corpo são, mente descaralhada

Como vocês sabe, há algum tempo eu venho frequentando a academia. Nesse período, já cometi algumas selfies de treino, já legendei imagens com “de hoje tá pago”, já até levei um famigerado squeeze com um famigerado whey protein (a versão vegana – deusa do céu, que coisa horrorosa). Logo eu, que me vangloriava de nunca ter feito tais coisas, fiz. Eu confesso, eu fiz. E digo mais: se você for semi-constantemente à academia, você também vai fazer. Vai por mim. É praticamente incontrolável.

Eu tenho vários problemas com a academia. O primeiro deles é que eu detesto ir à academia. Eu detesto todas as funções que envolvem ir à academia, e o problema é o trajeto todo em si, não necessariamente o fato de estar na academia, entende? Ir à academia significa que 1) eu vou acordar duas horas antes do necessário; 2) os gatos ainda estarão dormindo quando eu acordar então eu não vou acordar sendo afofada; 3) eu terei que acordar e viver um período sem tomar banho, que é uma das coisas que eu mais odeio no mundo; 4) eu terei que colocar uma roupa sem ter tomado banho; 5) uma roupa apertada; 6) eu terei que me comunicar minimamente com outros seres humanos (desgurpa mozão); 6) eu terei que comer alguma coisa antes de ter efetivamente acordado; 7) eu terei que dar bom dia às pessoas no elevador e na portaria do prédio e da academia antes de ter acordado.

Pronto, esse é meu primeiro problema com a academia, dividido em tópicos, para que não reste dúvida. É muito difícil chegar na academia, gente. Não é praticamente difícil, visto que ela está a dois quarteirões da minha casa, mas exige toda essa série de passos aí em cima. As 7 a.m. Deveria ser proibido. A partir do momento que eu estou na academia, os problemas deixam de envolver movimentos e existência no plano terreno e passam a ser a minha cabecinha.

Sim, a minha cabecinha.

Por quê, vocês perguntariam? Vou contar-lher-lhes.

Primeiro eu tô lá correndo na esteira. CORRENDO NA ESTEIRA. Tão lendo isso? Como eu tenho o fôlego de uma lontra com asma, eu não consigo correr necessariamente sem interrupções, então eu faço um ~treino em que corro uma quantidade de minutos X e ando uma outra quantidade de minutos Y (obviamente eu não vou contar quantos pra não ser julgada). Só que eu gosto de correr? Não, eu detesto correr. Eu gosto de 1) bater em pessoas com (às vezes) seu consentimento; 2) me agarrar numa barra de ferro e (tentar) ficar de ponta-cabeça. Eu não gosto de correr. Então eu tô correndo – no minuto em que eu devo correr – e pensando meu deus do céu eu esqueci de acentuar aquela palavra ontem no livro que eu tô fazendo no trabalho deve ter sido na página 163 eu lembro que tinha uma ilustração de um coentro do lado mas será que era 163 ou 173 será que eu esqueci de acentuar ou não tem mais acento eu deveria ter feito aquele curso da nova ortografia caralho Isadora que farsa que você é amanhã tem a moça do brigadeiro será que vai ter pipoca. Já no minuto que eu deveria estar ~descansando, eu estou pensando -58, -57, -56, -55 caralho um minuto passa muito rápido eu não vou aguentar mais correr -15, -14 por que eu tô pensando nisso eita porra tenho que começar a correr de novo socorro. Uma ótima maneira de desperdiçar meia hora da sua vida, eu diria.

Dai eu vou pros APARELHOS. O pessoal da malhação precisa muito de uma consultoria de marketing, né? Bom, eu tô lá nos aparelhos e eu não posso dizer que eu odeio estar nos aparelhos, porque pelo menos eu vejo uma função em estar nos aparelhos. Mínima, assim, mas se me dizem que se eu ficar 3 séries de 15 movimentos puxando aquele troço e eu vou ficar com as coxa da Gracyanne, quem sou eu pra desacreditar o moço? Uhum. Então eu me dirijo até o moço treinador professor coach e pergunto onde eu tenho que sentar e qual parte do meu corpo eu devo mexer, e eu faço.

