Conhecendo Inhotim

Pra longe dos festivais de música e festas hipsters, talvez eu tenha ficado sabendo que Inhotim existia há uns 2 ou 3 anos só. Claro que, imediatamente, eu fiquei apaixonada. O treco é um parque gigantesco, com uma coleção botânica surreal e um acervo de arte contemporânea que é um dos mais relevantes do mundo. Ok, quero. Nunca levei muito a sério a visita ao instituto até as férias desse ano, que não ia ter muito tempo $$$ para viajar pra longe, e decidi fazer um passeio rápido até Minas Gerais.

A primeira coisa é que, ledo engano, não é uma viagem barata. Nós optamos por ficar em Belo Horizonte – e não Brumadinho ou alguma outra cidade mais próxima de Inhotim mesmo – para aproveitar e esticar outros rolês à noite. Com isso, pegamos o famoso ônibus da Saritur por dois dias, ida e volta: cerca de R$ 30 cada “perna”. Caro. O ingresso no parque é R$ 40 por cerumaninho e, claro, lá dentro, nada é barato: os carrinhos de transporte (já falo mais disso), os restaurantes, o café, é tudo bem salgado.

As vantagens de ter feito a viagem do jeito que fizemos: realmente pudemos aproveitar as noites de BH (e vai ter post sobre lá também!) e dormimos um monte no ônibus, que partia às 8h e voltava às 16h30 na sexta e 17h30 no domingo – a viagem é bem tranquila, o ônibus super confortável, foi tudo bem ótimo. Talvez uma opção seja ir até BH de avião, e passar essa noite intermediária, entre um dia de passeio e outro em Inhotim, em Brumadinho ou região. Assim economiza-se com o ônibus – e dá pra acordar um tantinho mais tarde também!

Dois dias em Inhotim: pra gente, foi perfeito. Eu ficaria um terceiro dia? Ficaria. Ficaria para voltar em algumas obras/jardins de que gostei muito, pra fazer um piquenique sem pressa, pra ler um livro em algum canto fresco e maravilhoso. Mas em dois dias, nós dois conseguimos visitar toda a extensão do instituto e ver todas as obras. Sim, tudo! Batemos muita perna? Batemos. Queimamos todo o pão de queijo ingerido? Queimamos. Quase morremos de insolação? Uma parte de mim se foi. Mas foi absolutamente maravilhoso. Ah, a gente fez tudo sem o bendito do carrinho, que é tipo aqueles de golfe: é engraçadinho, dá uma boa aliviada se você tem alguma dificuldade de locomoção (ou a famigerada preguiça), mas é caro e deixa os trajetos bem “limitados”. Somente com nosso mapinha e meu bom e velho tênis que talvez tenha falecido, deu. E foi absurdo.

Já falei que foi absurdo? Foi absurdo.

Absurdo. Quando você para pra pensar racionalmente, é um troço meio megalomaníaco. A área total é de 786,06 hectares, o que eu não faço ideia do que seja em metro, quilômetros, só sei que a cada dia eu pensei que não ia dar, mas deu. As obras são, na maioria, imensas, opulentas, completamente malucas e de deixar a gente sem ar. Mesmo. Se você procura a descrição “histórica” do projeto, vai ler várias palavras daquelas que a gente que é comunista comedor de criancinha tem medo, tipo ” empresário da área de mineração e siderurgia”, “valiosa coleção de arte modernista”, “acervo pessoal de arte contemporânea”. Se você desliga o botãozinho da República Bolivariana (e, confia, você vai desligar em 15 minutos), é arrebatado de uma maneira que mexe real oficial com a sua pessoinha.

Arte contemporânea é aquela loucura, né. Pra mim – e é tão pessoal isso que vocês podem simplesmente ignorar esse parágrafo se quiserem – é uma experiência que tem que bater. Teve coisa que não bateu. Que fica aquela sensação de “mas que merda essa pessoa tava fazendo, gente?”, só que a gente não pode falar isso em voz alta (os tios falavam, na moralzona assim!) porque alguém disse que aquilo era arte. Mas teve coisa que minhanossasenhora, bateu. Bateu fortão. Bateu e tá batendo até agora.

  1. Galeria Adriana Varejão:

    uma das galerias com a arquitetura mais bonita. Os temas me encantaram muito: azulejos, botânica, inspiração na mitologia grega… Linda do Rosário (2004) é uma das coisas mais assustadoras e macabras que eu já vi.

  2. Galeria True Rouge, Tunga:

    medo da cabecinha dessa pessoa, ainda bem que ela existiu. Eu, claro, não conhecia nada do Tunga, e gostei demais das duas galerias, mas True Rouge é uma dessas que a gente fica absolutamente espantado – fiquei tocadíssima com a descrição: “Os objetos que pendem do teto, unidos por estruturas interdependentes, aludem a um grande teatro de marionetes: uma escultura de manipulação, que, se valendo da gravidade, não chega, contanto, a tocar o chão.”

