About Isadora Attab

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28 anos, SP. Gatos, plantas, decoração, DIY, gifs da Leslie Knope. Coisas bonitas e pipoca. Peixes-Sagitário-Leão. Escrevo porque sou preguiçosa demais pra desenhar.

Posts by Isadora Attab:

10 restaurantes vegetarianos/veganos para conhecer em São Paulo

Depois dos últimos posts sobre minha decisão (que tem quase um ano <3) de parar de comer carne, muita gente me falou pra comentar por aqui quais são os restaurante mais legais que eu costumo ir. Juntando a isso os comentários que tenho recebido nos stories do insta a cada grande EITA que registro, com os pratão de pedreiro que faço por aí, achei que meu enorme e tão fiel público merecia esse post, com um listão dos 10 restaurante vegetarianos/veganos que eu mais gosto nessa cidade maluca.

Fiz esse post antes do almoço. TOCO FOME. São eles:

1. Boteco do Gois

Boteco, mesmo. De piso frio branco e cadeira no meio da rua, o Boteco do Gois teve a sacada de perceber o público da Santa Cecília e colocou diversas opções vegetarianas no cardápio. Desde a feijoada – enorme e bem gostosa – até os famosos PFs, que incluem um bife de soja à parmegiana delicioso e o picadinho acebolado, tem também lanches tipo hambúrguer e a famosa coxinha de jaca. O melhor é que os pratos, como todo bom PF, são bem servidos e baratos: um prato sai por uns R$ 25, e você consegue dividir em dois.

// Rua das Palmeiras, 130 | @

2. Subte Vegan 

A surpresa mais legal das minhas férias foi o Subte, veganíssimo do Centro, do jeito que eu tanto amo. Fica na galeria ao lado da Olido – cheia de lojas de LPs incríveis, dá pra passar a tarde por lá. O esquema de tudo dia é: um PF, com um fixo de bife de seitan, arroz, feijão e salada (R$ 15), e o prato do dia, com uma opção especial: já comi a versão mexicana, a árabe, a macarronada com almôndegas, tudo delicioso (R$ 17). Lá eles têm também sobremesas, sucos, e o meu preferidinho kombucha.

// Rua Dom José de Barros, 301, mezanino | @

SUBTE VEGAN: arroz carreteiro, tofu defumado,
linguiça calabresa vegetal, legumes e feijão carioca (R$ 17)

3. Panda Vegano

Escondidinho no primeiro andar de um prédio atrás da prefeitura, o Panda Vegano é um restaurante vegano com inspiração oriental. Com um buffet enorme, existem duas opções durante a semana: por quilo ou buffet à vontade. No sábado, somente a opção à vontade, por R$ 28. Imagina a minha escolha? Risos. São em média 15 opções de saladas e mais 15 de pratos quentes, que misturam as receitas orientais com as tipicamente brasileiras. A escolha do cardápio respeita a sazonalidade dos ingredientes, e eles também servem sucos e sobremesas – mas o chazinho de jasmin, o café, e um sorvete soft, de soja, são cortesia. Pra sair rolando.

// Rua Libero Badaró, 137 | @

4. Nutrisom

O Nutrisom é um ovolacto eleito sei lá quantas mil vezes o melhor restaurante vegetariano da cidade. Não é por menos: no esquema de buffet à vontade, a quantidade de opções oferecidas até assusta. São duas mesas imensas com pratos quentes e frios que chamam a atenção por serem mais sofisticadinhos: terrines, queijos mais finos, dadinho de tapioca e por aí vai. E repete e repete e repete. Ah sim: também há opções de sobremesas (a maioria leva leite e ovos), e sorvetes, tudo incluso. O valor é R$ 30,00 durante a semana e R$ 39,00 no domingo – não abre de sábado!

