diário de leitura

leituras dos últimos tempos

O diário de leitura, que costumava ser mensal, sofreu umas mudanças por motivos de: NUM LEMBRO. Mentira, é que faz tanto tempo – e tanta coisa aconteceu nesse tempo – que parei pra escrever sobre as leituras que, aff, num vai dar pra ser no esquema de antes não. Mas como eu não quero deixar vocês órfãos (HAHAHA) e a minha ansiedade competitiva é grande demais para não estar cumprindo com afinco o meu desafio de 30 livros anuais no Goodreads, segue um overview das leituras dos últimos tempos aí:

leitura_ligaçõesLigações, de Rainbow Rowell

Rainbow, minha amada Rainbow – será que dá tempo de mudar de nome, gente? RAINBOW! – ataca novamente em mais um livro delicinha de ler, porém, mais fraquinho que os outros. Vamos deixar claro: eu sou apaixonada por essa mulher. Muito. Eu acho que ela tem um dom de tornar a leitura muito gostosa e seus personagens são imediatamente apaixonantes. Dessa vez, a gente conhece a Georgie, que é roteirista de séries.

Sim, eu falei roteirista de séries. Veja meu coração dando pulinhos de alegria!

O drama entra logo de cara, quando a gente vê que a Georgie e o Neal – o “cara perfeito” que também é seu marido – estão numa daquelas fases tensas do casamento. Ela prioriza o trabalho, ele não aguenta mais. Eles têm filhos e estão prestes a fazer a viagem de Natal pra casa dos pais dele – e ela tem que trabalhar. Daí, no meio da crise, a Georgie pega um telefone velho na casa da sua mãe e descobre que ele faz… Ligações para o passado! Para um passado em que ela e Neal tinham dado um tempo, pro começo do relacionamento, pra antes do casamento.

A história, que parece que não daria pra se relacionar e tals, fica bem, bem íntima: outro ponto super positivo da Rainbow é conseguir tirar questões bem universais – nesse caso, sobre relacionamentos, sobre o que é o amor, sobre dar prioridade pra você, e não pro boy – de histórias aparentemente bem particulares. Fica bacana! Porém, o drama se perde um pouco e a coisa toda começa a se arrastar num caminho muito novela da Globo. De qualquer maneira, vale a leitura até o fim.

Tem um parto de pugs em determinado momento. Queria finalizar com isso.

leitura_apanhadorO apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger

Antes que me apedrejem aqui, eu já tinha lido a versão em inglês deste livro, mas gente, isso foi num passado muito longínquo e obscuro em que metade das coisas que fazem sentido hoje nem sequer existiam. Então, numa tarde fria, com um bom lugar para ler um livro, acompanhei as aventuras de Holden de uma vez só – e, olha, que puta experiência, tentem fazer vocês também.

A história é a de um menino de 17 anos, Holden Caulfield, que foi reprovado em quase todas as matérias do seu internato de menino rico e é mandado pra casa antes dos outros alunos. Pra fingir que nada aconteceu, nosso amigo resolver dar um rolê pela cidade pra não levantar suspeitas, com um pouco de dinheiro na mão e um monte de minhoquinha na cabeça. O livro todo se passa no período de um final de semana, numa espécie de fluxo de consciência infinito, que mistura os acontecimentos reais, os pensamentos angustiantes e um pouco do passado e da vida dele até ali.

Eu nem sou tão a favor dessa coisa de ~contextualização~ assim, mas a gente fica ainda mais besta quando descobre que este é um livro lá dos anos 50 e bom, nos anos 50, minha gente, a gente não tinha ainda As vantagens de ser Invisível e nem todos esses maravilhoso YA à disposição. Nos anos 50, num tinha essa de “adolescência”, não tinha essa de busca existencial dos 17 anos, não tinha nada disso. Daí, quando você pensa na cabecinha do Holden e na sua, há uns anos, BAM. Muda tudo. É assustadoramente incrível!

Cara, que puta livro.

leitura_arrumaçãoA mágica da arrumação, de Marie Kondo

Ai que coisa marlinda. Japinha Marie Kondo sendo maravilhosa e destruindo toda a nossa bagunça acumuladora ocidental capitalista em 3, 2, 1. Apesar de achar um pouco too much – especificamente falando em tempos de mudança de cada e inúmeros site de decoração – e muita gente ter considerado o método KonMari bem radical, a gente tem que avançar na leitura pra perceber que tudo se resume a uma coisa simples: eu quero ter esse item? Querer da maneira mais íntima e sentimental do mundo, nesse caso, que é um absurdo tremendo se a gente fala em tempos de consumo maluco, desenfreado, de blogueiras de moda e de itens “tem que ter”, né? Mas é isso mesmo.

