do coração

era a roupa certa para um dia difícil

Eu achava que os corações partidos estavam seguros lá com os 20 e pouquinhos. Achava que depois a gente aprendia a lidar de uma maneira diferente. Toda vez que me disseram “eu sei que dói, mas passa”, confiei como que só tem aquilo pra confiar – e passou. Achei que nunca voltaria. Achava que todas aquelas fases – a que você fica com raiva e quer falar, a que você está destruída e quer só chorar, a que você ainda não acredita e fica completamente anestesiada – estavam diretamente ligadas aos que os 20 e pouquinhos não traziam, à falta de segurança, ao descobrimento inteiro, à certeza de que sabemos de tudo.

Toda vez que eu fico triste, eu descubro um livro novo. Eu não sei se eu descubro este livro porque eu estou triste ou se eu fico triste e então descubro magicamente um livro que me faz querer morar lá dentro. Mas quando eu não tenho muita força pra colher os caquinhos eu deixo eles esparramados mesmo, e me encontro inteira lendo sem parar, como se a sequência das frases e a coerência da história fosse me reconstruindo. Normalmente esse livro é um desses meio mágicos, que lembram pra gente que a gente pode fugir pra lugares mais incríveis, onde nada faz sentido e a gente pode viver uma outra vida. Onde os gatos não fazem mais do que a sua obrigação de nos levar por caminhos desconhecidos e lagos são oceanos e as pessoas sabem todos os mistérios do Universo, como que o dinheiro destrói todos os nossos sentimentos e que a gente precisa aprender a confiar uns nos outros.

O pavor ainda não tinha abandonado minha alma. Mas havia uma gatinha no meu travesseiro e ela ronronava em meu rosto e vibrava suavemente a cada ronronar, e logo eu adormeci.

planos para o feriado

Ler. Ou dormir lendo um livro. Fazer uma lista com tudo o que tem que ser arrumado na casa. Riscar um ou dois itens. Escrever alguma coisa boba dessas que vêm de dentro. Tirar fotos bonitas. Tomar um banho demorado que acaricie todas as partes: máscara no cabelo, máscara no rosto, máscara nas pernas. Cantar bem alto no chuveiro. Fazer as unhas e não limpar os cantinhos. Assistir uma série boba. Assistir de novo aquela série bacana. Sair. Andar. Conhecer um lugar novo. Tirar fotos novas. Sorrindo. Se arrumar para sair e tirar fotos novas sorrindo. Se esforçar para gravar cada segundo do tempo bom que passar, pra quando as coisas estiverem meio ruins você ter pra onde voltar. Repetir que vai passar. Vai passar.

Amanhã você não vai nem lembrar.

não compre, adote

Essa é uma tentativa de não fazer textão no Facebook.

Eu sempre tento manter o blog um espaço mais íntimo e menos polêmico, simplesmente porque já fico extremamente exausta com todas as discussões que passamos – ativamente ou não – nas redes sociais. Mas isso não é justo. Isso não é justo comigo, já que alguns temas desses que exaltam os ânimos me são muito caros e importantes, e nem com “meus leitores”, se é que existe isso, já que eu acredito que a gente pode (e deve) tentar mudar o mundo assim, pasito pasito, suave suavesito.

Posto isso, eu vim aqui falar sobre o comércio de animais domésticos. Na semana passada, a Luisa Mell – que, para quem não conhece, é hoje uma super ativista dos direitos animais e presidente de um instituto que leva seu nome – resgatou 135 cachorrinhos de um canil depois de receber denúncias de maus tratos. Ela fez uma cobertura em tempo real no seu instagram, mas é possível ver alguns vídeos e a repercussão na página dela – são cenas bem fortes. E por ela ser uma figura pública já bem famosa, pelos vídeos serem bem fortes e compartilhados à exaustão por blogueiros e outros influencers, a coisa repercutiu bastante.

