biblioteca feminista

a origem do mundo – um livro para recuperar a voz dos nossos corpos

Às vezes você fica tão alucinada com uma coisa que dá vontade de alugar uns outdoors, bem no esquema daquele filme lá do Oscar, e espalhar pela cidade a palavra da tal coisa, garantir acesso de todos à tal coisa, colocar a tal coisa na cesta básica e sair por aí dando a paradinha ui pra geral? Então.

Essa semana eu li A Origem do Mundo, da Liv Strömquist, e vim aqui espalhar a palavra. Completamente 153% absoluta e totalmente alucinada por esse quadrinho. Vocês, por favor, me acompanhem.

A Origem do Mundo foi feita pela Liv Strömquist, uma moça sueca de 40 anos, que escreve história em quadrinhos e é cientista política e atual rainha do meu coração. Oi, Liv! Além de fazer essa coisa monstruosa que é escrever e publicar histórias em quadrinhos em um mercado majoritariamente (ah, jura?) masculino, ela faz isso desse jeito aqui olhasóvemcá:

Entendeu?

A Origem do Mundo é uma óbvia e nem por isso menos maravilhosa referência ao quadro de Gustave Courbet, e o subtítulo Uma história cultural da vagina ou A vulva vs. o patriarcado descreve bem o que a gente pode esperar do livro. Mas como assim uma história cultural, Isa? você vai me perguntar. Assim mesmo. O que a Liv mostra pra gente da maneira mais didática e sarcástica do mundo é que, sim, até mesmo disso, da nossa admirável ppkinha (ou principalmente disso né mores) os hómi deram um jeito de dissecar, distorcer, remodelar e entregar um pacotinho bem descaraterizado e, por isso, funcional (pra eles) de volta pra gente. É.

A primeira parte do livro mostra Os homens que se interessaram um pouco demais por aquilo que se costuma chamar de “genitália feminina” é bem autoexplicativa e, talvez, a mais assustadora, que mostra como os mais diferentes e absolutamente improváveis homens resolveram dar pitaco na nossa vagina – do criador dos sucrilhos (sim ¬¬) a médicos que incentivavam a remoção cirúrgica do clitóris até 1948 (sim, 1948. Na Inglaterra!). Depois Crista de galo de ponta-cabeça conta como a vulva foi descaracterizada fisicamente e quase biologicamente ao longo dos séculos – inclusive eu tô bem lokona procurando referências das representações de mulheres + vulvas e tocando suas vulvas MILENARES e que a gente não fica sabendo que existiram. E eram lindas! Ah, claro, isso leva ao segmento AHHHAA sobre o quê, mores? Isso mesmo, sobre sexo, e como o domínio sobre a nossa sexualidade e os grandes mitos e tabus que se construíram sobre ela servem como instrumento de controle social, culpabilizando qualquer tipo de independência que a gente teria sobre… bom, nossos corpos. Ah, vá!

Depois, o segmento colorido e dolorido (desgurpa!) Procurando Eva ou: procurando o jardim da nossa mãe, com relatos diversos e anônimos e mais comuns do que a gente gostaria de admitir de situações constrangedoras, assustadoras ou horripilantes mesmo no que nos concerne a nossa intimidade; e aí Blood Mountain, sobre o que? Sim, sim, sim, ela, a nossa menstruação, essa coisa aparentemente apavorante que ninguém – menos nós, mulheres – sabe lidar, que já foi sagrada (e é, gente, é tanto!) e se tornou só suja e que precisa ser escondida e evitada a todo custo.

enaltecimento das nossas vulvas que temos visto aparecer discretamente nas mídias nos últimos tempos não é um fato aleatório e sem propósito. Nossos corpos têm permanecido na obscuridade e na clandestinidade por eras, enquanto homens exibem os seus sem constrangimento, literal ou simbolicamente. Vivemos em uma cultura falocêntrica e é impossível abrir os olhos sem se deparar com algum elemento que remeta aos órgãos sexuais masculinos. Por isso, e também para nos livrar de séculos de condicionamento que nos fez odiar e rejeitar nossos próprios corpos, é que precisamos redefinir nossa relação com nossos próprios genitais.

dessa resenha, muito melhor e mais ponderada que a minha, das Valkirias

Eu aposto que, infelizmente, você vai se identificar com a maioria dos causos mostrados nesse livro, e tenho certeza absoluta que vai lembrar de mais tantas amigas que já te contaram várias deles também. Pois é. “Se você acha sua genitália feia, estranha ou nojenta, saiba que o problema não está nela e sim na sociedade” diz essa matéria complementar da Az Mina, que de quebra vem com um vídeo bem explicativo. Claro que hoje em dia, 2018, ninguém mais acreditava que a gente se odiava tanto só porque sim, e que tinha dedo – ou pintos – de homem all over the place. Ainda assim, ver assim, na nossa frente escancarado, literalmente desenhado, dói na mesma proporção que dá raiva. Entendeu por que eu quero que todo mundo conheça esse livro? Pois é.

Pra mim o mais legal do livro, além do altíssimo índice de ironia, claro, é a maneira com que a autora conseguiu reunir fatos e dados históricos, provando que, em primeiro lugar: socorro, fazem isso com a gente TANTO e HÁ TANTO TEMPO e a gente continua aqui sofrendo e, depois, que o domínio é tão completamente cultural, estrutural pra sustentar a sociedade como ela é hoje, que dá pra se perdoar um pouquinho por um monte de coisa que estamos nos culpando há tanto tempo e tão profundamente. Ah, dá raiva também. Muita raiva. Vontade de queimar tudo. De explodir tudo. Beeeem clichezão femininja mesmo. Que bom.

Bom, e agora eu espero que todo mundo compre o livro e espalhe a palavra comigo. Urgente. Pra ontem. Vamo, eu começo.

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Inauguro com essa magnífica resenha a categoria biblioteca feminista que é, na verdade, o nome da minha lista de leituras na Amazon, e vocês vão ter que me aguentar por muito tempo por aqui, ô se vão!

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