É um desses livros que você anota as dicas pra vida, do tipo: não é pra arrumar um pedacinho por dia – tire um dia e arrume TUDO; arrume por temas, e não por cômodos; nunca deixe sua mãe participar da arrumação com você; seja sincera: o que esse objeto te faz sentir? 

A gente tem (eu tenho, pelo menos, vocês têm também?) aquela mania estranha de guardar as coisas porque vaique. Vaique eu emagreço, vaique eu precise ir pra um lugar que precise dessa legging de oncinha com pintas neon, vaique um dia eu volte a usar esse material todo da 7ª série, vaique um dia eu volte com o ex e precise de todas as cartas de amor e fotos que tínhamos juntos. Gente: desapega. Guardar só gera menos espaço pra energia circular, e energia parada não significa nada de bom, nada de novo, nada de diferente – isso é Isa Kondo, não Marie Kondo 😉

Tia Marie vai na onda também do tal do armário cápsula, que virou moda e a gente tá aqui amando, e numa vibe mais geral, nessa percepção (tardia que só, né, gente?) que a gente não precisa de tanto pra ser feliz. Então bota abraçar o livro, dizer que o ama e partir pra arrumação e desapego, porque nada como a casa limpa e o coração tranquilo <3

leitura_cachorroTe vendo um cachorro, de Juan Pablo Villalobos

Juan Pablo Villalobos é um dos meus autores favoritos contemporâneos, e mescla duas coisas que meu coração revolucionário não pode resistir: histórias da América Latina/Central e um teco de realismo fantástico. Não dá, né? Eu sou fãzoca desde que comprei, obviamente pela capa – continue, mercado editorial, por favor, não pare! – o Festa no Covil. Depois veio o Se vivêssemos num lugar normal e, agora, Te vendo um cachorro. E eu não sei ainda qual meu favorito.

Já falei que não tô nem perto de fazer altas resenhas literárias por aqui, mas o sentimento geral de quando eu termino um livro do Villalobos é: eu preciso sair correndo e ir pro México. Eu imagino que todas as histórias tenham muito das lembranças de infância/vida adulta do autor, e ele consegue passar essa sensação de “este é um lugar completamente diferente de tudo o que você viu” misturada com aquela de “eu me lembro, mas não muito bem, posso ter inventado alguma coisa porque faz muito tempo” maravilhosamente. Ou seja: é tudo aquilo que eu queria ser como ~contadora de histórias~ e bom, ainda por cima, é mexicano. Já disse que meu coração não aguenta?

Bom, falando especificamente da história em si: os três livros formam uma trilogia, não necessariamente por histórias contínuas, mas por uma linearidade na voz dos narradores. O primeiro é Tochtli (leia fazendo o som, por favor), filho de um traficante de drogas, que ama hipopótamos-anões e palavras difíceis – não não, nem de longe é meu favorito, imaginem <3 -, depois vem Orestes, adolescente, que vive na base da disputa de quesadillas com os irmãos, e agora, Teo, um senhor de quase 80 anos completamente desbocado e artista. Tá vendo? Rola uma evolução.

O Teo é um desses senhores meio safados, meio tristes, que a gente adora e tem aquela pena ao mesmo tempo. Ele vive num prédio com um monte de outros aposentados, fãs de literatura que juram que ele próprio está escrevendo um romance. E daí, na narrativa meio amalucada e completamente cheia de sarcasmo, o autor consegue fazer, como faz também nos outros livros, a crítica social que pretende desde o começo ao seu país. Nada sutil, nada encoberto, mas lindo, lindo, lindo que só.

leitura_amigaA amiga genial, de Elena Ferrante

Não vai ter resenha cabeçuda nem enaltecendo a tal da “Ferrante Fever” que tentaram promover por aí – essa história de escritora misteriosa, que ninguém sabe quem é, que não fala com ninguém, mais me desmotiva do que anima pra procurar mais sobre dona Elena. E não precisa: o livro é sensacional, absolutamente sensacional, sem toda a parafernália literata.

A amiga genial é o primeiro da série chamada napolitana, que conta a história de duas amigas, Elena Greco (Lenu) e Rafaella Cerullo (Lila). Esse primeiro livro foca na infância delas. E daí? Bom, e daí que a escrita da sra. Ferrante é absolutamente envolvente: a ambientação, o bairro em que moram as duas garotas e suas famílias é, claramente, um dos personagens mais importantes da narrativa; ao mesmo tempo, o mergulho que a gente faz na cabeça das meninas é profundo e constrangedor, já que a autora não se esforça em nada para esconder aquela série de pensamentos horríveis, mesquinhos e às vezes até meio assustadores que a gente tem.