Um resumo pra quem não vai ver as imagens, que acredito que seja a maioria de vocês aqui: são 135 animais em uma casa. A começar pelo espaço que eles deveriam ter, e não têm, a coisa já está errada. A grande maioria desses cachorros estava coberta por fezes, muitos deles jamais haviam tomado um banho na vida, o pelo dava nós enormes, crostas de sujeira, doenças de pele horríveis. Alguns deles estavam com doenças mais sérias, vários deles já haviam morrido, e foram descartados em sacos de lixo na lixeira no fundo da casa. Tudo sujo, contaminado, tudo horrível de se ver, filhotes empilhados em gaiolas minúsculas, adultos disputando espaço, com medo, assustadíssimos. As denúncias, que eram de agressão, porrada mesmo, pareciam muito possíveis, já que haviam vários paus e cabos de vassoura espalhados pela casa, e vários dos animais mostravam machucados, deslocamentos, hematomas. Pois é.

Tudo muito horrível, né? Que pessoas cruéis, né? Então, esse não é um canil “de fundo de quintal”. Esse é um canil certificado, com todas as fiscalizações possíveis, que vendia filhotes de raças como pugs, yorkies e lhasas pra gente com bastante dinheiro e conhecimento. O que leva a gente a pensar (ou ao menos, deveria): o problema não é este canil, pontualmente: são todos. O problema é o comércio de animais.

O problema é precificar, cruzar, criar e vender animais por simples capricho nosso. Quando alguém compra um cachorro é porque está querendo “aquela raça”, seja ela da moda (vejam, estamos sujeitando vidas a algo volátil e passageiro, ou seja, uma TENDÊNCIA, certo?), seja por ela ser “pequena”, seja porque ela é conhecida como “boa companhia para crianças”. Estamos submetendo a reprodução de seres vivos a nossa vontade, estamos geneticamente tratando os animais para que eles atendam às nossas “necessidades”, aos nossos desejos.

Existem canis que tratam os animais com cuidado e até com carinho? Com toda certeza. Esse, novamente, não é o problema. Claramente a dona desse canil é uma pessoa sem nenhum tipo de compaixão ou discernimento sobre a vida? Sim. Mas esse não é um problema pontual de uma pessoa sem coração. É a mesma coisa de falar “que homem doente” para casos de estupro. Não é um homem: é toda uma sociedade patriarcal e doente, que facilita, motiva e induz a esse tipo de comportamento. E a gente, comprando bicho, incentiva isso. A partir do momento em que a primeira pessoa compra um golden retriever maravilhoso, simpático, desses de propaganda de televisão, que corre com crianças e dorme no sofá, estamos motivando que esse comércio continue existindo.

Independentemente de como é o canil do qual você comprou ou pretende comprar seu filhotinho lindo igual ao da blogueira famosa, vamos lembrar que estamos falando aqui de comercialização e, como todo tipo de comercialização nos dias de hoje, apliquemos a lógica geral do capitalismo: produção em larga escala, de acordo com a demanda. Só que a gente não está falando de um smartphone, de uma caneta, de uma brusinha. A gente está falando de reprodução em larga escala. O que quer dizer que as melhores fêmeas são selecionadas, os melhores machos são selecionados – de acordo com essas características tão imprescindíveis que vocês precisam que seus cachorrinhos tenham – e eles são forçados a se reproduzir. Forçados a copular. A ter o maior número de gestações possíveis. O maior número de filhotes, saudáveis e perfeitos, é claro, possíveis.

Dá pra perceber o erro? Então além de a gente estar forçando essa reprodução descontrolada, estamos também selecionando geneticamente esses filhotes. Ou seja: além de muitas das matrizes – as fêmeas reprodutoras – morrerem precocemente por conta de desgaste (sim sim, de usar seu corpo até não dar mais), outras adoecem, rejeitam suas crias, têm milhares de problemas por conta de stress. Ah sim, e os filhotes rejeitados, ou aqueles que não são perfeitamente machadinhos, peludinhos, bonzinhos, bonitinhos? Descartados. Descarte de produto é feito no lixo, certo? Certo. É isso mesmo. Ah, tem também a pancada de problemas que esses filhotinhos aparentemente lindos vão passar a apresentar ali, depois de uns 2, 3 meses: ou seja, na casa do seu comprador. E se você compra um produto com defeito, um defeito assim, irreversível… Você leva pra devolver à fábrica, certo? Ok.

Presenciar um filhote em uma vitrine ou numa gaiola de uma pet shop, oferecido como um produto é algo deplorável. É um atestado de nossa falência moral. Reflete do que somos capazes de fazer em nome do lucro.