// Viaduto Nove de Julho, 160, sobreloja | @

5. Barão Natural

Sou suspeita pra falar do Barão porque almoço nele, no mínimo, umas 3 vezes na semana: duas unidades são na rua de casa. Foi por causa desse restaurante que pude perceber a enorme variedade de alimentos que são consumidos na dieta vegana, além das combinações super gostosas (e cheias de proteínas, apenas parem!). Hoje a rede tem várias unidades, que vão do tradicional quilão (R$ 11,90 às segundas, R$ 15,90 terça à sexta, R$ 18,90 aos sábados), a pratos prontos em outras unidades. Agora, na unidade #B1, tem rodízio de pizza a R$ 29,90 (vou sempre nas opções de legumes e vegetais, os queijos veganos ainda não me ganharam), e na #B8 também tem esfiha.

// Várias unidades | @

6. Pop Vegan Food

Dos antigos sócios do Barão Natural, o Pop Vegan leva a mesma proposta de oferecer comida vegana variada e acessível para a região mais badaladinha da r. Augusta e afins. Mesmo esquema de buffet com preço fechado, mas ainda mais em conta: R$ 10 às segundas, R$ 15 de terça à sexta e R$ 18 aos sábados. Também oferecem pizza, com delivery. O sucesso está sendo tão grande que a galera faz fila na porta, mas os funcionários são extremamente atenciosos e organizados, ninguém espera muito tempo pra comer.

// Rua Fernando de Albuquerque, 144 | @

7. Biozone 

Restaurante que além de 100% vegano é orgânico e glúten free, divide o espaço com um estúdio de tatuagem e é também 100% hippie tilelê good vibes – eu amo. A decoração é toda psicodélica e beeem zen, com um corredor e quintalzinho pra comer tranquilo, conversando com os atendentes, aproveitando a música. Seguindo a linha do slow food, servem um prato do dia super bem servido e nutritivo, além de delicioso, a R$ 28, além de sopas, quiches, quibes, sanduíches e outros lanchinhos.

// Rua Fradique Coutinho, 1225 | @

BIOZONE: arroz cateto com tomatinho e manjericão; creme de abóbora com feijão fradinho e verdura; bardana + cenoura + brócolis com gengibre; couve crispies crocantes; bolinho com bionese verde; saladinha primavera

8. Gran Vegano 

Eu visitei o Gran Vegano, na Moóca, quando o lugar era somente uma lanchonete – e, ainda assim, a experiência foi bem boa! Os lanches eram super gostosos e relativamente baratos, e o nuggets de soja, meu deus, que sonho. Como eu estava (e ainda estou!) com desejo de hot dog, escolhi o sanduíche de linguiça, cebola, pimentão, maionese e catupiry (tudo vegano), e só sinto saudades. O lugar também é uma gracinha! A novidade é que há algum tempo o restaurante também serve almoço no esquema por quilo, e tudo parece continuar sendo bem delicioso, preciso voltar!

// Rua do Oratório, 29 | @

9. Shuffle Bar 

O Shuffle é um desses lugares que eu não sei porque não frequento mais: além de ficar na rua atrás de casa, tem tanta coisa gostosa e um ambiente tão delicinha, que só a preguiça explica. O esquema é de bar, mas as comidinhas são sempre tão gostosas que dá pra chegar cedo e ficar só petiscando se quiser. São petiscos e lanches, um ou dois por noite, com o cardápio avisado nas redes sociais. Tenha paciência se a comida demorar um pouco pra chegar: é tudo realmente feito na hora pelos funcionários super bacanas. Os drinks valem muito, muito a pena também. Pros xóvens, sempre tem alguém tocando e festinhas animadas no subsolo.

// Rua Ana Cintra, 132 | @

10. Raw Burger N Bar Veggie

Tem muita gente que ainda acha que ser vegetariano/vegano implica necessariamente em “ser saudável”, então tome um lanchão e muita fritura e meus 5 kg a mais desde que parei de comer carne pra provar que não, migos. A Raw, que tem uma versão carnista na Vila Madalena, é uma hamburgueria apenas vegetariana que, além dos hambúrgueres (risos), tem as melhores entradinhas que eu já comi na vida. Atenção para as abobrinhas empanadas no panko e na cerveja, pros sticks de tapioca e pros bolinhos de espinafre, ricota e chia. Socorro, que vontade. Das três vezes que fui, só consegui não morrer de comer entradas na última, e pude experimentar o Mushies and Buschies (pão de cerveja stout, hambúrguer de cogumelos e batata, cogumelos grelhados, mussarela, broto de alfafa e maionese de limão siciliano). Delicioso! Os hambúrgueres giram em torno de R$ 25-30, e as entradas, R$ 15. Quero. Vamo.

