos 17 anos – mesmo estando tudo aparentemente muito bem -, mas essa sensação de porrada diária, do “eu faço mais por você do que você por mim” é tão recorrente quanto os dias em que não guardavam lugar pra mim na aula de matemática.

A diferença é que aqui, no alto dos meus 27 anos, eu entendi que esse problema é meu, e não dos outros.

As pessoas têm muita dificuldade em entender as necessidades do outro, especialmente quando o outro em questão tem questões que vão além da hora do recreio ou da baladinha do final de semana. As pessoas param de se entender quando os horários não batem mais, quando os programas não são mais os mesmos, quando as prioridades não são mais você ou eu. Pela proximidade, pelo amor, pela importância, ao invés de ponderar essas coisas e estar lá, por perto, apesar de tudo isso, elas simplesmente se afastam, numa birrinha inconveniente e infantil de “se você quiser saber de mim, você sabe onde me encontrar”.

O que sempre pegou, pra mim, nesses casos todos, é o ponto muito simples de que eu sempre tentei me adequar às necessidades dos outros. Fosse os horários complicados pelo trabalho, pela vida, por São Paulo, fosse a quantidade imensa festas-que-eu-não-queria-ter-ido e dinheiros-que-eu-não-queria-ter-dado para ceder um pouco para o gosto do amigo. Fosse os cinco minutos que eu gasto pra escrever um email dizendo “estou com saudades, a vida está corrida, me conta de você, quero saber como você está”. E daí a pergunta que ficava era: “se eu posso fazer isso por ele, por que catzo ele não pode fazer o mínimo por mim?”

Então aqui, do alto dos meus 27 anos, eu entendi que esse problema é meu, e não dos outros.

Que essa pergunta tem que parar de acontecer. Que eu preciso parar de me cobrar. E, que, principalmente: eu não tenho o direito de esperar nada de ninguém. Não é justo que eu espere das pessoas o mesmo que eu estou disposta a dar. Dói, pra cacete, saber disso. Especialmente porque eu não tenho nenhuma intenção de parar de dar, de compartilhar. Mas eu preciso parar de esperar em troca.

Eu nunca vou entender como as pessoas não enxergam o mal que elas fazem às outras. A única explicação, pra mim, é que existe mesmo uma parcela de gente que é mais sensível, mais aberta e mais “porosa”, mas que essas sejam características que as outras não conseguem perceber, sacar que um “ah, me esqueci da sua festa no sábado!” dilacera a gente. Talvez até exista uma explicação um pouco mais racional, quem sabe até um pouco médica, relacionada à ansiedade, falta de confiança em si mesmo e mais um monte de probleminha que a gente carrega, vai saber.

Talvez eu faça tudo isso que me machuca com outras pessoas. Muito provavelmente eu faço isso com outras pessoas.

Minha cabeça tá nesse looping infinito de pensamos e sofrimentos acerca do tema há um tempinho. Duro. Até porque eu comecei a me sentir meio juvenil de me permitir sentir assim depois de tanto tempo construindo aquela carapuça do não deixe os outros bringing you down, você é foda, você é fodona, eles que não sabem o que estão perdendo e o que mais eu encontrei de conselhos guardados nos fichários da sétima série.

Até que eu lembrei que ano passado aprendi muita coisa com uma palavrinha:

VULNERABILIDADE. É o que você demonstra quando se abre para o mundo sem nenhuma garantia. É quando você permite que as pessoas vejam quem você realmente é, sem saber se elas vão gostar ou não do que verão.

Eu li esse texto maravilhoso sobre vulnerabilidade no Não Sei Lidar depois de receber a newsletter maravilhosa da Anna Vitória sobre vulnerabilidade e, além de ter a certeza absoluta de que a internet é um lugar absolutamente maravilhoso, entendi que nossas questões internas sobre ser vulnerável talvez seja assim, meio geracional. Talvez o grande problema dessas pessoas de vinte e poucos, trinta anos, cheias de hashtags e questões comportamentais no trabalho seja uma carapuça blasé de “não me toques”, um medo profundo de se relacionar e um pavor desses paralisantes de se machucar.

O que seria bem inteligente. Se você vai lá e se machuca uma, duas, três vezes, cada uma mais dolorida que a outra, talvez fosse a hora de sacar “bom, eu não deveria me abrir tanto assim” ou “hum, talvez não fosse tão legal esperar tanto dos outros assim”. Seria, não seria? Pergunta se eu consigo? Aham.