Numa história aparentemente simples, de competição entre amigas, das maluquices da adolescência, da evolução interior de cada uma, a gente consegue ter um panorama da Itália do pós-guerra e, ao mesmo tempo, uma reflexão sobre amizade e relacionamentos. Eu, particularmente, adoro a maneira como o bairro e as famílias são descritos: as fofocas, a construção dos mitos – o ogro comedor de criancinhas, a senhora maluca apaixonada – as safadezas das crianças, são muito próximas de todo mundo que teve uma família italiana dessas cheias de intrigas e um vocabulário pra lá de macarrônico.

É desses livros que mexem com aquelas coisas que a gente tem guardadas lá no fundo, mesmo que não se lembre (ou não queira admitir). Lindo, lindo.

***

Apesar de parecer bastante coisa, eu estou pra lá de atrasada no desafio de leitura do ano, e muito infeliz com a quantidade de livros/tempo de leitura que estou tendo. Me indiquem coisas bacanas? Prometo solenemente melhorar!

meus hábitos de leitura

Desde que eu comecei a compartilhar mais minhas leituras aqui, todo mundo me pergunta: Isa, como você faz pra ler tanto? Gente: eu não leio tanto assim. Acompanho toda essa galera que faz isso pra valer e, bom, outra escala de contagem. Mas eu leio bastante, sim. Primeiro porque sou apaixonada por livros e depois, bom… Porque trabalho com eles – isso é assunto pra outros post, ou pra uma mesa de bar.

Ler, pra mim, além de necessário, é uma maneira de me inspirar: pra escrever, pra desenhar (logo mais conto essa!), pra sair de casa e ver a vida diferente. É um respiro muito importante no meu dia a dia: a hora que eu desligo o computador, o celular, me desconecto e, finalmente, relaxo.

Só que, né, minha gente, em eras de Netflix, Jout Jout e Twitter, quem é que consegue arrumar tempo pra ler? Eu também sofria com isso, amigos. Até a hora que eu percebi que não estava mais lendo. Nada. Nada além do obrigatório. E isso começou a me consumir. Eu parei pra analisar a minha rotina que, basicamente, era: acordar – ir pro trabalho – voltar – trabalhar mais – ver séries – dormir. E com “trabalhar mais” entendam: arrumar a casa, frilar (êta vida!), escrever no blog, pesquisar assuntos de interesse, ficar no computador. E, em seguida, ver séries. Várias. Só depois dormir.

Tudo errado. Vocês sabem que eu amo séries e assisto muita coisa, mas comecei a entender que rolava uma necessidade louca de assistir tudo e logo. Segredinho: isso não existe. A gente fica viciado, mesmo, é uma outra maneira de “desligar” e “relaxar” e, afinal, como vamos interagir no Twitter se não tivermos uma sacada genial sobre o Frank Underwood? IMPERDOÁVEL, né? É… Tá vendo como tudo isso é uma necessidade falsa que a gente alimenta? Eu parei de ver séries? JAMÉ. Mas eu aprendi a dividir o tempo pra que nenhuma “etapa” do meu divertimento seja deixada de lado. A ver…

Eu já li muito mais: até o começo de 2014 eu morava em outra cidade, o que significava 5 horas diárias no trânsito, entre ir e voltar. 5 HORAS. Como eu não dirijo, as primeiras 2h30 eram dedicadas ao meu sono de beleza, já que eu dormia efetivamente umas 4 horas por noite. Mas as outras 2h30… Ah, era o paraíso! Eu falava no telefone (os outros passageiros me amavam muito), eu fazia ~lição de casa~, eu pensava muita, muita besteira e bom… Eu lia. Eu lia pra cacete. Eu lia um livro por semana, mesmo meu estômago se revirando no trajeto.

Depois de um tempo, claro, as coisas mudaram. Eu me mudei pra São Paulo, o que diminuiu o trajeto pra cerca de 1 hora – em que eu lia em pezinha no metrô com meu Kindle nas mãos <3 – e, mais recentemente… Eu estou morando na rua do meu trabalho (não me odeiem, eu continuo sendo legal, eu juro!). E a parte de todas as maravilhosidades que isso acarreta, é claro, tem um downside que é: meu deus, e agora, quando eu vou ler? Quando eu percebi que isso poderia ser prejudicado, comecei a me policiar com algumas coisas e estabelecer uma rotina de leitura, que compartilho aqui com você porque eu sou demais, vejam só:

Estabelecer um horário: parece chatinho, mas é muito, muito necessário. Eu chego cedo em casa, por volta das 19h, e determinei que, até às 22h é meu tempo de “fazer as coisas”. Sejam elas da casa ou pessoais, as TAREFAS vão até às 22h. Das 22h em diante é: tempo da leitura. Normalmente eu durmo à meia-noite (e também me obrigo a largar tudo no máximo a essa hora), às vezes antes. Não importa: ainda que sejam 15 minutos de leitura, é a hora dela. Só dela. Eu gosto de ler à noite porque me desacelera – tem uns estudos que dizem que TV, celular, computador à noite, tudo isso prejudica o sono, porque têm muitos estímulos. Tem que prefira ler de manhã, pra já começar o dia “funcionando”. Fica a seu critério, mas a questão é: separe um tempo de leitura e obedeça-o. Faz bem 🙂

Desligar todo o resto: não adiaaaaaaaaanta abrir o livro e o computador e o celular e o tablet e a televisão e o pager tudo ao mesmo tempo. A gente se distrai, tem-que compartilhar aquela informação maravilhosa com os amigue do Twitter, tem-que falar com a amiga que também tá lendo o livro, tem-que… Pare. Senão a gente não concentra. Pega o celular, tira a foto, põe no Instagram e JOGA O TROÇO LONGE.

O Kindle: acho que muita gente ainda tem a dúvida se os leitores digitais valem a pena. Pra mim: muito. Eu comprei o Kindle no finalzinho do ano passado. Demorou. “Eu amo cheiro de livro”, “Eu quero ter na minha estante”, “Eu não vou conseguir me adaptar”. Não fica tão bonito na foto, mesmo, mas olha: é mágico. A princípio, eu comprei o bichinho pra ser mais fácil de carregar pra lá e pra cá e, vejam: me mudei pra mesma rua do trabalho ¬¬ Ainda assim, a compra fez parte de uma nova postura de menos acúmulo de coisas, sejam elas materiais ou ~espirituais~ #isamística. E cara, como isso faz bem. Primeiro porque: eu compro mais livros, e essa parte se divide em duas: 1) não ocupam espaço MEUDEUSNÃOOCUPAMESPAÇO é tão lindo; 2) são mais baratos. Muito. Depois que eu efetivamente leio mais: não sei se é uma quebra no ~paradigma da leitura~ #isaacadêmica, mas a gente acaba perdendo a dimensão do objeto livro – o que liberta a gente dos momentinhos de preguiça “vou pegar meu celular aqui porque um livro agora vai me cansar…”. Eu tô sempre com o Kindle na bolsa. Sempre. Eu também gosto da ~interatividade~ #isasocialmedia que o bichinho proporciona: dar nota, compartilha leitura, GRIFAR E SALVAR PASSAGENS meu bom sem or, que maravilhosidade. Ler em inglês se tornou um novo hobby: eu, que preciso muito melhorar a língua, venho aprendendo muito. Fora que você compra o livro e BAM, ele está nas suas mãos. AGORA. Nesse momento. É mágico, recomendo – não tô ganhando nada pra falar do Kindle, mas amigues social media da marca, aceito pagamento em livros. 

Ler sobre ler: vocês acompanham blogs de leitores? Canais no youtube? Usam o Skoob ou o Goodreads? Olha, eu recomendo que passem a fazer algumas ou todas dessas coisas. A experiência da leitura, o ler “em conjunto”, motiva muito a gente, seja a escolher o novo livro que vai começar, seja a insistir em uma leitura que não está rolando, ou mesmo a escrever – lindeza! – sobre o que achou da trama.

Ler o que você gosta: parece bobo isso, mas a gente não percebe que, com tooooodas essas coisas que eu citei aqui em cima de compartilhamento, redes sociais, interatchividadjes e amor, a gente acaba lendo muito na vibe da galera. E, talvez, você não goste dos livros que a galera tá lendo. Então, quando a coisa tiver meio enguiçada, tenta lembrar daquele seu autor preferido ou do último livro que você devorou. Tem outro da série? Tem algum lançamento do cara? Nem em outra língua? Com as zoeiras do começo de abril, até agora eu não peguei nada pra ler, e tô sentindo falta. Recorri então à minha amadinha Rainbow Rowell, porque ela nunca me decepciona, e já sei que o final de semana vai ter companhia 🙂

Não se cobrar tanto: perceberam que eu tô com birrinha das redes sociais? Vejam bem, eu AMO as redes sociais, mas a gente se cobra demais por causa delas. COMO ASSIM você não postou uma foto de um local incrível/desconhecido/onde todo mundo estava no final de semana? COMO ASSIM você não está lendo o que todo mundo está? Relaxa. Tira dali as inspirações pro teu dia, mas vai ler o que você curte. Pegou uma sugestão e odiou o livro? Que pena. Você não tem que gostar porque todo mundo gostou. Eu não vejo problema nenhum em abandonar leituras que não me empolgam, ou não ler o que a galera está lendo. Vai do tempo de cada um, né?