  3. Galeria Cosmococa, Hélio Oiticica:

    a dica é: fuja dos grupos de adolescentes em visitas escolares. Fuja. A galeria tem várias obras experimentais e multisensoriais, tipo uma piscina (pode mergulhar, sim!) beeeeem psicodélica, uma sala “feita de espuma”, e outra em que você pode ficar na brisa ouvindo música dos anos 70 relaxando em redes. Quero.

  4. Coleção Luiz Zerbini:

    pintura pode não parecer nada muito alternativo freak, mas as obras desse cara conseguiram me pegar: misturam muita bagunça, um pouco de falta de nexo e o quê? Plantinhas. Eu amei as cores.

  5. Exposição Chris Burden:

    não consegui encontrar a referência correta no site nem por mil golpinhos, midesgurpem. O Chris Burden tem duas obras gigantes no Inhotim – Beam Drop e Beehive Bunker – mas o que mais me interessou foi essa exposição de fotografias e explicações das suas intervenções e performances, sempre violentas e beeeem fortes.

  6. Folly, Valeska Soares:

    no meio da natureza deslumbrante, essa cabana super romântica. Você entra e participa (mesmo!) da dança dos bailarinos, através de espelhos e jogos de luz. Recomendo ir bem cedinho pra fugir dos outros visitantes e dançar sozinho comozão <3

  7. Narcissus Garden, Yayoi Kusama:

    sou completamente apaixonada por tudo o que essa mulher toca. De chorar. Muito.

  8. Sonic Pavilion, Doug Aitken: 

    o problema dessa galeria é que eu nunca mais vou conseguir dormir tão em paz e acordar tão bem na minha vida. Você aaaaaaanda anda anda até morrer e encontra um pavilhão de vidro circular, isolado de tudo. Lá dentro há um furo de 200  metros de profundidade no solo, com microfones que captam o som da Terra. Este som é transmitido em tempo real no interior do pavilhão, e você fica lá, vendo a natureza, de olho fechado, dormindo, ouvindo a terra respirar. Adeus.

  9. The Murder of Crows, Janet Cardiff & George Bures Miller:

    a gente entrou na galeria e o moço falou “ainda não está funcionando, mas pode esperar lá dentro”. Entramos, só eu e o boy, e ficamos sentados no meio de uma salona enorme, rodeada por caixas de som. Começamos a ouvir uns cochichos, umas tossidinhas, umas vozes ao fundo – pra mim, elas estavam vindo da sala ao lado. E daí começou: uma cantoria incrível (também conhecida como um canto polifônico medieval desgurpa), vinda daquelas caixas, com o detalhe de que cada uma delas era a gravação de uma voz diferente. Lá do meio, você ouvia tudo reverberando muito, de deixar arrepiado e, ao andar pelas caixas, podia prestar atenção em cada “pessoinha” específica. Incrível!

  10. Ttéia 1C, Lygia Pape:

    fios e feixes de luz, ilusão de ótica, arquitetura incrível. Foi a primeira obra que vimos e inaugurou com chave de ouro a visita.

Além das galerias, a natureza é realmente um clichezão da porra e uma obra de arte a parte. Mesmo. Além de cada caminhada permitir que você conheça milhares de prantinhas diferentes – ah, e tem esquilos E macaquinhos, eu quase morri! – o “acervo botânico” é muito bem cuidado, com indicações de cada espécie, além dos jardins temáticos maravilhosos, com focos diferentes: bromélias, palmeiras e o nosso preferido absoluto, um jardim inspirado nos jardins mexicanos, cheio de cactos e suculentas gigantes!

Algumas dicas finais que ficaram perdidas por aqui:

  1. O instituto sugere roteiros de visitação, divididos em três eixos: roxo, amarelo e laranja. Nós optamos por fazer o laranja no primeiro dia, pois parecia o mais extenso, e deixamos o roxo e amarelo para o segundo dia – apesar de maior e com mais atrações, era mais “condensado”.
  2. Restaurante Tamboril: falei lá em cima que tudo é bem caro, e é, mas o restaurante Tamboril é uma delícia! O esquema é buffet pelo salgaaaado preço de R$ 70 por pessoa, mas com opções deliciosas, milhares de alternativas pros vegetarianos, serviço ótimo, tudo impecável. Se tiver com uns golpinhos sobrando, recomendo!
  3. Peloamordadeusalevem água, protetor solar e confiram a previsão do tempo – não façam como a sua amiguinha que achou que o tempo estaria igual ao de São Paulo e levou apenas uma calça de veludo, ok?

A última recomendação é: vão. Vão de carrinho ou sem carrinho, de BH ou de Brumadinho, de calça de veludo ou shortinho da Anira, não importa: vão. Todo mundo deveria poder conhecer esse lugar <3