crônicas de guardanapo

um texto bocó num dia cinzento

Eu recarrego no sol.

Não é uma coisa namastê-gratidão-plena não, eu nem sou uma pessoa totalmente “da praia” – apesar de amar praia e precisar do mar, são muitas as variáveis que me fazem efetivamente ir à praia. Mas a sensação que me dá é exatamente essa: que eu recarrego no sol. Que cada raiozinho entra dentro de mim me dando um super boost de energia e felicidade. Felicidade, sim.

Eu fico feliz no sol. Feliz de verdade, ainda que tudo esteja triste e meio ruim. Dias nublados me deixam honestamente deprê e eu fico me perguntando como faria se tivesse que ir morar num desses lugares maravilhosos, com divisão de renda justa, com índices de felicidade incríveis e sem sol. Nublados. Que escurem às 16h. É um problema real oficial pra mim.

O sol me dá vontade de me esticar e tomar sol. Sol me dá vontade de me arrumar e de sair. Sol me dá vontade de dançar na rua feito um musical bocó.

Eu gosto mesmo do sol, mesmo em dias frios ou dias bundas ou esses dias que parece que estão ali sem motivo, ninguém sabe porque. Se tem sol, neles, tá bom. Pelo menos tá sol.

Eu gosto bastante do sol e isso nem significa necessariamente que eu goste do calor (embora eu gostei bastante do calor também). Mas eu gosto de dias iluminados e de folhas verdes e de céu azul. E do sol. Que me recarrega e me deixa com vontade de dançar.

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Agora eu tenho um coleguinha que gosta tanto do sol quanto eu, no trabalho. Esse coala surfista. Ele tá em cima da sua prancha de sunguinha e felicidade, sabe. Se está sol, cara, ele dança. Pra frente e pra trás, pegando várias ondas. Se tá meia boca, ele só rebola um tiquinho. Len. Ta. Men. Te. E se fecha tudo e fica cinza-São-Paulo, menina, dá até pra ouvir seu grito de desespero, seu pedido de ajuda. Ele precisa de sol, e eu também.

 

prove que você não é um robô

Toda vez que, no blog de vocês, aparece esse método novo de provar que eu não sou um robô – ô gente, que maravilhoso se fosse, pensa bem? – eu fico morrendo de medo, olhando pros lados, que percebam que na verdade eu não sei bem clicar em todos (todos todos, mesmo?) os quadrados que contém uma placa de trânsito (placa só, ali, onde tem desenhinho, ou vale também o poste que segura a placa?), as imagens que trazem fachadas de loja (e se naquele prediozinho tiver uma galeria dessas internas, tipo do Centro de São Paulo, que eu não esteja vendo? E se nela tiver todas as lojas do mundo? E se ali eu encontrar o brechó preferido da vida?), as fotos que mostram comida (se a gente tem fome de tanto, de feijão, farinha e de amor, vale o quê nessas horas?).

Tenho que acertar todos, ou 75% já me faz passar? Eu preciso gabaritar? E se o mouse tremer? E se eu, na pressa, pular? É muita pressão pra definir o nível de atenção, de humanidade, de certeza nessas escolhas completamente subjetivas sobre questões importantes da existência humana que, eu tenho certeza, se eu fosse um robô, saberia exatamente simular a quantidade de acertos e erros de cada imagem clicada pra te enganar. Ô se saberia.

É muita angústia prum comentário que nem sei ao certo se queria tanto assim fazer.

Se pá as pessoas deveriam vir com essa opção atachada assim na cintura, puxando feito um carrinho de mão de bagagem apodrecida, arrependimento e confirmação de humanidade. Você abre um espacinho e, pimba: prove que você não é um robô. Escolha aqui as partes de coração que contém sentimentos, é só clicar. Tem uma margem de erro de 15%, eu deixo, dou chance, abro espaço, afasto os móveis pro lado, até aquela cômoda velha que foi da vovó. Só não volta atrás. Se clicou, tá clicado, se achou que era placa de trânsito então era, se não tinha fachada de loja então não tinha, se não era de comer, não come, não morde. Só não volta atrás e prova que tem algo que bate aí dentro que não é de corda, não liga na tomada e não acaba a energia. Pode olhar pros lados, respira fundo e vai, só me prova que é de verdade, não precisa gabaritar.

sobre o nada num domingo

“Não é tão fácil escrever sobre nada.” 

Fomos pro parque aqui do lado que nunca tínhamos ido antes, pra feira de alimentos orgânicos famosona. Um ônibus no domingo cedo, bem cedo, justo eu, que não saio em domingos. Eu nem me reconhecia. Aquele perto que não é perto suficiente para ir a pé, aquele horário em que repete-se que não está acordado nunca. Nem foi tão difícil assim. A autossabotagem me fez pensar imediatamente que eu só estava pensando isso porque é feriado – mas nem foi tão difícil assim. E valeu.

Um café da manhã delicioso, o tipo de brunch que eu queria tomar há tempos, sem frescuras, com gosto de café da manhã de hotel. Abelhas demais. Enquanto eu pensava “quero morar na roça e tomar da café da manhã com o sol atrapalhando a vista” e fugia das abelhas, tanta abelha, quanta abelha. Uma aflição recorrente e o sol batendo no olho de frente, ardido, refletindo geleia de morango. Tem abelha em fazenda? Deve ter. E deve ter mandinga pra repelir abelha também.

Enquanto isso, ela comprou um bangalô abandonado na praia porque se encantou com o lugar sem mesmo vê-lo direito atrás da tábua solta, o tipo de desprendimento que eu nunca teria. Ou teria?