E aí, numa série de acontecimentos que só provam a minha teoria de que seria maravilhoso que todos nós vivêssemos dentro da internet, faz uma semana que eu lembro e releio todo dia aquele email de ano novo que a Renata mandou nos primeiros dias de 2015, que destaca um trecho assim de um vídeo:

“conexão é o porquê de estarmos aqui. É o que dá propósito e significado às nossas vidas. É a razão de tudo. Não importa se você fala com pessoas que trabalhem com justiça social, saúde mental, abuso ou negligência, o que sabemos é que conexão, a habilidade de se sentir conectado, é – neurobiologicamente é assim que somos feitos – é o porquê de estarmos aqui.”

É um trecho desse vídeo aqui:

Cês viram? Essa é a Brene Brown, uma pesquisadora foda que estuda conexão humana e temas como vulnerabilidade, coragem, vergonha e merecimento (<3), no TEDxHouston. Sabe o que mais a Brene fez? Ela escreveu o prefácio do livro da Amanda Palmer, A Arte de Pedir. E ela escreveu isso aqui:

Mas este livro não trata de ver as pessoas a uma distância segura — aquele lugar sedutor em que muitos de nós vivemos, nos escondemos e para o qual corremos em busca do que pensamos ser segurança emocional. A arte de pedir é um livro sobre o cultivo da confiança e da maior proximidade possível com o amor, a vulnerabilidade e a conexão. Uma proximidade incômoda. Perigosa. Bela. E a proximidade incômoda é exatamente onde precisamos ficar se quisermos transformar essa cultura de afastamento e desconfiança fundamental.

(Tempo: eu descobri há um tempo, mas consolidei esse ano, que eu não sou nem um pouco capaz de escrever sobre as coisas que mudaram a minha vida. Nem um pouco capaz. Eu não sei falar sobre o show dos Rolling Stones, sobre minha viagem pra Cuba, sobre a morte do meu melhor amigo, sobre o livro da Amanda Palmer. Então eu vou ficar fazendo citações avulsas sem nenhum respeito por você, leitor, como se você soubesse minimamente do que eu estou falando, ok? Ok.)

Então tem esse email reverberando naquele ponto obscuro da minha cabecinha, e daí tem esse livro recém-lido, e aí tem tudo o que está acontecendo na vida, no país, no mundo, e daí tem essas newsletters, e daí tem festa de aniversário e daí me aparece a Carol, uma dessas pessoas pra quem eu talvez seja uma péssima amiga, dizendo que fui (gente, fui eu!) quem mostrou o vídeo da Brene pra ela, e que a ajudou em algum momento aquilo. E eu comento no twitter que queria escrever sobre esse tema e um. monte. de. gente. me pede pra ir em frente, mesmo que saia tudo torto e doa pra caralho.

Coincidência, amigos? Eu acho que não.

Vejam, eu não tenho nenhum bom conselho pra oferecer sobre o assunto. Na real, mesmo, esse post é um grande mimimi pessoal que muito provavelmente não interesse a ninguém. Mas, se todos esses fatores convergiram para dar num desabafo desse tamanho em que tudo faz sentido e que, em último caso, faça sentido pra mais alguém… Não é sobre isso que a gente tem que falar?

Tipo, não é esse o sentido de tudo? Se conectar, conhecer, compartilhar… Não é por isso que cada vez mais surgem coisas – negócios, coletivos, empresas, marcas pequenas, blogs, newsletter – colaborativas? Parceria, essa relação de confiança que faz com que nossos pais pensem “meu deus você vai ser sequestrada por essa pessoa da internet deve ser um terrorista não faça isso!”. Não é disso aí que fala a vida? #reflequissoes

Deve ter gente que não precisa disso. Que está satisfeita com a sua cota de trocas e não precisa de mais conexões – não interessa o quanto você ache essencial pra sua vida que você precisa daquilo. Paciência. Não é uma questão de quem é mais ou menos humano, sensível ou interessante, é mesmo mais sutil, mais interior, mais pessoal. Enquanto fizer sentido pra mim, eu vou estar aberta a isso. Mesmo.

