do coração

baladinha

É mais ou menos assim: o despertador toca, eu acordo – bem brava. Você continua dormindo. Eu olho pra você, você se mexe um pouco pro lado, só pra me deixar com mais raiva: continua dormindo, fica ainda mais lindo. Ressona, passa o braço em volta de mim, que não me mexo. Por raiva, viro pro lado contrário e bufo alto – e você não percebe. Despertador toca de novo, eu te olho, indignada, você diz: bom dia… E cai no sono. Com a mão na minha barriga. Todo dia. Ainda bem.

Virando…

Desde que me mudei, tem uma coisa que me angustia muito: eu não sei se gosto mais de ficar dentro ou fora de casa. Há 3 meses eu entrei naquela fase ermitão, porque está tudo tão lindinho, tão gostoso, tão meu, que pra que ir lá fora?

Esse final de semana, o que me tirou de casa foi uma imensa gota de cuspe que eu atirei pra cima há uns 2 anos chamada Virada Cultural. Sim, eu não só saí de casa, como eu saí de casa no final de um sábado (depois do dia de faxina), com a tarde já escura, em direção a uma muvuca gigantesca e com muitas chances de dar merda.

Bom, vocês viram que choveu granizo, né?

Olha… Choveu granizo. Eu vi shows incríveis de gente que eu nem conhecia – e morria de preguiça de conhecer, confesso, andei por São Paulo de madrugada vendo a cidade ocupada, linda, comi divinamente bem e vi gente, gente, gente reunida, uma coisa linda que só.

Nesse meio tempo, minha cama nova chegou e eu tive a oportunidade de dormir numa daquelas camas de hotel (e eu fui pra rua mesmo assim!). E eu voltei pra casa pra fazer xixi no meu banheirinho cheiroso e limpinho, comi esfiha do empório árabe que fica a menos de 10 minutos de casa, e a hora que o pé doeu, deu pra sentar.

E foi tudo tão lindo – que no final, até choveu granizo.

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Cada vez sou mais apaixonada por essa cidade.

would you be my valentine?

Eu tinha bastante dificuldade de entender o conceito do Valentine’s Day. Aprendi na escola que era uma espécie de Dia dos Namorados, mas que dava pra você escrever cartões também pros seus amiguinhos, pras suas BFFs. E a gente fazia isso, cada ano comemorando com um presentinho mais brega que o outro – e só podia escrever “eu gosto muito de você”, ou “eu te adoro”. Amar era só pra pai e mãe, e olhe lá.

Acabei me perdendo nas explicações bastante confusas que me deram ali, por volta dos 12 anos, quando tudo o que eu queria era perguntar para o menino do topete descolorido se ele would be my valentine? mas me privaram desses sonhos, e eu desencanei.

Na real, essa explicação meio confusa acabou sendo a que eu mais aceitei ao longo da vida. A diferença é que, se aos 12 anos eu ficava brava, aos 16 eu achava mentira, bom… Aos 24 eu só tenho a agradecer.

Um amor-amigo, companheiro, leve e brincalhão, que aceita explicações meio tortas, presentes bem bregas e pergunta minha opinião antes de decidir descolorir o moicano. Um amor desses que não serve pro príncipe encantado no cavalo branco, mas que se encaixa perfeitamente no frango-com-limão-que-você-pode-comer-na-sua-dieta, em brincadeiras estúpidas antes de dormir cedo, porque amanhã você tem que trabalhar, e em sorrisos bobos de quem encontra, todo dia, um novo pedido simples e bobo. Uma escolha. Você seria… ? Seria. Todos os dias.

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barulhinho bom

Eu nunca fui uma pessoa de gatos. Não por eles, é claro: mas eu não sei lidar com gente que não corresponde meu amor na mesma moeda. Sempre fui assim na vida, com amores, com amigos, com bichos. Por que raios você não gostaria de ficar no meu colo à tarde toda? Como é que você não quer que eu te abrace agora? Quem é que não gosta de carinho na barriga, catzo?