Claro que na academia que eu vou, vocês precisam saber, não tem nenhum desses sistemas tecnológicos de treinos e acompanhamento, tá? É uma academia de bairro que não é a Smartfit, o treino está anotado na cabeça do moço, o moço se formou em Educação Física em 1954 e tá tudo bem. Eu acho. Então eu pergunto pro moço, o moço me indica, o moço regula as parada pra mim, viva o moço. Daí começa a cabecinha.

“Cadeira flexora extensora professora em 95º 50 kg 3 séries de 15 repetições”.

Eu sento no aparelho e 1) eu não caibo; 2) eu não sei arrumá-lo para que eu possa nele caber. Eu chamo o moço. Eu não arrisco simplesmente tentar arrumar o aparelho sozinha ou, nunca, subir no aparelho sozinha porque eu obviamente posso cair e morrer, cair e derrubar o aparelho (já aconteceu), subir e depois não conseguir mais sair (ainda acontece). Então eu chamo o moço e espero o moço e tenho que lidar com a frustração do moço sobre ter que ajudar essa pequena pessoa que não consegue subir sozinha no aparelho, e não uma panicat em busca de ajuda para adaptar seus glúteos avantajados ao aparelho. Paciência. O moço nunca chega, claro, o moço tá certamente ocupado com coisa mais importante que eu, eu aproveito pra postar uma selfie de treino afinal se não teve selfie não teve treino e fingir que eu sei fazer qualquer coisa naquele lugar do capeta.

Arruma, subo, sento, faço, 3 séries, 15 repetições, eita.

Na hora que eu decido sair, fazendo aquela cara de NOSSA QUE EXERCÍCIÃO DA PORRA QUE EU ACABEI DE FAZER VO SÓ SAIR DO APARELHO AGORA SUAVE e tô vendo todo um filme da minha vida na minha frente… O moço aparece. Me oferece ajuda. Me estende a mão. Eu conto dos meus problemas, ele dos seus. Nos beijamos e seguimos a vida que. Nessa hora, eu, no mínimo, enganchei alguma parte da roupa no aparelho e fez MUITO barulho. Nos momentos mais sérios, eu derrubei o troço que segura todos os pesos e eles estão caindo em câmera lenta, tipo aqueles vídeos de dominó enfileirado.

Tem também a parte que eu tô fazendo o exercício no aparelho em questão. Então digamos que eu esteja, vamos supor, dando uns coice naquele troço que a gente dá coice pra supostamente ficar com o bumbum na nuca. Você tá lá, chutando 35kg pra traz, focando nos seus glúteos, pensando que a cada repetição toda uma série de músculos estriados e nervos e tendões estão contribuindo para que você chegue mais perto do objetivo alcançado meu deus olha aquele catiorríneo ali na rua que fofíneo será que ele tem dono olha o dono veio atrás como é que ele deixa o catiorríneo solto vou sair daqui rapidão perguntar se ele não quer me dar o catiorríneo o Benja ficou bravo 3 meses com o Raposo ele queria assassinar o irmão mas dessa vez vai ser de boa um catiorríneo que fofo será que o catiorríneo destrói os móveis e as prantinha fora Temer catiorríneo era pra fazer quantas repetições mesmo?

Nunca dá certo. Se existe algum tipo de conexão entre o que eu penso e a parte do corpo que eu mexo, ou ainda, o lado do meu corpo que eu movimento, certamente eu me transformarei num centauro manquitola em breve.

Então, você me pergunta, eu vou à academia? Eu vou, migos. E por que será que vocês não estão vendo os efeitos que deveriam ser visíveis em minhas partes, caros leitores? Por isso. Obviamente isso me frustra imensamente já que eu estou gastando meu sono-tempo-dinheiro efetivamente indo à academia, porém dessa maneira supracitada, e eu passo as outras 2 horas depois da academia procurando “pq academia não funciona google pesquisar”, “maneiras de ficar grandona monstro sem precisar me mover” e “gracyanne me ajuda”.

Isso quando eu não somente durmo, que é o que acontece na maioria das vezes, já que eu vou um dia nessa joça e saio achando que já fiquei forte e queimei as calorias da semana inteira, não é mesmo?