biblioteca do autoconhecimento: por uma vida mais criativa

Não vamos aqui falar sobre a idade, né, migas. Não vamos. Vamos falar sobre como ficamos cada vez mais belas e conscientes de nossa existência. Isso sim. Mas cês não notaram que, nos últimos tempos, a gente tem ficado cada vez mais autoconsciente? Eu tô. Sobre o que eu coloco na minha vida, sim, mas sobre mim também.

Deve ser o tal do retorno de Saturno. Eita.

E eu ando lendo. Ando lendo coisas daquela linha tênue que o elitismo literário não permite que a gente chame de autoajuda, então chamaremos de autoconhecimento. Ói que bonito. Ando lendo e pensando e refletindo sobre as coisas daqui de dentro.

Acho que vocês perceberam que, esse ano, eu estou me dedicando muito a mim. E isso se refletiu bastante em coisas que eu estou fazendo, assim, literalmente: mão na massa, canetinha, lápis de cor, tesoura sem ponta, giz de cera, linhas, agulhas, queimadura de cola quente.

Esse ano eu parei de fazer “cursos para a carreira” (e sinto falta deles, quero deixar claro aqui) para fazer “cursos de zoeira”. Olha que bizarro, como a gente divide isso, né? Foi num desses workshops que uma das professoras me falou “você tá no ano sabático da autodescoberta”. Ô, se tô, profa. Não que eu tenha raspado a cabeça e ido pra Índia (embora haja vontade, viu). Mas eu resolvi apostar numa coisa mais minha, pura e simplesmente pra me divertir. Sem expectativas. Sem motivos. Só porque sim.

A gente se cobra um monte desse PRA QUÊ, né? Há pouco tempo pra tentar, pouco dinheiro pra gastar, pouca vida pra se viver, então pra quê? Pra quê tentar algo que não vai ter retorno nenhum, nada palpável, nada que dê pra colocar no Linkedin? PRA QUE sim, gente. Porque é divertido. Porque o processo é maravilhoso. Porque as descobertas são infinitas no caminho.

Daí que eu já falei que eu não sei fazer resenha de livro, então eu vou aqui encher esse textão de citação da Elizabeth Gilbert no livro-Bíblia dela que é o Grande Magia (vocês acharam que eu ia falar de Comer, Rezar e Amar, né, safadas?). Vai começar agora, vai vendo. Só que antes eu tenho que dizer pra vocês, serem humanos que estão aqui lindo esse textão não sei por qual motivo, que se vocês têm alguma pontinha de curiosidade aí dentro, porfa: leiam esse livro. Agora vai:

“Faça o que ela [a curiosidade] lhe pedir. É uma pista. Pode não parecer nada, mas é uma pista. Siga essa pista. Confie nela. Veja aonde a curiosidade o leva em seguida. Então siga a pista seguinte, e a seguinte, e a seguinte. Lembre-se, não precisa ser uma voz no deserto; é apenas uma inofensiva caça ao tesouro. Seguir essa caça ao tesouro da curiosidade pode levá-lo a lugares incríveis e inesperados. Talvez o leve até sua paixão, ainda que por um caminho estranho e impossível de rastrear, de becos escuros, cavernas subterrâneas e portas secretas. Ou talvez não o leve a lugar nenhum.
Você pode passar a vida inteira seguindo a curiosidade e não conseguir absolutamente nada com isso, exceto por uma coisa: você terá a satisfação de saber que passou toda sua existência dedicando-se a uma nobre virtude humana. E isso deve ser mais do que o bastante para lhe permitir dizer que levou uma vida rica e esplêndida.”

A gente é forçado, desde muito cedo, a fazer escolhas definitivas e seguir com elas pro resto da vida, né? Eu sempre ouvi: você escreve muito bem. Você deveria fazer algo sobre isso. Você se expressa muito bem, você deveria fazer algo sobre isso. Por que você não faz Direito? Ou Jornalismo? Ou Letras (ô engano minha gente). E, claro, como outro humaninho que precisa de confete qualquer, claro que eu levei isso adiante. Fiz tudo do jeitinho que deveria. Cheguei onde eu deveria sendo uma pessoa “que escreve bem”.

Veja bem: escrever é criativo. Me dá prazer. Me liberta. Me impede de morder o sofá. Mas eu sou muito, muito mais que escrever, e até agora, eu não me permiti ser mais que “a pessoa que escreve” porque, bom, eu sou a pessoa que escreve bem.

Eu amo criar.

Eu amo escrever, sim, e eu amo ler, e inventar/descobrir mundos, gente, coisas novas. Mas eu também amo desenhar. E rabiscar, e sentir a textura de canetinha, lápis – lápis 6B! – de papel Canson, eu amo misturar as cores. Eu também amo mexer com terra. Terra, mesmo: enfiar a mão na terra, colocar num vaso, tirar, ter que raspar a terra da unha. E claro, as plantinhas, e tudo que aparece com elas. Muitas, muitas, muitas plantinhas. Eu amo tudo o que tem a ver com beleza. Com encher os olhos de significado, com coisas bonitas, com criar coisas bonitas, seja de papel, de palavras, de tinta, no computador. Eu amo pintar – não criar um desenho, pintar mesmo: pegar uma porta inteira e pintar de branco, deixando tudo bonitão, harmônico, impecável. Eu sou absolutamente louca por decorar as coisas, seja a minha casa, que me dá um orgulho imenso, seja a mesa do trabalho, seja pensar em como a casa de um desconhecido ficaria mais bonita com um quadro. Amo decorar no macro e no micro, seja deixando uma página mais engraçadinha se eu desenhar umas florzinhas e usar duas cores de caneta.