// Rua Augusta, 2052 | @

RAW BURGER AND BAR VEGGIE: Mushies and Buschies, com pão de cerveja stout, hamburguer de cogumelos e batata, cogumelos grelhados, mussarela, broto de alfafa e maionese de limão siciliano

 

Claro que, além das opções específicas, é possível comer em milhares de outros lugares em São Paulo sem precisar ingerir bichinhos. Me contem se gostaram desse tipo de post e eu organizo mais uma listona com as melhores opções vegetarianas e veganas em restaurantes “comuns” da cidade!

conheça seu bairro – passeio por Campos Elíseos/SP

É bacana falar que a gente mora na Santa Cecília, aqui em São Paulo. É um desses bairros hipsters e descolados em que a famosa gentrificação chegou chegando, esparramando bares, cafés e lojinhas de decoração industrial, gente bonita e interessada em ocupar a cidade, criando listas de lugares que a gente tem que conhecer.

Isso é um mea culpa, tá? Me encaixo em todos os pré-requisitos, e amo o bairro, cada uma de suas lojinhas hipsters, cada canto novo que eu descubro e que abre e fecha com a velocidade da luz. Mas, a real mesmo, é que eu moro nos Campos Elíseos. O que significa que eu moro do lado de lá do Minhocão, o que significa também que eu moro no Centro real oficial, Centro oldschool, Centro que a galera descolada não chega porque é perigoso.

Pra quem não manja de São Paulo: aqui estão as estações mais populares e cheias da cidade – tipo a Luz e a Júlio Prestes e o Terminal Princesa Isabel e o Terminal Amaral Gurgel – e a tão famosa e perigosa (?) Cracolândia. Pra além da opinião política que cerca o tema, basta dizer que existe uma alta concentração de moradores de rua. O que não significa dizer que é perigoso. MAS EU VOU SEGURAR O TEXTÃO.

Vou dizer apenas que a gente tem que dar valor ao lugar que a gente mora. E aproveitar e conhecer os cantos – novos ou antigos, os antigos são incríveis! – que existem escondidos na nossa rua, no nosso bairro, na nossa região. Ainda mais em uma cidade tão gigante e diversa quanto São Paulo, é um absurdo a gente não andar – andar mesmo, hein, a pé, bater perna, parar pra olhar – mais ao nosso redor. E foi isso que a gente decidiu fazer nesse feriado ensolarado que passou.

Passeio por Campos Elíseos

A primeira parada foi um brunch no Menor, restaurante recém-inaugurado e gracinha na R. Conselheiro Nébias, 1278. Uma portica de nada, uma comida deliciosa, preços justíssimos e atendimento delícia, com mesas na calçada – socorro, o sol! – e ingredientes selecionados, zero ostentação. O cardápio sai no instagram e tem opção vegetariana todos os dias. Forte candidato a virar nossa passada obrigatória em todos os finais de semana.

 

Saímos de lá para continuar o passeio pela rua Conselheiro Nébias até a Galeria Crua, sem lembrar que era feriado, risos nervosos de quem andou no sol do meio dia risos. De qualquer maneira, quando aberta, a Crua é uma galeria de arte, espaço cultural e ateliê com um monte de exposições e ideias bacanas, e dá pra acompanhar a programação online.

Depois disso caminhamos até um lugar que eu estou curiosíssima pra conhecer quando estiver realmente aberto: por enquanto, o café funciona, mas as betoneiras ainda estão trabalhando no jardim. É a Casa Don’Anna, na esquina da Rua Guaianases com a Alameda Nothmann, que vai realizar eventos além de funcionar como coworking, e abrigar um jardim de orquídeas – que está sendo montado e parece um projeto absurdamente lindo! Assim que acabar a bagunça de reforma eu visito novamente, e volto com fotos.

