do coração

aquele do casamento

Então. Esse é o post do casamento. Sim, esse é o post do casamento. SIM GENT.

Olha, eu não sei muito bem o que escrever, então eu vou encher vocês de foto – que eu sei que na real é o que vocês querem, num é? Ninguém quer ficar aqui me ouvindo dizer que casar é muito legal, que todo mundo deveria fazer pelo menos uma festa (pode ser um aniversário, tá?) pra se celebrar. Pra estar com as pessoas que ama, com uma energia surreal de positiva, música boa pra dançar até o chão e champanhe servido no copo americano amor. Mas todo mundo deveria, viu? Faz bem pro coração.

Como eu tenho que escrever alguma coisa aqui, eu vou contar a história toda do rolê pra quem ainda não cansou de me ouvir sabe. Desde o começo, a gente decidiu “fazer tudo sozinho”. Entre aspas porque logo na primeira virada de esquina percebemos que, né, gente, não dá pra fazer tudo sozinho. Especialmente quando estamos falando pra uma festa que, embora não tenha sido grande, envolvia muita gente. Gente que precisava comer, beber, dançar, ter lugar pra sentar, fazer xixi, se proteger da chuva…

Muita coisa. Muita coisa. Coisa que você nem imaginava que existia. Coisa que você nunca tinha ouvido falar. A primeira coisa que a gente percebeu é que, pra ser do jeito que gostaríamos que fosse – 100% com a nossa cara, sem pacotes fechados – a gente teria que se dedicar muito à decoração que, como vocês devem ter percebido, é minha praia. Logo, num ia dar pra ninguém ficar pensando muito em comprar e organizar comida, local, dj, agendas, cadeiras. Não dava pra ficar pensando em como fazer a logística de levar tudo até um sítio lindo e distante de frente pra represa. E não dava, certamente, pra pagar alguém pra pensar em tudo isso pra gente.

Então 1) a gente colocou a mão na massa e 2) a gente contou com a ajuda dos amigos.

Escolhido o local – um bar/casa de eventos bem low profile, bem alternativo, perto do metrô e que aparentemente “não dá pra casar aqui”, como eu ouvi de algumas pessoas – também eliminamos a questão da comida, da bebida, do som, dos funcionários, do gerador, da tenda de proteção da chuva. Um preço bom e uma confiança meio louca em pessoas desconhecidas – que foram absolutamente incríveis e fizeram tudo ser impecável. Petiscos, cerveja, nada fancy, como a gente também não é.

Depois, foi a hora de enfrentar alguns ~probleminhas de controle que meu não-diagnosticado mapa astral virginiano encontrou. Um dos padrinhos fez os bolos – um “falso”, de mesa, e red velvet no pote para os convidados -; uma das madrinhas fez a playlist insana que fez todo mundo dançar até doer (mesmo, doeu por dias); outra madrinha-irmã foi responsável por idas ao Ceagesp, 150 arranjos de flores, 100 suculentas e um buquê maravilhoso… Cada uma das madrinhas e dos padrinhos foi responsável por uma pontinha da arrumação, das caronas, dos carretos de 100 pompons de papel de seda, todo mundo acordou cedo NO DIA da festa pra arrumar o local. Sim, as nossas mãozinhas – as minhas também! – foram responsáveis por cada arranjo, cada vela, cada decoração, cada posicionamento das mesas.

Sim, a gente abriu mão de muita coisa. A gente abriu mão de casar ao ar livre e ter que se preocupar, sozinhos, com um milhão de coisas avulsas e o transporte delas. E a preocupação com o uber/táxi/gasolina dos amigos. A gente abriu mão de montar 18921626 projetos DIY (mas montamos outros 500) do Pinterest por não ter (ainda!) um galpão onde guardá-los. A gente abriu mão de muita coisa que faziam parte do sonho, e eu posso dizer com todas as letras pra você: eu só pensei nelas hoje, 2 meses depois, na hora de escrever esse post. Todas as memórias daquele dia são sorrisos, abraços, champanhe no copo americano e muito, muito amor.

Amor por todos os lados. Amor por ele. Amor pelo o que está por vir. Amor por cada um dos amigos. Amor por quem veio de outro Estado, de outros países. Amor por “fornecedores” – amigos disfarçados de fotógrafas, de artesãs, de donos de bar.