Entendem que o problema vai muito além de uma crueldade pontual? Que, ao tratar como uma questão de caráter de uma pessoa doente, a gente desqualifica o tamanho do problema? Que, ao naturalizar o comércio de vidas – porque sim, a gente está forçando a reprodução e comercializando vidas, sim – a gente fecha os olhos para tudo o que está por trás disso apenas por caprichos nossos? Em linguagem mais simples: só porque a gente pode? Só porque a gente é a espécie que “ganhou”?

Eu comprei meu Lulu da Pomerânia em um canil maravilhoso, super certificado, conheci os pais dele e são todos muito bem tratados! Que bom que você tem esse privilégio: a maior parte das pessoas não têm. E porque você tem esse cachorrinho lindo e peludo e quietinho, várias outras pessoas vão querer tê-lo também. E elas vão comprar os filhotes sabe onde? Na OLX, no canil que vende por R$ 500, e não R$ 5000, no criador clandestino. Se esse canil do vídeo, certificado, fiscalizado, era assim… E os outros?

Eu preciso de um cachorro pequeno e que não lata, pois moro em apartamento! Se você condiciona a existência do animal ao que você precisa, a coisa já começou errado. Mas, ainda assim: um bom veterinário sabe dizer se aquele filhote de vira-latas vai ficar de porte pequeno também, é possível. Latidos e outros “problemas de comportamento” (cachorros sempre vão latir, vamos pensar por aí?) são muito mais condicionados à criação e ao tratamento (e podem ser corrigidos com socialização e adestramento), do que à raça, sabia? Não te convenci? Que tal então adotar um cachorro adulto, que já tem sua personalidade e seu tamanho completamente determinados? Zero chance de se decepcionar com essa opção. Filhote fica mais bonito na foto? Hm.

Mas é o sonho da minha vida ter um buldogue francês, olha como ele é bonitinho! A gente tem que parar de pensar nos animais como produtos. É urgente. É imprescindível.

Nós fechamos os olhos pra muita coisa. Nós fechamos os olhos para a indústria de alimentos, maior responsável pelo colapso ambiental que estamos tão próximos de sofrer. Nós fechamos os olhos pra indústria da higiene, de beleza, de medicamentos, e tantas outras que utilizam dessa pretensa superioridade da espécie. Nós fechamos os olhos para o fato de que estamos modificando geneticamente diversos animais e criando monstruosidades exclusivamente pra que eles atendam melhor à função de produtos que são, para nossa conveniência.

Em última instância: o problema é a gente submeter os animais aos nossos caprichos. E sim, é hipócrita falar de tudo isso e continuar consumindo produtos de origem animal, como é o meu caso, ou “ah, eu não posso falar de adoção se como carne normalmente?”. É hipócrita, sim. O que não significa que seja errado, ou que você não possa falar, ou que você não possa se conscientizar, ou que você não deva SABER de tudo isso. Da mesma maneira que, você que come carne, deveria saber como são criados os bois e porcos que aparecem na bandejinha do mercado. Que eu, que como ovo, sei claramente como são criados as galinhas e pintinhos que produzem meu café da manhã.

A gente precisa de um pouco de humildade também. Humildade pra falar “poxa vida, eu já comprei cachorro sim”. “Sim, eu já quis muito ter um pug”. “Sim, eu já dei um filhote de poodle pra minha filha”. E tudo bem. A gente vêm aprendendo muito nos últimos anos, as coisas estão mais abertas, as informações chegam mais rápido. Nunca ninguém dirá que você ama menos seu buldogue – ele é lindo, eu rolarei no chão com ele! – por isso. A questão é, a partir do momento que você entra em contato com essa realidade, o que fazer com ela? É botar a mão na consciência e falar, com menos afronta e menos preocupação em lacrar, “é mesmo, a partir de agora, não faço mais”.

Existem inúmeras ONGs que fazem trabalhos muito sérios no acolhimento, na castração, na doação de animais incríveis, que às vezes ficam anos a espera de um lar – que, muitas vezes, morrem sem terem conhecido uma família. Que precisam de dinheiro pra comprar ração, para castrar, para cobrir tratamentos de outros tantos bichos que estão doentes ou foram machucados. Que tal conhecer o trabalho do Projeto Segunda Chance, do Projeto SalvaCão, dos Amigos de São Francisco, do Animais da Aldeia? Da Adote um Gatinho, da Gatópoles, da Catland? Que tal ajudar a Celebridade Vira-Lata, que já castrou quase 10 mil animais? Que tal conhecer o Santuário Ecológico Rancho dos Gnomos? Que tal conversar com quem você conhece e pretende comprar um filhote de raça? Vamos?