Claro que eu não tenho muito poder de dizer “não” em questões relacionadas a animais. Eu vim com um defeito no botão “perigo”, e poderia colocar a mão tranquilamente no aquário da Shamu ou daquele urso polar do Central Park. Minha tia sempre teve gatinhos que, como gatos, me davam 5 minutos de atenção e eu, como Isadora, dizia com a boca cheia que “eu gosto mais de cachorros”. Talvez ainda seja verdade.

Você apareceu na casa do Bruno com a sua irmãzinha, minúscula, mas já brava. E com o seu motorzinho ligado, tão alto que eu sempre me preocupei: é normal ela fazer esse barulho? Claro que era, era só amor. Mesmo quando você queria ficar na sua, era amor, amor alto e claro que nem você conseguia esconder, sua blasé. Você resistiu à falta de cuidado que sua irmã não soube enfrentar, foi e voltou pra gente, como se nunca tivesse ido embora.

E de repente, tinha você ali: miando, pedindo, dando suas cabeçadinhas carinhosas de “por que porra você não acordou e não está me dando comida?”. Seis e meia da manhã, sempre, na janela. Você e seu jeito desleixado de pular, fazendo barulho de mola que sempre me fez pensar: é normal ela fazer esse barulho? Era só você, sendo um gato desajeitado, como você sempre foi.

E nem deu tempo de ser brincalhona. Logo, você, safada que só, começou a engordar de uma maneira estranha, e miar de uma maneira estranha, e fazer barulhos estranhos pra se comunicar com a gente. É normal ela fazer esse barulho? E, de repente, você trouxe o melhor presente que eu poderia ter recebido, uma surpresa que eu nunca imaginaria que viesse. Pelo menos, não no formato daquela bola gorda de pêlo branco. Que você nunca abandonou.

A gente fez você perder um filhotinho, e, por isso, eu nunca vou me perdoar. A gente plantou uma plantinha num vaso pra você ter pra quem miar quando desse saudade. E cuidamos pra que aqueles bichinhos devoradores de leite não te judiassem, logo você, tão pequena ainda. Tão filhote. E você, é claro, cuidou deles como ninguém, lambendo a cria, mesmo, até o último dia, mesmo quando aquele safado, com 6 meses de idade, ainda queria mamar. Aquele Gordo.

Do mesmo jeito que você veio, assim, de repente, e de repente transformou a nossa vida numa coisa louca, numa corrida para fechar privadas, numa preocupação louca por barulhos, miados e objetos perigosos, do mesmo jeito que de repente você mexeu em tudo e deixou tudo diferente pra sempre, do mesmo jeito, de repente, você foi embora. E eu não sei se nesse tempo deu pra mostrar que você foi a coisa mais doida e intensa que dava pra você ser. Mas você foi. E agora só sobrou barulho de vazio.

Obrigada, Bebel. Até mais.

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amizade bloqueada

Talvez eu até já tenha escrito sobre isso. É, muito provavelmente isso já aconteceu antes. Porque, é claro, eu já fui feliz em algum outro momento da vida – mas isso vai e volta, e não por algum suspiro bipolar da minha parte, mas porque é a vida, né gente? E a vida é assim.

Mas a verdade é que a gente descobre os amigos na hora da felicidade. Quando as coisas estão calmas, quando a gente responde “tá tudo bem” mesmo, porque é assim que a vida está, e parece até que não temos mais assunto. Acontece. De vez em quando, mas acontece. Ainda que seja aquela felicidade besta de acreditar que tudo está dando certo, e vai continuar.

Ainda mais eu, que sempre tive inclinações pra blogueira Capricho – sem a menor vergonha de esconder. Eu acho que é isso que vocês chamam de Geração Y: eu compartilho, eu fotografo, eu escrevo, eu faço autorretratos em que pareço muito mais bonita do que sou, eu encho com fotos de gatos que nem me amam tanto assim. A internet me deixa à vontade. Vai saber.

E é aí que a gente descobre que é a vida real que incomoda. Que, em tempos de amizades virtuais e de cafés não tomados, o “dar unfollow” virou o antigo “xingar a mãe”. Eu notei quando passei a bloquear não os chefes antiquados ou a polícia do RH, nem os familiares carolas – mas os amigos. Porque felicidade incomoda, e é mais fácil reclamar que a vida não é perfeita do que explicar que ela está bem próxima de ser.