Ele não dobrou as mangas da camisa como eu pedi. A câmera, tão bonitinha, ficou lá derrubada porque alguém teve que sair correndo pra comprar pilha na hora. Saiu até na foto! Não teve aquelas toneladas de arranjos do meu tamanho (ainda bem). Nosso melhor amigo, que foi o cerimonialista – mas a gente prefere chamar de MC! – chamou o Bruno de Bruna na primeira frase. Eu errei a mão da aliança. Todo mundo riu um monte. Todo mundo trocou a energia boa que a gente emana quando está junto, que guia nossa vida, que é nosso objetivo de relacionamento a dois e com o mundo.

E num mundo todo torto que parece que não tem muita esperança, parece até bastante egoísta celebrar o amor dessa maneira, como se o que importasse fosse só isso. Mas, no final, é. São esses momentos que fazem a gente ter forças pra se erguer, pra lutar, pra brigar, pra falar, são esses momentos que fazem a gente ter orgulho de tudo o que foi construído, são essas pessoas que seguram tua mão, são essas risadas que te levam adiante.

E, claro: tem o champanhe.

Se fica uma lição de tudo isso, é: celebre. Se auto celebre, celebre seu amor, seus amigos, seus gatos, sua vida. Se junte com os que você ama – ainda que sejam eles dois ou três – e deem risada, dancem se forem de dançar, bebam se forem de beber, joguem pokemón (e me chamem) se forem dessas. Não “deixem passar” o que quer que seja, qualquer situação importante, por preguiça, por falta de confiança nos outros (viu, Isadora?), por falta de grana. Sejam vulneráveis. Amem. Vale a pena.

isa & bruno from KARINE BRITTO on Vimeo.

*****

Eu não poderia terminar esse post sem agradecer do fundo do meu coração pisciano cheio de amor a todos os fornecedores-amigos que toparam minhas loucuras e fizeram tudo ser perfeito (ai que blogayra, no próximo casamento quero publipost):

Fotos do amor: L’amourgraphy | Vídeo do amor: Karine Britto e Claudia Barros | Local da cerimônia, da festa, buffet, staff e Gigi-melhor-pessoa: Bambu Brasil Bar |  Lapela maravilhosa, bouquets de papel das madrinhas e amiga de carolina: Annita Loja | Cabelo e make bapho e amiga da vida: Paula Vidal | Madrinho e melhor doceiro de SP: Henrique Carrenho

Logo mais eu volto a ser azeda. Agora, sou só amor <3

tudo aqui até agora em um episódio aleatório de gilmore girls café e um broken wooden goat

Vocês já devem ter percebido que eu ando monotemática, e não estamos nem falando daquele acontecimento passado do qual eu já falei bastante por aqui e vou voltar a falar bastante ainda. Estou falando do novo amor da minha vida, a razão do meu viver, o motivo do meu caminhar: Gilmore Girls.

Antes de qualquer coisa, eu queria esclarecer que eu não assisti Girlmore Girls na minha adolescência. Pois é. Meus early years não foram recheados de bons itens da cultura pop que me renderiam referências engraçadas na vida adulta – essas eu tive que pesquisar sozinha depois, digamos, ano passado, quando eu finalmente descobri que Meninas Malvadas é o filme da minha vida. Nossa você era muito hippie alternativa e só assistia TV Cultura, Isa? Não, caros amigos, eu só via SBT e Globo mesmo. MTV não pegava, não tinha tv à cabo – por pão durice alheia, nada de história sofrida aqui – e na rádio só tocava 88,1 então cês imaginem como foi difícil caminhar para toda essa hipsterização tardia.

Bem, eu não vi Gilmore Gils na adolescência, eu não conhecia Rory e Lorelai ou Stars Hollow, eu não sabia o que a vida poderia me oferecer de bom. Mas, graças a essa maravilha moderna chamada Netflix, eu posso dizer-lhes (vou usar mesóclise mais a frente, aguardem) que minha vida mudou.

Não vou fazer aqui uma lista de 10 motivos pelo quais vocês deveriam (re)assistir Gilmore Girls porque, olhando em retrocesso, eu sou bem ruim nisso de listas. Mas assistam e caminhem comigo nesse mundo inocente e tão adulto e tão fantasioso e tão real, em que todo mundo é meio cagado mesmo antes de Girls e Broad City, e tudo bem, em que todos os relacionamentos são bem complicados, tipo na vida real, e em que o café resolve todos os problemas do mundo.