Ter um bichinho muda a nossa vida – e faz com que a gente abra o olho pra muitas dessas coisas. Então: não compre, adote. Adote e castre o seu animal. Um cachorrinho, pequeno ou grande. Um animal adulto, que vai te dar tanto amor quanto um filhote. Um gato preto. Um animal que precisa de cuidados especiais. Ou um filhote recém-nascido de qualquer uma dessas opções, saudável, lindo, amoroso, pequeno, peludo, que até parece um golden, que vai fazer um eventual xixi fora do lugar e comer aquela sua meia favorita, que vai morder teu móvel caro e render fotos incríveis pro seu perfil de bicho no instagram. Mas adote. Adote. Não incentive esse mercado.

Demorei um tempão pra escrever esse texto e, quando vi, ele ficou pronto hoje, 04 de outubro, no Dia Mundial dos Animais <3 Cabalístico, não? Então aproveitem e, quem for de São Paulo, dê uma passada na festa da Associação Natureza em Forma e na outra festa, da Celebridade Vira-Lata, que terão a renda revertida para a causa. Vamos?

eu

Estão rolando muitas coisas – aqui dentro. Eu não estou conseguindo organizar nenhuma delas (aqui dentro também). Parece que eu tenho muita coisa pra dizer pra vocês e estou prestes a fazer textões importantes sobre a vida o Universo e tudo mais, mas não sei.

Eu entrei nessas de tomar vitaminas e própolis e kefir de leite e kombucha e probióticos tantos quantos a saúde da gente pode precisar, porque se a vida vem deixando a gente doente a gente combate com essas coisas que nem acredita direito, mas faz;

Eu consegui emagrecer um pouquinhozinho e não me perdoo por me importar tanto com uma coisa que eu tanto insisto pras outras pessoas não se importarem;

Eu achava que nunca mais teria o coração quebrado em pedacinhos tão pequenos que parece que quando a gente troca de posição entra uma farpinha no que sobrou, e dó dói dói dói e a gente só quer chorar e abraçar os joelhos, mas tem toda uma vida pra viver e a gente segue, estilhaçada;

Eu bem que tô gostando dessa de rodar rebolar subir trepar inverter e quase morrer nessa barra maluca que todo dia me inibe e me assusta e eu enfrento mesmo assim. Como faz pra ter uma em casa?

Eu disse em voz alta pra uma desconhecida que “mas eu me sinto na melhor fase da minha vida”, e parece que essa frase inteira estava entalada aqui dentro e finalmente saiu, assim, e se eu pudesse eu teria feito igual àquela série de livros lá que a gente não pode contar que ama porque é infantil mas ama com todas as forças e capturado a frase no ar e guardado num vidro translúcido pra ficar olhando de fora pra sempre girando no fundo fazendo sentido;

A gente criou esse hábito de comer panqueca de banana em todo o café da manhã e os dias têm sido lindos e calmos e como eles têm que ser mesmo;

Eu terminei de verdade até o fim com uma caneta Bic;

Há textões sobre tudo e sobre a geração que cultiva plantinhas e gatos e plantinhas e desenhos e agendas com um extenso e complicado código de anotações e tudo isso faz parte do mesmo sintoma e falta de perspectiva que a gente desesperadamente está inserido.

Me perdoem, guerras distantes, por trazer flores para casa.

Eu tenho vontade de ler poemas e escrever em paredes.

Eu não escrevo uma linha.

Eu descobri toda uma temporada de Grey’s Anatomy não assistida e inteiramente disponível para tal, e se isso não é um sinal, o que mais pode ser?

Eu fico muito feliz por ser cada vez mais honesta comigo e cada vez mais chocada triste estilhaçada brava pelas pessoas que não são com as outras.

Minhas amigas estão grávidas. Me perdoem, guerras distantes, por trazer flores para casa. 