Eu ainda divido meu tempo de leituras com as “teóricas”, já que tô sempre fazendo um curso novo ou tentando aprender alguma coisa diferente. Tento separar por dias, pra não misturar muito as coisas: então num dia que tenho curso, que as coisas estão frescas, leio aquele livro cabeçudo que me ajuda a ter ideias. Nos outros dias, leio algo mais divertido, menos pretensioso.

O que interessa é que a gente leia. Porque o mundo é mais bonito com livros, sejam eles o que forem – se alguém aqui vier com a discussão que livro juvenil não é literatura eu vou sentar a mão na cara, ok? ok. A gente se inspira, se diverte, chora, tem assunto pro bar, e escreve coisas bonitas como esse texto (uhum ¬¬) e coisas que ficam guardadas na gaveta até alguém dar um peteleco na nossa orelha e termos coragem de mostrar. Hmmmm vem coisa aí!?

Vocês leem como?

leituras de março

Cadê o Leituras de Fevereiro, né gente? Não tá sendo fácil, galera, vamos ter paciência com esse pequeno ser de 1,5m pelamordedeus, porque de cobranças já chega a vida, né?

A verdade é que eu não consegui terminar nenhum livro em fevereiro – todos os que comecei ainda estão pendentes. Quando março começou, ao invés de terminá-los, como eu devia, comecei outros, acho que pra tentar fugir da obrigação. Deu meio certo, já que eu li beeeem menos do que em janeiro mas, ainda assim, livros bacanas. Vamos a eles:

Sejamos todos feministas, de Chimamanda Ngozi Adichie: 

sejamosfeministaso ensaio é a adaptação do discurso feito pela autora no TEDx Euston, que tem mais de 1 milhão de visualizações e…. foi musicado por tia Beyoncé. Fim. Vou fazer a piadinha do flawless aqui por sim, eu posso, e é muita maravilhosidade pra uma coisa só. Eis que a Companhia das Letras sabiamente resolveu transformar a fala da Chimamanda em um livrinho curtinho e fantástico.

“O que significa ser feminista no século XXI? Por que o feminismo é essencial para libertar homens e mulheres?” Ela usa a própria experiência – sua criação na Nigéria, a diferença de tratamento entre homens e mulheres, mesmo quando já era uma escritora famosa – para pensarmos em quanto estamos distantes do ideal na questão de gênero.

O mais legal: a linguagem de palestra é a mais próxima possível do leitor, então é um bom jeito de mergulhar na literatura da Chimamanda que é absolutamente incrível e dolorida.

Podia passar sem: nada, é lindão, necessário e apaixonante. Só é uma porrada, claro, mas aí é esse mundo maravilhoso em que a gente vive, né.

Amy & Matthew, de Cammie McGovern:

ammymatthewuma decepção. Ai que tristeza. Fui toda empolgada pegar esse livro por motivos de: capa linda + título propositadamente trocado para ficar parecido com Eleanor & Park e, puuuuuts, galera, que tristeza. Achei a história mal construída e os personagens extremamente forçado. Amy & Matthew é um romance adolescente com um toque de sicklit, já que a personagem principal, a Amy, tem uma espécie de paralisia cerebral que deixa metade de seu corpo bem ruinzinha: com dificuldade de movimentos (ela caminha com ajuda de um andador), quase não fala – e se comunica através de um computador, tipo Stephen Hawkings, apesar de ser uma garota comum, engraçada e extremamente inteligente. Tá aí o problema: ela não convence. A ideia de construir uma Amy bacanérrima, inteligentíssima, engraçadona, cheia de características adolescentes – das brigas com a mãe ao desejo sexual por Matthew – é muito, muito forçada, e não convence. Na tentativa de mostrar que, apesar da condição dela, Amy é uma garota comum, ela vira só uma mistura de várias personalidades que oscilam muito e a deixam… Chata.

Basicamente, a história é a respeito da amizade entre ela e o Matthew, um fofo de garoto que tem um TOC brabo, desses de atrapalhar a vida. Ele se inscreve para ser uma espécie de “cuidador” dela – a mãe MALUCA oferece essa vaga pra galera – e aí vão se conhecendo, se envolvendo, passando pelos perrengues do último ano do colégio juntos, até a Amy entrar na faculdade. E aí tudo degringola bastante, num enredo muito mal elaborado desses que a gente sai achando que foi inspirado num dramalhão mexicano, sabe?