Eu tomo, mais ou menos, uns três chacoalhões por episódio – você sabia que cada episódio de Gilmore Girls tinha de 70 a 80 páginas de roteiro, quando a média das outras séries do mesmo tamanho é de 60? VIRGE – mas dia desses, vendo o 8º episódio da 2ª temporada, eu me deparei com um diálogo desses que fazem a gente ficar encolhidinha em posição fetal embaixo do edredom abraçando os gatos. Segue em anexo att,

[Luke holds up a broken wooden goat]
LUKE: How about chuppah goat figure repairman?
LORELAI: Gilbert.
LUKE: What?
LORELAI: The goat. We named him Gilbert, he’s headless. Can you fix him?
LUKE: Yeah, I got some glue here. I can fix him.
LORELAI: Good. I’ll make some tea.
LUKE: So, Sookie stopped at the diner this morning.
LORELAI: Oh.
LUKE: I asked her how your plans were going with the new inn, and she very awkwardly changed the subject to women’s basketball.
LORELAI: Huh.
LUKE: She’s never shown much interest in sports before.
LORELAI: No?
LUKE: What’s going on with that?
LORELAI: Oh well, you know, women’s basketball is getting super popular. That’s good, I think. The tall girls need an outlet. We had a fight. A big, humongous fight. She’s never going to speak to me again.
LUKE: What happened?
LORELAI: I just flat out panicked about the enormity of what we were getting into and it clobbered me, and I clobbered Sookie, and was such a jerk. Hey, if I cry, will it freak you out?
LUKE: Totally.
LORELAI: What if I whimper?
LUKE: How about you suck it up?
LORELAI: Hmm, I’ll try.
LUKE: I don’t get it. You’re as ready as you’ve ever been.
LORELAI: Oh Luke, do not underestimate the complete and total lack of confidence I have in my abilities.
LUKE: What? You’re the most confident person I know. Obnoxiously so.
LORELAI: Thank you.
LUKE: I mean in a good way. You’re good at what you do and you know it.
LORELAI: Oh, no, no, no. I’m good at doing what I have to do. When I had to get a job, I got it. When I had to find a house for us and a life for us, I got it. When I had to get Rory into Chilton, I did it. But I don’t have to leave the Independence Inn. I don’t have to go into business for myself, I don’t have to walk out on that limb and risk everything I’ve worked for.
LUKE: Then do it.
LORELAI: What?
LUKE: Just say where you are.
LORELAI: What is this, reverse psychology?
LUKE: No, just stay at the inn. You’re happy there.
LORELAI: Oh, so you think I can’t hack it.
LUKE: Of course you can hack it.
LORELAI: Great, lip service, that’s what I need.
LUKE: Hey, if I start to cry, will it freak you out?
LORELAI: Ugh. I couldn’t stay where I am if I wanted. Mia is selling the inn. And that hit me hard too, maybe harder than the other thing. I’m gonna be without a home.
LUKE: What do you mean? This is your home.
LORELAI: No, I mean a home home. A memory home. The inn is where Rory took her first step. It’s where I took my first step. It’s more of a home to me more than my parents’ house ever was.
LUKE: You’re just scared. Just like everybody else when they’re taking on something big.
LORELAI: Well, then what does everybody else do to get through this feeling?
LUKE: They run in the back, throw up, pass out and then smack their head on the floor.
LORELAI: What?
LUKE: That’s what I did on the first morning I opened the diner. Look, there is no button to push to get you through this. You just gotta jump in and be scared and stick with it until it gets fun.
LORELAI: How long ‘til the diner got fun?
LUKE: About a year.
LORELAI: Wow. And there’s no button?
LUKE: Nope.
LORELAI: How about a lever, can I pull a lever?
LUKE: Nope.
LORELAI: Turn a knob?
LUKE: Nope.
LORELAI: You just jump?
LUKE: You just jump.
LORELAI: I wanna do it.
LUKE: You should do it. Check it out. [holds up the fixed wooden goat]
LORELAI: Gilbert. You’re not worse for the wear.
LUKE: I’ll go reattach him. How’d this happen anyway?
LORELAI: Oh, something must’ve smacked into him with a hedger.
LUKE: Uh huh, well, no one’ll ever know. Oh, and uh, women’s basketball is in season. You might wanna run that news past Sookie, and maybe you can go to a game or something.
LORELAI: Yeah. Or something. Thanks.

[Fica aqui um agradecimento para essa crazy internet people que disponibiliza roteiros inteiros online pra gente poder viver as neuras tranquilamente sem o trabalho extra de transcrever passagens de séries adolescentes obrigada.]

Cês leram? Se vocês num leram, cês podem assistir o ep. inteiro na linda Netflix ou então nesse link aqui (não que eu financie esse tipo de pirataria) a partir do minuto 36:10. Cês assistiram, agora?