É tudo tão bonito e agradável aqui em volta que eu não consigo ler, mesmo que a voz dela continue ecoando na minha cabeça, com variações que eu certamente invento de quando a ouço cantar “deve ser assim que ela fala ‘bangalô'”, mas daí eu lembro que ela não fala português. Eu não consigo ler porque fico olhando as árvores. Tem um coqueiro enorme na minha frente – ou qualquer árvore da família que nós, que não nos encantamos com árvores frequentemente, chamamos de coqueiro. Bem na minha frente, na linha que divide minhas pernas, na ponta do meu nariz. Dividindo ao meio todo o restante da paisagem numa linha reta, verde, num ceu azul que dói, sem nenhuma nuvem.

É a primeira vez em muito tempo que não me sinto completamente presa.

É a primeira vez em muito tempo que não me lembro do que vai acontecer em seguida, e não me importo.

Aqui não tem abelhas. E eu até consigo conviver decentemente com o galo gigante (e assustador. que medo ridículo esse que eu desenvolvi, de aves) que insiste em ficar do meu lado, balançando essa parte horrorosa e mole que têm os galos. Em silêncio Balançando. E um pato de perninhas achatadas e as crianças usando celular e tablets e mandando áudios pra outras crianças ignorando o pato o galo e eu.

Queria dizer que chamei o patto de Patti mas é mentira: era gordo e achatado e preto, e não esguio e acinzentado e sábio. Se fosse humano, seria humorista, o pato. Nem faz mais calor aqui, ainda que faça 30 graus em pleno outono nessa cidade.

Preciso ler o Murakami que ela recomenda: ele também fala de gatos, nesse, ela também fala de gatos, nesse, ela também se aprisiona em casa com gatos e séries policiais e café.

O galo voltou e eu nem ligo.

Eu queria ter um caderno bonito e uma caneta bonita e parecer muito importante ou alternativa escrevendo tudo isso. Mas eu escrevo no celular, tudo errado no celular, me apoiando com preguiça no autocorretor e na minha capacidade interpretativa. Devem achar que eu não estou vendo o pato, o galo, o coqueiro. Tem um velho vestindo roupas de linho lendo Lobato do meu lado. Linha L, se chama esse trecho. Hah.

Quero voltar todo domingo cedo – são só 5 minutos de ônibus, nem é tão ruim acordar tão cedo -, espantar a depressão do dia que só traz a ansiedade do que vai acontecer em seguida, mas sei que não vou. Olho pro coqueiro novamente e faço forca pra guardar esse momento pra sempre, apertando os olhos debilmente feito criança imaginando a máquina fotográfica. Ela perdeu a câmera na praia, num banco, antes do furacão. Mas sei que domingo que vem, imagina, acordar cedo e pegar o ônibus e esquecer do dia seguinte e escrever ao lado do galo sobre nada. Imagina.

patti

comfições

Digladiar, e não degladiar. (esse foi ontem)

Supérfluo, e não supérfulo. (esse foi na 8ª série, eu corrigi o professor Hermione style e aprendi por meio de humilhação pública).

Ainda penso quinze vezes antes de falar asteris(ti)co.

Ainda acredito que ele/a não fez por mal(u).

let the seasons begin

Quando eu acho que o dia vai ser particularmente bonito, é inevitável: eu ouço Beirut no caminho do trabalho, porque foi assim que o namorado me ensinou que os dias bonitos devem ser. E, bem, como meu “caminho do trabalho” não é uma rapidinha pela manhã, normalmente, dá pra ouvir um CD duas vezes.

Dai eu tava lá, na segunda rodada de Elephant Gun do dia, e senta o moço do meu lado. Engravatado, com cara de sono e óculos de sol. E brigando com a namorada pelo telefone. Logo de manhã, sabe? Numa manhã de sol de uma quinta-quase-sexta-feira. Ele desligou com um “se acalme e depois a gente conversa mais. Eu te amo”. E olhou pra mim.

Eu sorri pra ele, claro. Era uma manhã de sol e eu tava ouvindo Beirut e o dia prometia ser lindo. Ele sorriu de volta, meio que “ah, essas coisas acontecem, mas a gente vai fazer as pazes” – ou ao menos, foi isso que eu pensei que fosse acontecer. Porque, imediatamente, ele pegou os fones de ouvido, colocou no celular e escolheu Elephant Gun, do Beirut, pra ouvir.

Postado originalmente aqui, onde o número de likes de você só confirma a preguiça generalizada que a gente tem das palavras – ou “por que você ainda tem um blog?”

salamaleico

24 de julho de 2013, São Bernardo do Campo, 6h30.

Eu no ponto de ônibus, congelada, enrolada na echarpe – amigos, lembrem-me de nunca mais ficar sem cabelo nessa época, por favor. Chega uma velhinha italiana e começa, claro, a conversar comigo. Sobre deus, claro, porque é isso que acontece comigo.

Que deus é justo e perdoa, não pune; que ele aceita todas as pessoas, não importa a origem; que isso e aquilo. Como minha tolerância a senhorinhas italianas é altíssima, fui sorrindo e concordando, rezando pro tal do Jesus mandar logo o Sacomã chegar.

Até a hora que ela disse “Olha só: o papa tá aí, abençoando a gente. Esse é o momento para aceitar deus. Não precisa se sentir oprimida pelos seus pais, pela sua origem. Você está longe de lá! A igreja aceita todo mundo de braços abertos. Pode confiar!”

E eu entendi.

Quer dizer, estamos em 2013 e eu, minha echarpe e meu nariz ainda sofremos com tentativas de conversão por senhorinhas católicas.