projeto de vida

A penteadeira

Esse é um post mulherzinha. Já aviso de antemão que eu ando meio monotemática. As horas livres se tornaram extensas buscas pelo Pinterest, eu troquei as lojas de roupa pelas de decoração, e eu me preocupo realmente com o nível de poeira acumulado – e ele tem que ser inferior ao aceito em um hospital.

Deal with it.

Então pra coroar o meu momento, eu comprei uma penteadeira. Uma penteadeira – não é uma escrivaninha, um móvel, uma mesinha, uma estante. Ela tem que ter esse nome como se eu fosse uma jovem princesa escovando 100 vezes minhas madeixas antes do príncipe chegar. É claro que ela é amarela. Amarelo-ovo. Amarelo-amarelo.

a penteadeira!

a penteadeira!

– Onde você comprou a penteadeira, Isa?

Foi assim: em Diadema. Numa fabriquinha de móveis bem honestos e bonitinhos que, claro, não tem site. No “catálogo” – uma lista de preços no Word – diz que o nome do vendedor é Morramed, mas né, gente? Eu sou turca, eu posso zoar com essa irônica coincidência da vida. Não vou ficar divulgando o único contato que tenho do povo por aqui, abertamente, então se alguém se interessar, please, deixa um email nos comentários e eu repasso, tá?

Mas eis que a bichinha custou aproximadamente 400 dilmas e chegou aqui em casa, diretamente de Diadema, linda e no MDF em um sábado de manhã. No MDF. Molinha, molinha. Marrom, marrom. Sem nenhum acabamento. Sem vidro. Sem espelho. Sem puxador. SEM GLAMOUR.

– Como você fez pra penteadeira ficar bonita, Isa?

Primeiro, eu lixei. Eu lixei como se não houvesse amanhã – estamos aqui agradecendo publicamente o namorado por horas de poeira de madeira no nariz – até a superfície, que era lisa, ficar bem porosa. Tem que ficar bem porosa, gente. Tipo madeira mal acabada mesmo, senão a tinta não entra.

O segundo passo é passar uma coisa que chama primer ou fundo preparador de madeira. Ele deixa a superfície mais uniforme e garante que a cor que você escolheu vai ser o mais próximo da embalagem possível [/c&cpreçomelhorpravocê]. Dai você passa o bichinho em tudo. EM TUDO. Deixa tudo com aquela de pátina dos anos 90, meio branco, meio bege, meio cara de móvel da feirinha do shopping. Uma lindeza que só. Mas, acredite, isso vai ajudar a….

-… Por que você pintou tudo de amarelo, Isa?

Cara, porque amarelo é legal. E porque já basta uma senhora de 25 anos com uma penteadeira rococó no quarto, né, amores, vamos deixar ela pelo menos um pouco mais descolada. A cor que eu usei é o amarelo RGB, amarelo ouro, amarelo 500. Amarelo de verdade, sem mimimis. Dai eu vou contar a melhor parte pra vocês: não deu certo.

Primeiro porque eu quis usar o bendito do rolinho que, a princípio, é lindo, cobre superfícies inteiras num piscar de olhos e… Não chega nas beiradas. Óbvio, né? Não pra mim. Olha, pra mim demorou bastante pra entender isso. Fora que olha essa penteadeira rococó, gente. Tá notando a quantidade de dobrinhas e curvinhas e outras inhas que ela tem? Pois é. Nada de rolinho. O pincel é o melhor instrumento nessas horas: e dá-lhe paciência.

Lembra aquilo que a tia de Artes ensinou na 2ª série: pintar sempre pro mesmo sentido e na mesma direção? Aham, usem. Senão o acabamento fica porco. Outra dica que dou é você ir mensurando a quantidade de tinta no pincel: pouca vai deixar aquelas listras que as cerdas desenham, muita, vai escorrer e ficar meio “pingado”. É cara, é uma arte. Como eu fiz pra dar certo? Liguei pro meu pai. Sim. Eu admito.

– Quanto tempo demorou, Isa?

UMA ETERNIDADE. Cara, entre uma camada e outra – e foram umas 4! – demora tipo, um ou dois dias. Isso pra estar bem seco e evitar problemas maiores, como manchas, bolhas e afins. Vale a pena. Recomendo que, caso você pretenda copiar o procedimento em casa, mesmo depois de tudo isso, use um espaço que você não transita muito. Ou seja: não faça como eu que deixou no meio da sala, tá? Fica a dica.

E daí que umas 2 semanas depois, muitas idas e vindas da casa dos meus pais e muito tempo pensando que eu fosse ter que me contentar com um móvel de pátina… Eis que eu tinha uma penteadeira!

os detalhes da penteadeira ;)

os detalhes da penteadeira 😉

Os puxadores e o potinho branco, que eu guardo algodão, são da Collector 55 – que eu não recomendo visitar caso você esteja no final do mês. Sério, é tudo divino e megadiferente do que você por aí em termos de decoração. Eu também mandei fazer os espelhos em uma loja em São Bernardo (de novo, se alguém quiser o contato, me avisa pelos comentários!) e um vidro para a mesa, que valeu cada um dos seus R$ 60 assim que eu derrubei a primeira talagada de base em cima. A bandeja onde estão os perfumes são da Maria Presenteira e os outros potes, que usei de porta-pincel, de lojinhas de R$ 1,99. Ah, sim: ali do lado tem um caixote de madeira, o ícone máximo do hipsterismo que, como vocês podem perceber, foi muito mal pintado.