Então, é isso.

Desde que eu criei esse blog lá em 2013, todos os posts, todas as fases, todas as fotos, tudo o que foi feito de lá até aqui poderia ter sido resumido maravilhosamente bem com essa cena. Essa cena de uma mãe solteira gerente de um hotel em Stars Hollow, essa cena com um diálogo entre pessoas imaginárias completamente diferentes de mim, essa cena de uma conversa entre dois personagens de uma série adolescente. Tá aí. A vida. A vida adulta. As aflições, os medos, as reflexões, a ansiedade, o café, os bodes de madeira feitos pelos amigos que, mesmos feios pra cacete, a gente ama e guarda com carinho.

Tá aí, gente.

Assistam Gilmore Girls.

(A mesóclise fica pro próximo post.)

1,2,3

“Pagar minhas contas, uma rotina que me permita conhecer/fazer coisas novas e exercício físico regular”. Foi assim que uma amiga minha definiu o que seria a definição de felicidade pra ela. E eu imediatamente concordei, do jeito que a gente só concorda quando realmente sabe, de dentro pra fora, que concorda tanto assim.

Parece pouco, mas é isso. E eu ainda ouso dizer que: nessa ordem, inclusive.

Se tem uma coisa que eu aprendi nesses 27 anos é a listar e priorizar as coisas e, dessa maneira, o primeiro tópico e o mais importante – e, portanto, mais difícil – é o “pagar minhas contas”. Veja bem, não precisa ser “pagar minhas contas e ser rica” ou “pagar minhas contas e comprar um iate”. É só e tão apenas garantir que o aluguel entre, os gatos tenham comida, e a Forever 21 esteja ao meu alcance. As contas, mesmo as supérfluas, são o primeiro ponto de preocupação, o maior, o mais difícil, e o primeiro que deve ser riscado da lista de uma maneira bem prática e programada – que não necessariamente tem que ser ruim ou exaustiva.

O que leva à questão da rotina que eu acabo de nomear como “de boa”, de boa lifestyle. Tempo de parar de ter inveja das pessoas que “largam tudo e vão conhecer o mundo”, que “largam tudo e vão trabalhar com o que amam”, que “largam tudo e….”, de uma maneira geral. Uma rotina que me permite, vez ou outra, conhecer um dos cantinhos do mundo, às quintas à noite trabalhar com o que eu amo e, de vez em quando, largar tudo, nem que seja pra retomar depois, é o que me satisfaz. Os momentos se tornam mais constantes, menos radicais, mais plácidos, menos intensos, mas mais certeiros e mais internos – ainda que os compartilhados. Faz bem.

E o exercício físico regular a gente vai tentando, esse, a gente ainda vai descobrir o que dá prazer e o que dá pra pagar, já que o que dá pra fazer é chato e o que dá pra pagar inviabiliza a primeira parte desse rolê de ser feliz, mas uma hora ele vem, mais leve e com menos cobrança. Não custa nada acreditar.

O mais engraçado é que eu comecei a escrever esse texto em 2015 e hoje reencontrei essa amiga aí do início, dessas  amigas sumidas e que fazem falta, e tanta coisa mudou desde então – mas essas continuam as mesmas. “Pagar minhas contas, uma rotina que me permita conhecer/fazer coisas novas e exercício físico regular”. E quando ela me perguntou como você tá? hoje foi mais fácil responder, mais honesto, mais perto do que tem que ser. Mesmo quando a pergunta mudou pra o que você quer? e um grande ponto de interrogação a ansiedade não foi tanta, deu até aquele gostinho de pensar “tanta coisa, não sei nem por onde começar”, que seja um curso de bordado, um gatinho novo pra completar o trio, pintar a parede do quarto ou toda uma nova vida. Que seja.

Que seja.

imagem lá do Chez Noelle

imagem linda que eu vi no Chez Noelle

revirar-se

Esse caso inominável e bizarro e a gente tá o quê? Explicando pra homem como se comportar.

Tem que explicar. Tem que ensinar. Tem que falar “se você não para de tomar cerveja com o parça que bate na mina, você é igual”. Tem que ser didático e “se você dá risada da piada no whatsapp você é igual”. Tem que contar que “se você acha exagero você é exatamente igual”. Que “se você fala da roupa do batom do biquíni da gorda da vaca da Dilma da puta” você é exatamente igual. Você tem que dizer que não importa a roupa a droga a bebida o filho a idade o funk a escola. Você tem que construir os argumentos pro desconstruidão pegar mulher. Mas ele é tão legal.

