do coração

jardim

Brinco-de-princesa. Sempre que encontro um por aí eu lembro. Brinco-de-princesa na princesa da vó, e quanto eu brincava com aquilo, aquelas flores que certamente foram criadas pra enfeitar. A vez que comprei um vaso pra colocar aqui em casa, não durou uma semana. Já veio meio sem vida, meio torto, mas a gente aprendeu a ter fé e a dar chances, a por mais bruta que seja, que pareça, a ver a beleza. Deu certo não. Não durou uma semana, e nunca nenhum vai ser tão bonito quanto os que subiam feito trepadeira no corredor da casa dela, juntavam abelhas e viraram enfeites, davam trabalho e alegria.

Já não tão bonito ou agradável de contar é o jeito com que minha avó matava caramujinhos: esmagava com a parte de trás da colher um a um, um gigante dos dedos grossos e enrugados e fortes como eu nunca vi, creck creck creck. Hoje eu me arrepio ao barulho enorme que fazia os corpinhos tão pequenos, hoje eu julgo e sinto pena, hoje eu acho um absurdo. Da maldade intrínseca dos meus 6, 8 anos, eu ria ria ria, mal podia esperar chover de novo pra uma nova leva de chacina. Creck creck creck. A mesma delicadeza de quem conhecia uma a uma as mudas, as plantas, as flores, de quem conversava com os passarinhos e cantava as canções do rádio de um passado que nunca pôde ser seu, as mesmas mãos fortes que faziam e criavam e montavam. O mesmo respeito pelo tempo da vida, do sol, da chuva, de cada folha que nascia e de cada uma que morria, a mesma ciência milenar do tempo das plantas que tratava com tanta displicência o pobrezinho do caramujo.

O dia que ela jogou um maracujá murcho murcho e dali nasceram tantos outros, a maior magia que a minha bruxa nariguda pessoal já tinha feito. As folhas da hortelã que ela cortava e esfregava no meu nariz – será que eu vou ser a bruxa de alguém?. A babosa que eu ajudava a raspar com cuidado tem espinho e virara unguento, a melhor palavra inventada que na verdade existia mesmo. As sementes de tudo o que dava e ela cuspia direto nos pedacinhos de terra que nem eram muitos, mas que já foram tantos, que tanto cresceu, que tanto deu. Que fim deu? Nunca vou me perdoar por não ter levado uma mudinha que fosse pra cultivar você pra sempre comigo. Comigo. Ninguém. Pode. Espada de São Jorge. Algo forte e cascudo e bruto, da terra. Tipo caramujo que a gente esmaga com a força da colher e os dedos grossos.

Eles comem as plantas, minhas plantas, meu jardim.

daqui

 

Inspirado pelo texto As plantas das nossas avós, da Yasmin Thayná, no Nexo.  

11 Comments

  • Mariana

    Que lindo, me lembrou minha tia e a flor de cera dela! Uma trepadeira enorme enfeitando a entrada da fazenda, que minha outra tia levou uma muda e vingou tão bonita quanto no meio do cinza de São Paulo. Queria ter um jardim, mas não sei se eu teria esse dedo verde… 🙁

    • Isadora

      obrigada, Mari! 🙂
      plantas são incríveis com essa capacidade de crescerem até nos lugares mais inóspitos, né? eu fico encantada! e ó, pra mim, foi muito treino até deixar o “jardim” aqui de casa realmente funcional, então começa com suculentazinhas e vai testando!

  • Mariana

    Que lindo, me lembrou minha tia e a flor de cera dela! Uma trepadeira enorme enfeitando a entrada da fazenda, que minha outra tia levou uma muda e vingou tão bonita quanto no meio do cinza de São Paulo. Queria ter um jardim, mas não sei se eu teria esse dedo verde…

  • Mia

    que coisa mais delicada 🙂 me lembrou um monte de coisa da infância. a gente cresce e nossas percepções mudam, mas tem certas coisas que sempre ficarão registradas na nossa memória poética.

  • Carol

    ain miga, que liindo <3 vc tem jeitinho puxado da vovó <3 coisa marlinda!!
    Aliás, por favor faça workshop de como cuidar das prantinha? Eu super iria <3 hahaha

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