 

Campos Elíseos foi o primeiro bairro planejado de São Paulo, onde moravam os barões do café – daí o nome das ruas e por isso os inúmeros casarões, restaurados ou não, que se espalham pela região. Hoje, o bairro foi tomado pelo marabrijoso capitalismo uma certa empresa de seguros comprou a maior parte dos imóveis, e faz um trabalho de restauro em alguns e daquela coisa horrorosa e espelhada e azul e moderna em outros. Das benesses da modernidade, podemos listar o Teatro e o Centro Cultural Porto Seguro, e também o Sesc Bom Retiro, que dividem espaço com a Estação da Luz – e a belíssima Sala São Paulo – e a Estação Júlio Prestes.

Pra cá também ficam lugares deliciosos e mais tradicionais e diferentões, como o Said Ali (Al. Barão de Limeira, 608) – o antigo Vovô Ali – restaurante de delícias árabes de uma família tradicional libanesa, que hoje vem abrindo várias unidades pela cidade; a unidade inicial do Riconcito Peruano (R. Aurora, 451), outro império imigrante que se estabeleceu em São Paulo, e o Biyou’ Z (Al. Barão de Limeira, 19), recomendadíssimo por mim, de comida típica africana. Na Rua Guaianazes há uma infinidade de restaurantes da culinária latina – além de peruanos, com uma unidade do Riconcito, boliviana, colombiana e venezuelana – que vale a pena ser explorada. E dos cafés, o descoladinho e especializado Bio Barista (R. Helvétia, 640) e o Armazém do Campo (Al. Eduardo Prado, 499), loja com produtos vindos de assentamentos da Reforma Agrária, de pequenos produtores e de fabricação orgânica e agroecológica.

São Paulo. Ê, São Paulo <3

Bora brincar de conhecer nosso próprio bairro, tipo 4ª série, quando a gente dava a volta no quarteirão? Vou ficar esperando vocês me contarem o que encontraram por aí! Mesmo, hein?

era a roupa certa para um dia difícil

Eu achava que os corações partidos estavam seguros lá com os 20 e pouquinhos. Achava que depois a gente aprendia a lidar de uma maneira diferente. Toda vez que me disseram “eu sei que dói, mas passa”, confiei como que só tem aquilo pra confiar – e passou. Achei que nunca voltaria. Achava que todas aquelas fases – a que você fica com raiva e quer falar, a que você está destruída e quer só chorar, a que você ainda não acredita e fica completamente anestesiada – estavam diretamente ligadas aos que os 20 e pouquinhos não traziam, à falta de segurança, ao descobrimento inteiro, à certeza de que sabemos de tudo.

Toda vez que eu fico triste, eu descubro um livro novo. Eu não sei se eu descubro este livro porque eu estou triste ou se eu fico triste e então descubro magicamente um livro que me faz querer morar lá dentro. Mas quando eu não tenho muita força pra colher os caquinhos eu deixo eles esparramados mesmo, e me encontro inteira lendo sem parar, como se a sequência das frases e a coerência da história fosse me reconstruindo. Normalmente esse livro é um desses meio mágicos, que lembram pra gente que a gente pode fugir pra lugares mais incríveis, onde nada faz sentido e a gente pode viver uma outra vida. Onde os gatos não fazem mais do que a sua obrigação de nos levar por caminhos desconhecidos e lagos são oceanos e as pessoas sabem todos os mistérios do Universo, como que o dinheiro destrói todos os nossos sentimentos e que a gente precisa aprender a confiar uns nos outros.