Mas eu também amo organizar as coisas. Organizar num nível virginiano, de etiquetas, de sistemas, de catálogos. E eu absolutamente sou alucinada por planilhas. Planilhas e tabelas e organização em organogramas e cronogramas e listas. Eu sei lidar muito bem com dinheiro, produção, administração de coisas e coisos, eu me daria muito bem, eu não tenho a menor dúvida disso, cuidando de um negócio – não financeiramente bem, isso não dá pra saber, mas organizacionalmente bem. E, cara, eu sei programar. Minimamente, mas eu sei programar o suficiente pra me virar bem no mundo das internet. Eu adoraria saber programar mais e melhor. Eu adoraria fazer meus sites, blog, portfólio, eu tenho uma facilidade incrível de aprender a mexer em programas de layout, edição de fotos e imagens e afins.

E tudo bem.

Por favor, assistam esse vídeo comigo:

Se você não quis assistir (você não sabe o que tá perdendo), é um Ted Talk da Emilie Wapnick, coach “de carreira e de vida” e maravilhosa, que fala sobre multipotencialidade e como algumas pessoas (ainda bem) não têm uma vocação. Elas fazem mil coisas. Muitas coisas. Olha que coisa linda, isso, que todo mundo no Renascimento era mil coisas e era ser mil coisas era bom. Era reconhecido. Era possível. Não é mágico?

“Quase nunca é perda de tempo se dedicar a algo que lhe atraia, mesmo que depois você acabe desistindo. Talvez você aplique o que aprendeu numa área totalmente diferente, de uma forma que não poderia ter imaginado.”

Pra quê? Não importa. Pra se libertar, pra se expressar, pra não matar alguém, pra se esquecer do mundo. Ou porque sim. Porque é divertido. “O resultado não pode importar […] Porque é divertido, não é?” – e essa é a Liz Gilbert falando, não eu. E você precisa ser o melhor em tudo o que você faz? Deusmelivre, não. Você não precisa ser nem bom. Você precisa ser só curioso e apaixonado – pra sempre? Deusnão. Só enquanto durar a curiosidade e a paixão. E tudo bem.

Isso não é maravilhoso? Não é sobre isso tudo o que vale a pena, não é pra isso que a gente luta? Pra que a gente possa ser tudo aquilo o que a gente quiser, e tudo bem? Quem tá falando isso é a Emilie Wapnick, a mola da palestra, não sou eu não: “Abrace sua maneira de funcionar, seja ela como for. Se for um especialista convicto, então, seja como for, se especialize. É assim que dará o melhor de si. Mas, para os multipotenciais aqui presentes,inclusive os que perceberam que são assim durante os últimos 12 minutos digo a vocês: abracem suas múltiplas paixões. Sigam sua curiosidade, dentro daquela toca do coelho. Explorem suas interseções. Abraçar nossa forma de funcionar nos leva a ter uma vida mais feliz e autêntica.”

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Uma vida mais feliz e autêntica? É isso aí que a gente quer, num é? Eu acho. E pagar as contas. De resto, é isso aí. Então eu vou terminar esse desabafo improdutivo, porém criativo e cheio de referências, com mais uma citação mela-cueca da Liz Gilberth que poderia virar um pôster em nossas mesas de madeira crua apoiada em cavaletes coloridos em nossos home-offices criativos:

Acredito piamente que precisamos todos encontrar algo para fazer na vida que nos impeça de comer o sofá. Quer façamos disso uma profissão ou não, precisamos de uma atividade que vá além do trivial e que nos leve além dos papéis convencionais e limitadores que desempenhamos na sociedade (mãe, funcionário, vizinho, irmão, chefe etc.). Todos precisamos de algo que ajude a nos esquecermos de nós mesmos por um tempo […] Precisamos de algo que nos leve além de nós mesmos a ponto de nos fazer esquecer de comer, de fazer xixi, de parar a grama, de guardar rancor de inimigos, de ficar ruminando inseguranças. A oração pode fazer isso por nós, assim como o serviço comunitário, o sexo, exercícios físicos e até o abuso de substância químicas (embora com terríveis consequências). Mas a vida criativa também pode. Talvez a maior bênção da criatividade seja esta: ao absorver nossa atenção por um período curto e mágico, consegue nos aliviar temporariamente do terrível fardo de sermos quem somos. E o melhor de tudo é que, ao fim de sua aventura criativa, você terá um suvenir, algo que você fez, algo para lembrá-lo para sempre de seu encontro breve, porém transformador, com a inspiração.