O mais legal: o Matthew é realmente um querido. As dificuldades que ele enfrenta com o TOC e com o “não saber o que fazer com a Amy” são muito mais reais e despertam muito mais a empatia do leitor. É mais fácil se apaixonar e ficar do lado dele – mesmo que ele também seja um enorme cestinho de clichês adolescentes, com direito a “cachos que caem sobre os olhos”.

Podia passar sem: a autora deveria ter abaixado um tom de tudo o que ela escreveu pra deixar a história mais verossímil e a personagem principal mais simpática. Na tentativa de passar a mensagem “todo mundo pode ter uma vida normal”, só criou uma Amy nem um pouco gostável.

Por lugares incríveis, de Jennifer Niven:

porlugaresincriveisque livro pesado. Já aviso que se você tiver problemas com depressão e suicídio, não leia. Se você tiver e quiser um livrinho bobinho que te acalente e mostre que “outras pessoas também passam por isso”, então leia. Mas é pesado. Bem pesado.

Ele conta a história do Theodore Finch e da Violet Markey que se encontram… No topo da torre do colégio, dispostos a pular. E bom, como a ideia não era um suicídio coletivo, eles desconversam e, a partir daí, começa a história. O Theodore pira na da Violet: ela não entende muito. Ele é conhecido como um garoto problema que só faz besteira. A vida dela era perfeita até o acidente de carro que sofreu junto com a irmã, que morreu na ocasião, e claro que a Violet se culpa um monte. E aí, numa aula de geografia, ele ~gentilmente~ faz dupla com ela num trabalho em que os dois têm que descobrir lugares bacanas no Estado em que moram.

Ai, gente, que coisa mais linda. O amo-mas-não-assumo dos dois é tão delicado e permeado de momentos sinceros e sentimentos tão reais que é quase palpável. Os problemas de cada um também. Mesmo que você não tenha passado por nada parecido – a perda de alguém querido, uma depressão forte – é de sentir na pele as aflições, as dúvidas, os medos de cada um. E a coisa da viagem para os lugares incríveis, cada um mais estranho e doidinho que o outro, é de encher o coração de alegria e amor <3

O mais legal: Theodore Finch é um desses personagens que a gente se apaixona, quer conhecer um igual, pensa no ator que vai interpretá-lo no cinema, fica reconhecendo na rua. Eta menino apaixonante – o que deixa tudo mais triste e difícil de engolir. A autora tem um texto bem bacana, desses que faz a história parecer real e fica ecoando na nossa cabeça quando a gente fecha o livro – quero que venham mais livros delas por aí!

Podia passar sem: já falei que o livro é pesado? Tenho medo que adolescentes desavisados peguem achando que é mais um romance YA, até pela capa – lindíssima e alegre, mas alegre até demais – e acabem tomando uma porrada mais forte do que possam aguentar em momentos de fraqueza. Talvez o posfácio, em que a autora explica a “inspiração” dos personagens e da narrativa, pudesse vir antes, ou na orelha/quarta capa, quase como um aviso.

E vocês, estão lendo o quê? Me sigam la no Goodreads pra compartilhar!

leituras de janeiro

Conforme prometido – vejam bem, eu estou efetivamente cumprindo uma das coisas que disse que faria por aqui! – um resuminho das minhas leituras do mês. Como eu estou de férias (xiu, não estraga!), consegui ler uma cacetada de livros que eu tinha por aqui parados, além de indicações de amigos e tudo o mais que acabou surgindo no meu Kindle através daquele inferninho de compras que é a Amazon. Também li algumas coisas pro trabalho, mas não vou fazer jabá por aqui – por enquanto. Então desconsiderem essa divergência entre o que eu vou postar aqui e o número de livros lidos no Goodreads, ok?

De todo jeito, achei janeiro um mês bem produtivo e com leituras que me encantaram bastante. Vamos a elas [com as marcações para o #DLdoTigre acima de cada livro]:

[recomendado por um amigo]

clarossinaisdeloucuraClaros sinais de loucura, de Karen Harrington:

a história é contada por Sarah, uma garota de onze/doze anos com uma vida bem maluca… A mãe tentou afogá-la e ao irmão quando eram bebês (e acabou conseguindo matar o irmão) e, desde então, vive presa em uma instituição psiquiátrica. Como o livro é contemporâneo, bom, a Sarah sabe de tudo: acompanhou a cobertura da mídia, sabe que todos seus colegas sabem de sua história, acostumou-se a mudar de cidade toda vez que o clima pesa demais para o lado dela e do pai, que, claro, virou alcoólatra com o trauma. A vida da Sarah não é tranquila: ela oscila entre a falta de ajuste típica da pré-adolescência, somando esse fator meio complicado da família e, puts, ela acha que vai ficar louca como a mãe. Daí o título.