O pavor ainda não tinha abandonado minha alma. Mas havia uma gatinha no meu travesseiro e ela ronronava em meu rosto e vibrava suavemente a cada ronronar, e logo eu adormeci.

planos para o feriado

Ler. Ou dormir lendo um livro. Fazer uma lista com tudo o que tem que ser arrumado na casa. Riscar um ou dois itens. Escrever alguma coisa boba dessas que vêm de dentro. Tirar fotos bonitas. Tomar um banho demorado que acaricie todas as partes: máscara no cabelo, máscara no rosto, máscara nas pernas. Cantar bem alto no chuveiro. Fazer as unhas e não limpar os cantinhos. Assistir uma série boba. Assistir de novo aquela série bacana. Sair. Andar. Conhecer um lugar novo. Tirar fotos novas. Sorrindo. Se arrumar para sair e tirar fotos novas sorrindo. Se esforçar para gravar cada segundo do tempo bom que passar, pra quando as coisas estiverem meio ruins você ter pra onde voltar. Repetir que vai passar. Vai passar.

Amanhã você não vai nem lembrar.

não compre, adote

Essa é uma tentativa de não fazer textão no Facebook.

Eu sempre tento manter o blog um espaço mais íntimo e menos polêmico, simplesmente porque já fico extremamente exausta com todas as discussões que passamos – ativamente ou não – nas redes sociais. Mas isso não é justo. Isso não é justo comigo, já que alguns temas desses que exaltam os ânimos me são muito caros e importantes, e nem com “meus leitores”, se é que existe isso, já que eu acredito que a gente pode (e deve) tentar mudar o mundo assim, pasito pasito, suave suavesito.

Posto isso, eu vim aqui falar sobre o comércio de animais domésticos. Na semana passada, a Luisa Mell – que, para quem não conhece, é hoje uma super ativista dos direitos animais e presidente de um instituto que leva seu nome – resgatou 135 cachorrinhos de um canil depois de receber denúncias de maus tratos. Ela fez uma cobertura em tempo real no seu instagram, mas é possível ver alguns vídeos e a repercussão na página dela – são cenas bem fortes. E por ela ser uma figura pública já bem famosa, pelos vídeos serem bem fortes e compartilhados à exaustão por blogueiros e outros influencers, a coisa repercutiu bastante.

Um resumo pra quem não vai ver as imagens, que acredito que seja a maioria de vocês aqui: são 135 animais em uma casa. A começar pelo espaço que eles deveriam ter, e não têm, a coisa já está errada. A grande maioria desses cachorros estava coberta por fezes, muitos deles jamais haviam tomado um banho na vida, o pelo dava nós enormes, crostas de sujeira, doenças de pele horríveis. Alguns deles estavam com doenças mais sérias, vários deles já haviam morrido, e foram descartados em sacos de lixo na lixeira no fundo da casa. Tudo sujo, contaminado, tudo horrível de se ver, filhotes empilhados em gaiolas minúsculas, adultos disputando espaço, com medo, assustadíssimos. As denúncias, que eram de agressão, porrada mesmo, pareciam muito possíveis, já que haviam vários paus e cabos de vassoura espalhados pela casa, e vários dos animais mostravam machucados, deslocamentos, hematomas. Pois é.

Tudo muito horrível, né? Que pessoas cruéis, né? Então, esse não é um canil “de fundo de quintal”. Esse é um canil certificado, com todas as fiscalizações possíveis, que vendia filhotes de raças como pugs, yorkies e lhasas pra gente com bastante dinheiro e conhecimento. O que leva a gente a pensar (ou ao menos, deveria): o problema não é este canil, pontualmente: são todos. O problema é o comércio de animais.

O problema é precificar, cruzar, criar e vender animais por simples capricho nosso. Quando alguém compra um cachorro é porque está querendo “aquela raça”, seja ela da moda (vejam, estamos sujeitando vidas a algo volátil e passageiro, ou seja, uma TENDÊNCIA, certo?), seja por ela ser “pequena”, seja porque ela é conhecida como “boa companhia para crianças”. Estamos submetendo a reprodução de seres vivos a nossa vontade, estamos geneticamente tratando os animais para que eles atendam às nossas “necessidades”, aos nossos desejos.