Você, mulher, tem que explicar como é fundo e dolorido e pra onde você olha e pra onde você corre tem mais e mais e mais gente igual. Você, mulher, tem que se legitimar através do texto do brother que está envergonhado e que país é esse e que imagina que gente doente, que mundo doente, mas eu não sou assim, eu sou do bem. Você, mulher, nós, mulheres, a gente tem que ouvir que a solução e fazer os 33 virarem mulherzinha na prisão.

Virarem mulherzinha. Mais 33 mulherzinhas.

Mas a gente não precisa do feminismo, não.

Nayyirah Waheed 01

A gente está indignado, indignadíssimo, com um crime. Um crime absurdo, hediondo, impensável, um crime. Um crime que acontece todo dia – todo. santo. dia. – e ninguém vê. Um crime que quando não são 33 ou não repercute ou não pega tão mal não se pronunciar, passa em branco. Ou, pior ainda: é justificado. Um crime injustificável e inominável e indefensável, tanto quanto os outros 1 a cada 11 minutos crimes que acontecem diariamente mas, esses, sutis, justificáveis, mas e a roupa, mas tinha cara de safada, mas tava querendo, mas tá chorando porque se tá gostando.

Tá todo mundo indignado com a violência e a crueldade da favela, do morro, do tráfico, dos animais, dos pobres, do povo sem estudo porque tem que ler e ter cultura. Ninguém sequer de quantas vezes silenciou as duas ou três mulheres da reunião descoladinha na sala do lado da mesa de bilhar. Quantas vezes chamou de gostosa de vaca vagabunda de puta rodada e essa não essa é só pra comer na balada milionária. De quantas vezes rechaçou, recusou, de quantas vezes julgou a roupa e falou da amiga gorda, da mina vaca, da competição, da legging apertada, de que precisa emagrecer mas tem um rosto lindo. Mas tá todo mundo muito indignado.

Não é nossa função ensinar. Não é nossa função validar. Não é nossa função explicar. São séculos nos tratando como incapazes, burras, menos eficazes. São séculos no diminutivo. No bonitinho. No sensível. Meninas. No educado. No paternalismo patronizing patrocínio que apadrinha ampara protege sustenta defende auxilia. Está. No. Discurso. Não é nossa função compartilhar texto pra deixar (mais) famoso. Vamos escrever nossos próprios textos. Vamos nos compartilhar, divulgar, proteger.  Nos cuidar. Entender quem é o inimigo. Guardar as brigas internas num lugar importante, mas nutri-las com carinho e cuidado para brigá-las com a compreensão de quem já esteve do lado de lá. Quando for possível.

what
massacre
happens to my son
between
him
living within my skin.
drinking my cells.
my water.
my organs.
and
his soft psyche turning cruel.
does he not remember
he
is half woman.

– from

É preciso se unir. E abraçar e cuidar e empoderar e gritar junto e dar as mãos para cada uma das mulheres a nossa volta. Todas-elas. Todas-elas. Todas aquelas que renegamos, que rechaçamos, que chamamos de vadia, que temos inveja, que desprezamos, que nos machucaram, que nos feriram. É preciso abraçá-las. Precisamos promover todas as mulheres a quem admiramos, amamos, todas as mulheres que são muito próximas para dizermos que precisam se emancipar. Aquelas. E todas as que têm medo de falar por erro, e todas as que não desconstruíram e precisam, e todas as que não perceberam mas vão. É preciso dizer que nos inspiram. Que nos dão força. Que estamos juntas. Que somos fortes.

É preciso se posicionar. É preciso entender que não são 30 homens doentes: são 30 filhos saudáveis do patriarcado. Que estupro não é doença, não é sexo, não é desejo: é poder, é política, é dominação. É discurso. Coitada, coitada, coitada… Sofrer coito. Sofrer. Que está na linguagem. Naquele que dizemos todo dia. Na raiz da palavra. Presidenta. Mulher. Mulherzinha. Inha. Nos olhares por cima dos ombros na rua. Na hierarquia superior do homem.

É preciso (se) revirar. Tudo. Do zero. De dentro. Com força. Vermelho.