Longe de ficar remoendo tudo naquele tom de autopiedade que a galera adora, a Sarah é uma garota engraçada, mega observadora e bastante autêntica, meio na linha do “já que é pra ser louca, então vou ser louca de verdade”, o que rende várias situações superlegais de reconhecimento de identidade. Todas as dúvidas e nóias da adolescência – primeiro beijo, ajuste nos grupos, escola – ganham um ponto de vista interessante e desprendido daquele julgamento que a gente costuma ter: a protagonista compartilha suas experiências – que ora são bem típicas da idade, tipo se apaixonar pelo carinha mais velho, ora são mega exigentes, como cuidar do pai bêbado – com sua amiga Planta e com as cartas que escreve para Atticus Finch, o protagonista de O sol é para todos (que entra na minha lista de leitura).

O mais legal: Sarah tem dois diários. O que ela escreve tudo o que ela realmente pensa e sente, assumindo que talvez esteja mesmo meio maluca, e revelando tudo o que se passa na sua vida; e o seu diário falso, em que escreve coisas banais do dia a dia, que esconde “mais ou menos”, que é pra quando ela morrer, acharem primeiro e pensarem “poxa, ela era normal”. Sarah <3

Podia passar sem: não curto muito o esquema final do Manoel Carlos, em que tudo da certo e o escritor finaliza com uma frase pra estampar capinhas de iPhone, mas como bem disse um amigo, “ela é tão novinha quando tudo acontece, ainda tem a vida inteira pela frente, vai se decepcionar bastante”. Heh.

[emprestado]

filomenafirmezaFilomena Firmeza, de Patrick Modiano:

o moço ganhou o prêmio Nobel de Literatura no ano passado e, bom… É isso. A Filomena Firmeza, além de ter esse nome sensacional – no original em francês é Catherine Certitude. Eu não sei se a tradução é fiel, mas achei o nome incrívelé uma dessas garotinhas que a gente se apaixona logo de cara. Aparentemente pode parecer uma história bobinha: ela faz aulas de balé e acompanha seu pai em seu trabalho meio complicado e no dia a dia de um pai solteiro, mostrando a cumplicidade comovente entre os dois. Aos poucos, você vai notando que através das memórias da Filomena – o livro é narrado por ela já adulta, rememorando os acontecimentos – rola uma reinterpretação, como se somente agora, quando a vida já mostrou o que tinha pra mostrar, ela entendesse o que rolou.

A mãe da Filomena era uma bailarina americana. O pai, um “comerciante” – um “faz tudo”, cheio de gambiarras – francês. Eles se separaram temporariamente, quando a mãe volta para os EUA e o pai fica, até arrumar seus negócios. Nesse tempo Filomena cresce com ele, ajudando e vendo as trapaças em que se mete. Ela começa a dançar como a mãe – de óculos, uma graça! 

O mais legal: você lê o livro de uma sentada só. Tudo é muito singelo e delicado, e o autor consegue passar a mesma sensação que deve ter pensado para os personagens: só no final você saca que, por trás do cotidiano aparentemente banal, do dia a dia construído, é tudo meio artificial e se escondem outras histórias que não podem ser tão legais assim. E as ilustrações do Sempé (do Le Petit Nicolas)!

Podia passar sem: nadinha. Amei!

[com a capa alaranjada]

pequenaabelhaPequena abelha, de Chris Cleave:

que coisa mais linda e mais triste do mundo. Chorei enquanto estava na praia, de pernas no sol e tomando água de coco – vejam o nível de sofrimento. Eu peguei esse livro sem saber nada sobre o enredo, e foi melhor assim. Dei de cara com uma história sobre refugiados nigerianos em Londres (socorro!), contada pela voz da Abelinha, uma personagem encantadora.

Basicamente, o livro se desenvolve através da voz de dois personagens: a Pequena Abelha, jovem nigeriana que fugiu da guerra em seu país para a Inglaterra, mas acaba indo para uma prisão de refugiados; e Sarah (outra¬¬), que Pequena Abelha conheceu por um dia em um incidente pra lá de confuso na Nigéria, há anos. As vidas das duas voltam a se cruzar da maneira mais dramática possível, e elas são obrigadas a enfrentarem o passado juntas, de novo. TADAM. Parece enredo de novela, mas gente, juro: é maravilhoso. Mesmo nas horas mais forçadinhas – tipo, CHORA LEITOR, vou matar uns 4 personagens aqui – é tudo escrito de uma maneira tão maravilhosa que você só quer continuar grifando e grifando e chorando de raiva por não ter escrito nada parecido.