Existem canis que tratam os animais com cuidado e até com carinho? Com toda certeza. Esse, novamente, não é o problema. Claramente a dona desse canil é uma pessoa sem nenhum tipo de compaixão ou discernimento sobre a vida? Sim. Mas esse não é um problema pontual de uma pessoa sem coração. É a mesma coisa de falar “que homem doente” para casos de estupro. Não é um homem: é toda uma sociedade patriarcal e doente, que facilita, motiva e induz a esse tipo de comportamento. E a gente, comprando bicho, incentiva isso. A partir do momento em que a primeira pessoa compra um golden retriever maravilhoso, simpático, desses de propaganda de televisão, que corre com crianças e dorme no sofá, estamos motivando que esse comércio continue existindo.

Independentemente de como é o canil do qual você comprou ou pretende comprar seu filhotinho lindo igual ao da blogueira famosa, vamos lembrar que estamos falando aqui de comercialização e, como todo tipo de comercialização nos dias de hoje, apliquemos a lógica geral do capitalismo: produção em larga escala, de acordo com a demanda. Só que a gente não está falando de um smartphone, de uma caneta, de uma brusinha. A gente está falando de reprodução em larga escala. O que quer dizer que as melhores fêmeas são selecionadas, os melhores machos são selecionados – de acordo com essas características tão imprescindíveis que vocês precisam que seus cachorrinhos tenham – e eles são forçados a se reproduzir. Forçados a copular. A ter o maior número de gestações possíveis. O maior número de filhotes, saudáveis e perfeitos, é claro, possíveis.

Dá pra perceber o erro? Então além de a gente estar forçando essa reprodução descontrolada, estamos também selecionando geneticamente esses filhotes. Ou seja: além de muitas das matrizes – as fêmeas reprodutoras – morrerem precocemente por conta de desgaste (sim sim, de usar seu corpo até não dar mais), outras adoecem, rejeitam suas crias, têm milhares de problemas por conta de stress. Ah sim, e os filhotes rejeitados, ou aqueles que não são perfeitamente machadinhos, peludinhos, bonzinhos, bonitinhos? Descartados. Descarte de produto é feito no lixo, certo? Certo. É isso mesmo. Ah, tem também a pancada de problemas que esses filhotinhos aparentemente lindos vão passar a apresentar ali, depois de uns 2, 3 meses: ou seja, na casa do seu comprador. E se você compra um produto com defeito, um defeito assim, irreversível… Você leva pra devolver à fábrica, certo? Ok.

Presenciar um filhote em uma vitrine ou numa gaiola de uma pet shop, oferecido como um produto é algo deplorável. É um atestado de nossa falência moral. Reflete do que somos capazes de fazer em nome do lucro.

Entendem que o problema vai muito além de uma crueldade pontual? Que, ao tratar como uma questão de caráter de uma pessoa doente, a gente desqualifica o tamanho do problema? Que, ao naturalizar o comércio de vidas – porque sim, a gente está forçando a reprodução e comercializando vidas, sim – a gente fecha os olhos para tudo o que está por trás disso apenas por caprichos nossos? Em linguagem mais simples: só porque a gente pode? Só porque a gente é a espécie que “ganhou”?

Eu comprei meu Lulu da Pomerânia em um canil maravilhoso, super certificado, conheci os pais dele e são todos muito bem tratados! Que bom que você tem esse privilégio: a maior parte das pessoas não têm. E porque você tem esse cachorrinho lindo e peludo e quietinho, várias outras pessoas vão querer tê-lo também. E elas vão comprar os filhotes sabe onde? Na OLX, no canil que vende por R$ 500, e não R$ 5000, no criador clandestino. Se esse canil do vídeo, certificado, fiscalizado, era assim… E os outros?

Eu preciso de um cachorro pequeno e que não lata, pois moro em apartamento! Se você condiciona a existência do animal ao que você precisa, a coisa já começou errado. Mas, ainda assim: um bom veterinário sabe dizer se aquele filhote de vira-latas vai ficar de porte pequeno também, é possível. Latidos e outros “problemas de comportamento” (cachorros sempre vão latir, vamos pensar por aí?) são muito mais condicionados à criação e ao tratamento (e podem ser corrigidos com socialização e adestramento), do que à raça, sabia? Não te convenci? Que tal então adotar um cachorro adulto, que já tem sua personalidade e seu tamanho completamente determinados? Zero chance de se decepcionar com essa opção. Filhote fica mais bonito na foto? Hm.