E esse foi meu primeiro projeto do it yourself: um móvel, do zero. Não se preocupem que em breve eu volto ensinando vocês a construir uma casa na árvore, ok?

Sozinha

Hoje eu cheguei sozinha em casa.

Tipo, eu faço isso todo dia. Eu saio do trabalho, venho pra casa, chego sozinha. Nem sempre tem alguém aqui, mas sempre tem gente. Tem uma ligação, um toque “olha, cheguei, fica tranquila”, um abraço até, às vezes – com sorte, um franguinho do limão, de vez em quando.

Hoje eu saí sozinha e cheguei sozinha. Fui, encontrei uma amiga, me despedi e dei uma volta. Já não era mais hora de metrô, todo mundo já estava na rua. Eu andei uns dois quarteirões e percebi que não fazia a menor ideia de como voltar dali. Minha cabeça, já acostumada a cronometrar as paradas dos ônibus, os milímetros dos trajetos, apenas desligou o GPS involuntário e eu demorei uns bons 10 minutos pra entender que, pra sair dali, eu teria que andar. E aí eu andei. E peguei um ônibus. Subi e vim – cheguei, sim.

E daí que eu cheguei sozinha em casa. Não liguei pra ninguém, não sei onde as pessoas estão. Percebi agora – mais ou menos 1 hora depois – que eu fiz tudo isso, e tô aqui, vivona.

Eu já cozinhei, eu já comi atum da lata, eu já pintei um móvel, eu já desentupi banheiro, eu já limpei geladeira e já quebrei umas 3 garrafas. Mas nunca tinha chegado sozinha assim.

Foi bom, viu.

um mês

E faz um mês.

Apesar de eu ter prometido pra mim mesma que não faria muito alarde (eu fiz, né?), acho que todo mundo já entendeu que eu mudei de casa. Saí da casa dos meus pais – que agora chama “a casa dos meus pais” – e vim, finalmente, para São Paulo. É, foi tudo junto: “morar sozinha” e “morar em São Paulo”.

Quem mora na região “metropolitana” de alguma cidade grande deve entender meu drama – ou ex-drama: você não está nem perto o suficiente para que as coisas sejam próximas, nem distante o suficiente para que role uma mudança de cidade natural. Tipo quando você passa na faculdade em outro Estado e tal. Não: morar “quase em São Paulo” significava 2 horas e meia a cada translado, zero de atividade social e muito, muito stress. As facilidades de ter a casa dos pais ali, logo em frente, eram imensas, mas subaproveitadas por aquele termo que nós, juventude hipster, gostamos tanto de repetir: qualidade de vida.

E faz um mês que eu fiz e refiz as contas (e eu faço e refaço até hoje, e sei que isso ainda vai se repetir pelos próximos meses), e decidi que dava. Se for pra ser sincera de verdade, as contas bateram, os números fecharam, mas nunca fui uma decisão assim, totalmente consciente. Acho que se eu parasse pra analisar friamente, talvez não tivesse saído do lugar. Pior coisa que poderia ter feito.

Faz um mês, na verdade, no sábado: pois eu me mudei num longínquo 9 de fevereiro, ainda que meu número da sorte seja 8. Também preferi não pensar muito nisso. Vi que o que precisava era um colchão e uma geladeira, chamei os amigos e fui. Já comprei estante, escrivaninha e sapateira. Quero dar embora todas as minhas roupas. Não tenho e nem tenho previsão de ter uma televisão, mas sábado chega a penteadeira. Amarela.

Eu ligo pro namorado toda vez que vou esquentar a comida e não tem ninguém pra contar como foi o dia. Eu me tranco no meu quarto sempre que quero ouvir só o meu silêncio. Eu compro itens de decoração que não tenho onde colocar e utensílios de cozinha que não faço ideia de como (nunca vou) usar. Eu troco compromissos sociais – aqueles pelos quais me mudei, pra ter “tempo livre”, pra chegar em casa “a hora que eu quiser – pra ficar admirando meu edredon cinza, que mesmo no calor infernal de São Paulo, combina com as minhas almofadas. Amarelas.

Hoje eu posso me orgulhar de poder dizer praticamente todo dia: vamos lá pra casa, tem cerveja na geladeira. Quase nunca tem comida – eu ainda tenho medo de ligar o fogão. Minha mãe deixa pratos congelados dos quais eu não me vanglorio, mas o Youtube já me ensinou a lavar roupa, a pintar móveis das Casas Bahia e a reutilizar garrafas pet de todas as maneiras que o ser humano já pensou.