O mais legal: a maneira com que a história é contada. Sério. Se você procurar outras resenhas por aí (tem várias mais completas que a minha, vai em frente!), vai ver várias frases de efeito falando de cicatrizes e destino e futuro e o terceiro mundo. Isso é lindo, mas entra um pouquinho na frase da capinha de iPhone que eu citei ali em cima. Tô falando de como o moço Cleave conseguiu captar algumas diferenças de linguagem que formam abismos imensos entre dois mundos.

Ás vezes eu penso que gostaria de ser uma moeda de uma libra esterlina em vez de uma menina africana. Todo mundo ficaria satisfeito ao me ver.

Todas as histórias das moças começavam com os-homens-vieram-e-eles. E todas terminavam com então-me-puseram-aqui-dentro.

Isto era sempre um problema pra mim quando estava aprendendo a falar a língua de vocês. Todas as palavras sabem se defender. No momento em que você vai agarrá-las, elas se dividem em dois significados diferentes de modo que a compreensão se fecha no vazio do ar. Admiro vocês. Vocês são iguais a feiticeiros, tornaram sua língua tão segura quanto seu dinheiro.

Abelinha passa o livro inteiro angustiada por uma busca de uma identidade que ela não consegue encontrar em lugar nenhum. Ela não é mais nigeriana, e também não é inglesa, por mais que se esforce.

Ah, pra quem ler: e o Batman <3 <3 <3

Podia passar sem: nas últimas páginas, a Sarah tem uma epifania e dá uma de Highlander pra vencer todos os inimigos da humanidade, de Gotham e da Abelinha. Fica-forçado, é claro. Acho que o próprio autor percebeu que o desfecho não era dos mais verossímeis e acabou correndo com um monte de acontecimento importante, tipo viagem-a-África-matança-suborno-aventuras-girafas-elefantes e final. Não prejudica o livro, não, a poesia continua lá, mas podia ter sido um pouco mais elaborado.

[recomendado por um amigo]

quartoQuarto, de Emma Donoghue:

outro narrador infantil aqui e veja, temos um padrão. É, eu não tenho jeito, adoro histórias contadas por crianças. Só que, no caso de Quarto, não tem nada de bonitinho na narrativa: Jack, um garoto de 5 anos, descreve como é seu dia a dia com a mãe. Tudo bem literal, mostrando como eles acordam, comem, brincam, leem, se exercitam, dormem… no Quarto, que é só o que eles têm. Jack e a mãe vivem em um cativeiro desde que ela foi raptada, há mais de 5 anos, pelo “velho Nick”, que vai visitá-la toda noite. Tenebroso.

É claro que não é tudo horrível, porque a gente fica apaixonada pela relação da mãe com o Jack. É linda a maneira que ela constrói o mundo para o filho, usando as poucas coisas que pode, e é lindo ver a criança incrível que o Jack se tornou apesar de todo o drama. O livro é dividido em duas partes: a agoniante vida dos dois dentro do Quarto e, depois (spoiler necessário), o comecinho da história deles no mundo real, no Lá Fora. É aí que acho que a autora consegue fugir do lugar comum “e tudo terminou bem”: ela desconstrói um pouco a coisa da mãe super heroína e do final feliz, e mostra, além do processo de adaptação de Jack, com milhões de coisas e pessoas novas, como as pessoas não estão preparadas pra ficarem sozinhas. Nunca.

O mais legal: sem dúvida, acompanhar as coisas mirabolantes que passam na cabeça de uma criança de 5 anos que, apesar de viver numa situação praticamente inconcebível, ainda é uma criança (fantástica <3) de 5 anos. Ah, e vai virar filme! Tem tudo pra ser bacana, viu!?

Podia passar sem: a coisa também se estende um pouco mais do que o necessário, e acaba desgastando bastante os dois personagens – afinal, são praticamente só os dois. O drama beira o brega em algumas partes – mas né, gente, olha esse tema ¬¬

E vocês, o que leram esse mês?

* Das quatro leituras do mês, três (apesar de eu só ter marcado duas, Pequena abelha também foi pescado em uma conversa nossa) foram indicações do queridíssimo Vitor – gente, vão ver as ilustras dele, pfv – que com certeza entendeu direitinho o meu gosto literário e predileção por narradores infantis/jovens. Gracias, Vi <3