Mas é o sonho da minha vida ter um buldogue francês, olha como ele é bonitinho! A gente tem que parar de pensar nos animais como produtos. É urgente. É imprescindível.

Nós fechamos os olhos pra muita coisa. Nós fechamos os olhos para a indústria de alimentos, maior responsável pelo colapso ambiental que estamos tão próximos de sofrer. Nós fechamos os olhos pra indústria da higiene, de beleza, de medicamentos, e tantas outras que utilizam dessa pretensa superioridade da espécie. Nós fechamos os olhos para o fato de que estamos modificando geneticamente diversos animais e criando monstruosidades exclusivamente pra que eles atendam melhor à função de produtos que são, para nossa conveniência.

Em última instância: o problema é a gente submeter os animais aos nossos caprichos. E sim, é hipócrita falar de tudo isso e continuar consumindo produtos de origem animal, como é o meu caso, ou “ah, eu não posso falar de adoção se como carne normalmente?”. É hipócrita, sim. O que não significa que seja errado, ou que você não possa falar, ou que você não possa se conscientizar, ou que você não deva SABER de tudo isso. Da mesma maneira que, você que come carne, deveria saber como são criados os bois e porcos que aparecem na bandejinha do mercado. Que eu, que como ovo, sei claramente como são criados as galinhas e pintinhos que produzem meu café da manhã.

A gente precisa de um pouco de humildade também. Humildade pra falar “poxa vida, eu já comprei cachorro sim”. “Sim, eu já quis muito ter um pug”. “Sim, eu já dei um filhote de poodle pra minha filha”. E tudo bem. A gente vêm aprendendo muito nos últimos anos, as coisas estão mais abertas, as informações chegam mais rápido. Nunca ninguém dirá que você ama menos seu buldogue – ele é lindo, eu rolarei no chão com ele! – por isso. A questão é, a partir do momento que você entra em contato com essa realidade, o que fazer com ela? É botar a mão na consciência e falar, com menos afronta e menos preocupação em lacrar, “é mesmo, a partir de agora, não faço mais”.

Existem inúmeras ONGs que fazem trabalhos muito sérios no acolhimento, na castração, na doação de animais incríveis, que às vezes ficam anos a espera de um lar – que, muitas vezes, morrem sem terem conhecido uma família. Que precisam de dinheiro pra comprar ração, para castrar, para cobrir tratamentos de outros tantos bichos que estão doentes ou foram machucados. Que tal conhecer o trabalho do Projeto Segunda Chance, do Projeto SalvaCão, dos Amigos de São Francisco, do Animais da Aldeia? Da Adote um Gatinho, da Gatópoles, da Catland? Que tal ajudar a Celebridade Vira-Lata, que já castrou quase 10 mil animais? Que tal conhecer o Santuário Ecológico Rancho dos Gnomos? Que tal conversar com quem você conhece e pretende comprar um filhote de raça? Vamos?

Ter um bichinho muda a nossa vida – e faz com que a gente abra o olho pra muitas dessas coisas. Então: não compre, adote. Adote e castre o seu animal. Um cachorrinho, pequeno ou grande. Um animal adulto, que vai te dar tanto amor quanto um filhote. Um gato preto. Um animal que precisa de cuidados especiais. Ou um filhote recém-nascido de qualquer uma dessas opções, saudável, lindo, amoroso, pequeno, peludo, que até parece um golden, que vai fazer um eventual xixi fora do lugar e comer aquela sua meia favorita, que vai morder teu móvel caro e render fotos incríveis pro seu perfil de bicho no instagram. Mas adote. Adote. Não incentive esse mercado.

Demorei um tempão pra escrever esse texto e, quando vi, ele ficou pronto hoje, 04 de outubro, no Dia Mundial dos Animais <3 Cabalístico, não? Então aproveitem e, quem for de São Paulo, dê uma passada na festa da Associação Natureza em Forma e na outra festa, da Celebridade Vira-Lata, que terão a renda revertida para a causa. Vamos?