Eu tenho medo. Eu quero arrumar minha bicicleta. Eu quero o carnaval. Eu tenho medo. Eu tenho planos e eu quero aproveitar o sol e finalmente tem sol nessa cidade e eu escrevo sem olhar para o teclado. Eu procuro músicas novas e as de sempre ecoam aqui dentro. Parece que tudo já foi dito.

reforma

Na frente de casa tem um prédio desses baixinhos, sem personalidade, quase meio sem graça. Quando a gente morava de frente pra ele, um dia, fofocando da janela, percebemos que os janelões que antes pareciam dividir cada um dos três andares em dois eram, na verdade, só janelões, e um cachorrinho desses sem personalidade, quase meio sem graça, atravessava correndo de um lado pro outro do apartamento imenso, bem iluminado, com janelões que mais pareciam de dois. Quando a placa de “vende-se” apareceu na portaria completamente sem personalidade a gente ligou, só pra fazer graça mesmo, e perguntou como é que era essa história. O apartamento à venda era o do último andar, imenso, os janelões, todos os quartos do mundo – e não era só isso não, a laje era dele também, lá em cima, tudo aberto, dobrando o tamanho, e tem também uma edícula, moça, precisa de uma reforminha, a laje é meio velhinha, mas tem bastante espaço.

Precisa de uma reforminha. Tem uma laje imensa pra você fazer o que quiser.

Isso faz bem uns 3 anos, mas essa semana a plaquinha de “vende-se” voltou pra portaria sem graça, que fica ao lado do antigo mercadinho da rua, desses que a gente conhece a dona, a filha da dona, o marido da dona, aquela moça que não é filha nem irmã mas é certamente da família da dona. A dona que sabia que eu sou louca por abacate e kinder bueno. O mercadinho que sempre tinha cup noodles de legumes e vendeu milka a 8 reais por um tempo. O mercadinho fechou – a gente tem um Extra e um Dia% na mesma quadra, obrigada capitalismo – e agora ele tem uma plaquinha irmã da placa de “vende-se” do apartamento dos janelões e da laje e da reforminha. “Aluga-se”.

A laje toda coberta por grama e uns tijolinhos, pintar as paredes de cinza mesmo, pela luminosidade. Começar a reformar a edícula descascando todas as paredes e deixando a estrutura à mostra, só precisa de uma boa iluminação e um banheirinho, as coisas aqui de casa estão ótimas, novas, a gente leva tudo e se espalha. A gente coloca aquelas portas teladas duplas, de segurança, os gatos não sobem pra laje e ali a gente cria as plantinha todas. Dá pra ter as árvores que a gente sempre quis, dá pra plantar a mudinha de café, da pra estender a horta e cuidar das rúculas bebê. Daí a gente desce e pinta todo o mercadinho de branco e compra umas tábuas dessas clarinhas e vai montando as prateleiras, e coloca umas cores, e dá até pra ter o torno de cerâmica, e dá até pra ter um tearzão.

A gente sobe e desce com os vasinhos todo dia, daí lá em cima eles tomam o sol e a chuva que precisam e ficam verdões bonitos pras pessoas comprarem, e a gente explica como cuida, e a gente fala que tudo bem ter gato, que só precisa de cuidado. E a gente trabalha bastante e também descansa bastante, porque dá pra se esticar na grama no meio de São Paulo, e se a gente só olhar pra cima nem parece que estamos cercados por prédios, dá só pra abstrair o barulho do ônibus e o alarme das 18h. E a gente vai demorar uns 2 meses até entrar em um acordo pro nome da lojinha-café-espaço-de-convivência-livraria, mas aí você vai surgir com um nome incrível, e a gente vai rir pra sempre lembrando de como escolhemos aquilo. E a gente chama os amigos pra desenhar nas paredes, pra falar poesia, pra discutir política, pra tomar um café. E de vez em quando vem gente chata porque tem gente chata mesmo e tudo bem também, porque a gente tem a gente e tá tudo bem.

Eu passo todo dia ali na frente e por uns 3 minutos vem tudo isso, e eu planejo e sei as cores das paredes dos cartões das molduras e das lâmpadas. Eu sinto o cheiro da comida do bem que a gente vai fazer, das velas que a gente vai ter, eu me aperto com as contas que a gente vai pagar, eu sorrio de saber que mais um dia vai ser tudo igual e bom e igual. E se não for assim, também, a gente segue tendo a gente, e o sonho de a gente ser bem mais, e se não for, tudo bem também.