Nayyirah Waheed 02

Todos os trechos destacados desse post são de Salt, da poeta Nayyirah Waheed. Acho que nunca li nada tão poderoso. Dá pra ler o livro inteiro de graça na Amazon. Façam isso por vocês hoje. E também assistam o documentário Shes’s Beautiful When She’s Angry, sobre o movimento feminista dos anos 1960/70, na Netflix. Pra encher a gente de ideias e de força.

aquele do carnaval em são paulo

Não sei se estava mais ansiosa pra esse carnaval porque meubomjesusinho eu pre-ci-so que esse ano comece de vez, ou, bom… Porque é carnaval.

A quem eu quero enganar? É claro que é porque é carnaval.

Não se enganem, caros amigos: eu já fui a roqueirinha rebelde que dizia que preferia ser enterrada viva do que ficar na rua ouvindo ~música ruim~ e no meio da ~muvuca~ e blá, fugindo do sol, cultivando meus longos cachos com óleo de argan e sobretudo fedido. Claro que fui. Acho que todos nós tivemos essa fase e eu espero que coração que os meus amigos que ainda a vivenciam que possam evoluir e se tornar pessoas que amam o carnaval.

Porque gente. GENTE. Carnaval é a melhor festa do mundo.

Tô falando do carnaval de rua, carnaval moleque, carnaval dos bloquinhos – mas quem sou eu pra falar que qualquer outro tipo é ruim? Longe disso, já mordi a língua suficiente por umas 3 vidas. Agora, eu definitivamente não consigo pensar nos lados negativos do carnaval de rua. Tá eu até consigo, mas meu papel aqui é convencê-los de que não há nada melhor do que se fantasiar de unicórnio e sair no viaduto do chá, então segurem essas marimbas aí e me ajudem.

carnaval16_01

Há um tempinho que eu recuso convites de viagens intercontinentais para ficar em São Paulo e curtir essa festa que é o meu tipo de festa. Vem ver comigo os motivos:

// Começa cedo: eu honestamente não sei como vocês fazem para começar a se arrumar depois das 22h e sair após a meia noite, assim, do fundo do meu coração eu não entendo. A única maneira de eu sair pra ~baladam~ é emendando trabalho-bar-semtrocarderoupa-voufedidaprafestinha e, ainda assim, conto nos dedos quantas vezes isso rolou. Já carnaval, que horas começa? 14h, 15h, QUATRO DA TARDE. Olha que horário maravilhoso!

// Não começa tão cedo assim pra inutilizar seu dia: domingo foi dia de faxina pesada na casa. Terminou lá pra umas 13h, deu pra almoçar, tirar um cochilo e começar com tranquilidade minha fantasia de Banana Psicodélica. Ontem foi dia de resolver pendências internéticas, pensar nesse post, assistir Hannibal e ir no sacolão comprar a comida da semana. Deu 14h e eu ainda tinha 1 hora inteira pra pensar em como me transformar em um unicórnio. Fala pra mim se não é maravilhoso?

// Termina cedo: Gente. Termina. Cedo. Cedo assim: cedo às oito horas da noite. Às nove, gente, às nove já deu pra matar aquelas 3 esfirras (sempre um erro) da lariquinha, e você já está a caminho de sua casa linda, loira e com maquiagem derretida. Tudo se resolve por volta das 22h e, meus amigos: daí é só alegria, netflix & chill até o dia seguinte pra mais um dia de folia. Isso se você não chega muito destruído em casa, o que pode se transformar num cenário ainda melhor: você esquece as noções de higiene pessoal, deita e dorme: o que te propicia 10 horas de sono profundo até, sei lá, SETE DA MANHÃ do dia seguinte e de repente, BAM, você está acordada. Acordadona. E ainda é carnaval. AINDA É CARNAVAL GENTE!

// As músicas: se você jurar de pé junto pra mim que houve qualquer coisa da variação samba enredo-marchinha-jorge ben-paródia de qualquer uma das anteriores e não dá sequer uma batidinha com a ponta do pé no chão, miga, precisamos conversar.

// Você pode ser quem você quiser: sem considerar a depressão que é a gente precisar esperar um evento festivo para poder usar essa frase, mas miga, quer ser unicórnio? Seje. Quer ser mulher-fruta? Seje. Quer ser Bela Gil. Seje. Quer ser o casal da catuaba? Seje. Quer ser o japonês da Polícia Federal? Por favor sejesejeseje. Horas de maquiagem, horas de programa de drag queen ensinando a fazer contorno e esconder a sobrancelha, horas de preparação, horas de montação e algumas poucas horas de bloquinho e muito glitter em toda a sua casa pra todo o resto de fevereiro. Amor, né gente.

carnaval16_02Melhor época do ano <3