A conexão é minha, de mim para os outros, e o que volta do mundo pra dentro é só o que eu permito. Essas conexões, essas trocas, sejam elas positivas ou negativas, dependem exclusivamente do que eu quero que elas sejam. Eu me adequo às necessidades alheias porque ter essa conexão é importante pra mim – e é egoísta demais da minha parte achar que a outra pessoa precisa dessa interação tanto quanto eu.

Eu preciso ser mais paciente comigo, mesmo que as pessoas não sejam. E se elas não podem me dar nada em troca, eu tenho que me bastar. Dar o que eu preciso pra ficar bem e, aí sim, me dar mais. Tornar essa relação mais justa pra mim. Talvez, sim, seja o caso de achar um ponto de equilíbrio entre a parte vulnerável e aquela vulnerável demais, aquela que quebra com facilidade, mais delicada. Talvez. Mesmo quebrando, a gente acaba construindo algo.

Deve ser sobre isso aí que fala a vida.

um problema geracional

Não sei se vocês sabem direito, mas além de ser blogayra e heavy user de redes sociais, eu também trabalho com isso. Ou costumava trabalhar e ainda acho que vou voltar a trabalhar, então continuo pesquisando, lendo, estudando sobre o tema mesmo num hiato esquisito entre uma coisa e outra. E daí que eu, profissionalmente, adoro ver como as pessoas são criativas e quais as novas tendências, invenções, memes e posições de selfie que estão trending no momento. Gosto mesmo e já aviso aqui que tenho profunda preguiça da galera que vem com o discursinho a internet matou o português/relações sociais/relacionamentos de verdade e variantes do A Geração Y não sabe se comportar no mundo adulto. A internet é fucking foda. Lidem com isso.

A questão toda de eu começar a escrever esse texto aqui é que a Isadora amiga, Isadora moleque, Isadora pessoa física que escreve esse blog simplesmente está chocada com a evolução dos anos e não consegue acompanhar as mudanças. Ou seja: eu estou ficando velha. E a internet me ultrapassou.

Não vou escrever nenhum texto “Conheça as novas plataformas que agregam milhões de usuários” ou “O Facebook matou o email” aqui não, deusolivre. Só quero compartilhar meu sentimento (ansiedade) em relação a todas as possibilidades (ansiedade) que a maravilhosa internet apresenta pra gente todos os dias (ansiedade) e acabam me deixando sem saber direito como dar conta de tudo de lindo que acontece nesse mundão de meu deus (ansiedade).

Tipo, tem o Medium. Vocês certamente já leram um texto desses sobre a Geração Y e o cacete no Medium porque é no Medium que as pessoas escrevem textos muito cheio de opiniões e links e citações, já que escrever textão no Facebook não pega bem e é coisa de gente que quem quer dar uma opinião sobre tudo. Então, se você quer dar sua opinião sobre esse tipo de gente que quer dar opinião sobre tudo, você escreve no Medium. Naquela plataforma maravilhosa que é o equivalente a um pergaminho e caneta com bico de pena da internet: dá tesão escrever ali, cada palavra sai mais bonita, mais certeira, mais séria. E os títulos? Os títulos são aquele meio termo entre o clickbait do Catraca Livre (cês já pararam de seguir o Catraca Livre hoje, gente? façam isso, porfa) e um trocadalho digno da nova geração da literatura portuguesa. Coisa fina.

Tem também a boa e velha newsletter, que saiu do limbo perdido do irmão email marketing, e foi elevada ao posto da conexão mais íntima que eu já vi a internet proporcionar em uns bons 15 anos desse negócio louco aqui. A newsletter é o seguinte: uma pessoa escreve um textão sobre algum assunto, coloca uns gifs, coloca uns links, e te manda. Pra você. No seu email. Tem o seu nome. Você abre e tá lá: oi, Isa! (que é como eu me cadastro em todas as newsletters, claro). Oi. OI! É tipo receber o email de uma amiga. E vocês têm ideia como eu amo receber/escrever emails de amigas? É um sentimento proporcional a quanto as minhas amigas odeiam receber emails meus. Porque o whatsapp matou os emails.