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As caixas ainda estão aqui, ainda falta muita coisa. O espaço “comunitário” não vai ganhar minha cara nem agora, e provavelmente nem até que eu finalmente saia daqui e dê o próximo outro passo – mas conviver faz parte da história, não faz? A gente vai criando, improvisando, montando, tipo aquelas tias velhas que juntam caixinhas porque “uma hora eu vou encontrar um uso pra isso”. E a gente encontra. Nem que seja pra arranjar mais um cantinho de plantas, de potinhos, de frescuras inúteis, de fofices, de amor. (Que são um inferno pra limpar).

Essa coisa de vida adulta demorou, mas olha… Vou falar baixinho pra não estragar: fica mais por aqui. Pode vir com menos dinheiro e mais silêncio que não tem problema não. Gostei de você.

[update com poema, vejam só, logo eu:]

se você me conhecesse
veria meu esforço e esmero
saberia que morei em outros 23 espaços alugados
antes de chegar rolando a este

a/c proprietário do imóvel, da Ana Guadalupe

agora vai

2014 começou torto.

2013 foi um ano preguiçoso, desses que empurram com a barriga, e acho que o Ano Novo tentou tirar o atraso. Começou meio atropelado, e atropelando, levando tudo embora com muita ânsia e pouca, pouquíssima sutileza. Tanta vontade de ser diferente que acabou esquecendo que o igual também é bom, e que tem que ter cuidado com o que já está construído porque, atualmente, qualquer coisinha é suficiente pra desmontar.

Daí parou.

E fica o mantra pra esse ano que, agora, declaro oficialmente aberto: equilíbrio. Uma amiga me disse que é o ano de ouvir, e não de falar. Alguma coisa a ver com a numerologia, o tarô, a borra do café. Tanto faz. Mas vale a dica de parar, pensar e contar até 10 antes de sair por aí colocando tudo em caixas: primeiro, vamos ver se as coisas estão limpas, né?

Segunda chance, 2014. Pra mim e pra você. Mas agora vai.

resoluções (possíveis) para 2014

Eu ia passar batido sem isso, mas achei importante, no final. Mentira: na real eu li duas listas de resoluções de ano novo que me incentivaram a fazer a minha, ainda que mambembe, por aqui. A primeira foi a divertidíssima Minhas promessas para 2014, de um dos meus autores preferidos, Juan Pablo Villalobos, que pretende, entre outras coisas maravilhosas, “soltar no México o boato de que conhece a Fernanda Lima”. A outra é a da Juliana Cunha, de quem eu empresto o conceito Sosh de autoestima aplicado a todos os níveis de relacionamento em 2014.

1. Investir mais em mim: tempo e dinheiro, sim. A minha resposta pra tudo esse ano foi “ah, não tenho tempo” ou “ah, não tenho dinheiro”. O primeiro eu vou tentar resolver mudando radicalmente alguns aspectos da minha vida. O segundo, não tem muita novidade, além de que eu percebi que não adianta parcelar na Zara, se aqui por dentro tá tudo zoado. Vou parar de arrumar desculpa para me cuidar mais, por “fora” (sim, eu vou comprar maquiagem, aceitem), e por dentro (virar homem e parar de ter medo de médico).

2. Correr: já que eu não aprendi a andar de bicicleta, que era uma das metas desse ano. Acho lindo esse povo todo no instagram correndo. É uma atividade física que eu acho realmente bonita: a coisa de ficar sozinha, de ah, correr, de sair do lugar. Pensei em voltar pro boxe, mas o momento está mais pra uma coisa mais all by myself. Eu não consigo correr 1 minuto direto na esteira, pra ser sincera. Mas eu vou tentar, e quero chegar no final do ano, pelo menos, com uma corridinha no currículo. Dá?

3. Voltar a estudar: quem me vê no dia a dia deve achar que eu estou louca. Estou quase infartando para terminar a porcaria da primeira faculdade que comecei – única e exclusivamente por motivos de: orgulho – e quero estudar mais? Quero. Porque agora, duas faculdades depois e muitos cursos mal-pagos, eu sei o que eu ser-quando-crescer de verdade. Eu sei no que eu quero ser boa. E eu já sou bem boazinha, então falta mesmo é mais incentivo. Nem que seja por conta própria.

4. Aprender a viver com menos: por uma questão de espaço, no armário, em casa, e de espaço, aqui dentro. Aprender a viver com menos pra liberar mais espaço no coração também, para ter menos preocupações, para sobrar mais para o que importa. E aprender a dar mais também entra nessa jogada, a aproveitar o que vem do dinheiro sem tanto peso na consciência. Desapego, né? Sempre ele voltando a aparecer por aqui.

5. Ler mais e escrever mais: todo começo de ano é a mesma coisa – tenho uns diazinhos de folga, eu leio 15 livros, vejo 15 filhos e escrevo posts pra janeiro inteiro. Depois, PUF, chá de sumiço. A meta esse ano é, pelo menos, 1 dessas coisinhas por mês: um livro, um textinho. Bem humilde, assim, mas possível, né? Pra não desanimar.

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