Mas voltando às newsletters: desde que eu fiz a limpa no meu querido email (vocês se orgulham de ter o mesmo email adulto há, sei lá, mais de 10 anos? eu me orgulho MUITO. eu tinha também o baixinha03@hotmail.com, claro, mas o gmail sempre esteve lá, adulto, serião, todo lindo, com meu sobrenome) e bani os emails marketing de lojas, inscrições em grupos de uma vida passada e todo tipo de lixo que eu lia todo dia – atenção, eu lia! ou ao menos, perdia tempo deletando todo-santo-dia – dei espaço e fiquei de coração e gmail abertos para receber cartas das amigas semanalmente diretamente na minha caixa de entrada.

Se isso não é amor, eu não sei mais o que é.

Anna Vitória fez um post muito bacana explicando quem são, onde vivem e como se reproduzem as newsletters de 2016, além de indicar um monte de assinaturas legais pra gente receber em nossas caixas de entradas. Eu também indico a da Fê Canna, cheia de reflexões legais pra gente levar uma vida mais simples.

Você vai fazer uma newsletter, Isa? Isa, cadê seu Medium? Num tem não, migas. Eu nunca mudei pro Medium porque, de textão, já basta a vida, né? Cês já têm muito trabalho com o que eu escrevo aqui. E eu provavelmente não farei uma newsletter porque meu jesusinho, se tenho um medo nessa vida é essa intimidade louca de chegar na caixa de entrada de alguém com os meus pensamentos. Cês tão louco. Sigamos.

Bom, e claro que eu tenho plena consciência de que estamos na era do Youtube – e acho verdadeiramente maravilhoso. Pros outros: pras pessoas que assistem, que consomem, e também pras pessoas que produzem, principalmente, pras pessoas xóvens que produzem, leiam, pros adolescentes que fazem essas coisas lindas na internet (sempre, meu eterno <3). Minha participação nisso? Sobre produzir: cês IMAGINEM se eu tivesse que 1) me arrumar, 2) pensar num roteiro, 3) gravar, 4) regravar, 5) regravar, 6) contar com o bom funcionamento do meu computador, 7) editar, 8) contar com o bom funcionamento da minha internet, 9) esperar subir? Se esse blog já tem uma atualização por mês, cês conseguem imaginar? Puf.

E quanto a consumir, bom… Shame on me. Mas eu não sei nem começar a descrever como eu consigo tranquilamente ficar 2 horas lendo um texto no computador e 2 segundos assistindo a um vídeo. Tipo, se me mandam um clipe de música eu vou-pulando-os-trechinhos. Te juro. É um absurdo né? Eu acho um absurdo. Eu só consigo assistir vídeos de DIY e eu pulo absolutamente todas as introduções, o que acaba se transformando em projetos meio capengas, já que eu sempre pulo acidentalmente um material importante. Eu sou horrrível nisso.

E daí tem os podcasts. Eu sempre achei que o meu problema com os vlogs era visual e, entonces, os podcasts poderiam ser a coisa mais proveitosa do mundo: aka, daria pra ouvir de boas no trabalho sem levantar suspeitas. A realidade? Eu ouço 5 minutos empolgadíssima, falo comigamesma AGORA VAI e daí quando percebo, misturei as vozes da minha cabeça com as vozes do podcast e parece tudo uma coisa só e eu já não faço ideia do que estão dizendo. Menor ideia. Me perdi. Atenção foi embora. E eu tô ligada que existem podcasts maravilhosos. É uma pena. Eu tenho a esperança de conseguir absorver uma parte dos conteúdos por osmose, tipo naquelas fitas para parar de fumar que você ouve dormindo e acorda sem vontade, mas eu acho que não né.

Fica a indicação/jabá de um dos poucos que eu consigo ouvir uns pedacin, dazamiga, que é o Pop Don’t Preach, que faz também a maravilhosidade de, a cada episódio (fala “episódio”, gente?), postar umas coisas magníficas num formato que essa tia velha aqui consegue acompanhar, ou seja, com letrinhas no Medium.

Se você ainda não foi convencido de que a internet é um lugar absolutamente incrível onde todo mundo pode ser tudo aquilo que quiser ser, recomendo ler essa lista de gente insanely interesting e ~navegar~ por todas as redes sociais e plataformas delas: Medium, Podcast, blog, canal de Youtube, Instagram e mais tudo o que der. Cê vai ver. É lindo.

Vai me dizer que a gente não faz nada de bom na internet? Vocês estão malucos.