2016 eita; ou seventy years of being human

Tá todo mundo feliz que 2016 acabou.

Cara, foi treta. Foi difícil. Foi truncado. Exigiu muito da gente. Levou muito da gente. Colocou todos os nossos princípios à prova todo-o-santo-tempo. Se foi. Mas tá aí: a gente sobreviveu. E eu, no alto da minha patetice pisciana, acho que a gente acabou aprendendo com tudo o que se viu obrigado a desapegar. Na marra. Estamos todos cansados, exaustos, sem ter de onde tirar energia.

E também que eu não posso reclamar. Mesmo que tenha sido no meio de um monte de dificuldade, 2016 foi o ano que, bom… Que eu posso dizer que tudo o que foi importante deu certo. Que eu resolvi fazer um casamento do zero em 5 meses – e deu certo e foi lindo. Que eu dei um passo importante pra esse amor tão certo. Que a casinha se tornou finalmente um lar. Que, no meio do fim do mundo profissional que tá rolando, eu consegui pelo menos entender que tatu-do-bem, mesmo que não esteja, porque a gente consegue no final. Que eu botei em prática um dos planos do papel e, mesmo que não seja fácil, ele tá por aí, na vida.

Mesmo que seja na marra, algo fica. Fica que a gente aprendeu a ser resiliente. Fica que a gente descobriu pontos em comum, mesmo quando todo o mundo parecia contra a gente. Mesmo quando somos minoria. Fica que a gente percebe que tem muita gente disposto a lutar, a seguir. Fica que a gente aprende que nem sempre precisamos de tanto. De tantos. Fica que a gente descobre que tudo bem chorar também. Cair.

Foi um ano, acima de tudo, de crescimento pessoal. Dolorido, eita, bem dolorido, porque a gente vai se espremendo e moldando numa casca que às vezes não serve que, depois de um tempo, para de abraçar e começa a esmagar a gente. Dói se livrar dela, dói se desvencilhar de uns pedacinhos que ficam grudados, às vezes, não sai tudo de uma vez: a gente tem que ficar cutucando, tirando com cuidado, descascando até não sobrar mais nada. Longe de mim colocar aqui uma metáfora sobre casulos e lagartas e borboletas, mas é isso aí.

É difícil deixar pra trás, também. Pessoas, princípios, amores, hábitos. A gente se apega a coisas que talvez nem fossem tão reais assim. Também, quando desapega, tem essa mania besta de olhar com desdém, como quem não quer, como quem se alivia – e pode ter alívio, sim, mas que ele seja mais doce. Longe de mim colocar aqui a palavra gratidão, mas é isso aí. Olhar pra trás com a certeza de que ficou e pode continuar lá, mas sem ressentimentos ou mágoa.

Ver o que foi bom. Se esforçar pra ver o que for bom. Ver o que foi bom. Se agarrar no que foi bom.

Eu tou bem feliz com quem eu sou. Eu tou bem feliz com o que eu construí. Eu tou bem feliz com quem me acompanhou até aqui – embora eu precise me lembrar sempre de que tudo bem não estarem também. Eu tou bem feliz com a Isadora, de maneira geral. Foi a duras penas que a gente aprendeu, em 2016, que o foco tem que ser a gente, sempre, então que em 2017 a gente consiga lidar com essa lição de maneira mais calma e mais generosa.

Por isso, eu vou me permitir fazer essa transição de uma maneira mais leve, sem cobranças, sem pressão – sem listas!. Aproveitar que cai tudo num sábado e não permite muita comemoração ou rituais de passagem pra ser essa a resolução: atenção diária ao que foi bom. Comemorações diárias. Celebrações diárias. Ser feliz todo dia sim – e respeitar os dias ruins também.

É engraçado: parece que 2016 me ouviu falando essas coisas todas e resolveu dar seu último suspiro nas duas últimas semanas. Não sei aí com você, mas por aqui, tá tudo bagunçado, de corte de cabelo (que estava maravilhoso ¬¬) que deu errado a conta da Uber e todos os cartões que foram clonados, de maluquices mil no trabalho a burocracias da vida adulta que você nem sabe como surgiram. Dessas que desestabilizam a gente e nos deixam naquele estágio de “mas por que isso tá acontecendo comigo, se eu faço tudo direito?”.

O truque, eu acho, é respirar. Tudo bem dar errado. Não é só com você. A gente não pode controlar tudo. E tentar não criar o bichinho da raiva e da amargura aí dentro. Por pra fora, berrar no travesseiro, comer o pote de sorvete inteiro. Agarrar os gatos – falei que 2016 teve até gatinho novo filhote bebê? Teve.

E como eu ando nessas de não saber direito o que dizer, nem como, nem pra quem, eu queria deixar vocês com duas reflexões mais bonitas e completas que apareceram na minha vida essa semana, justo nela, toda complicada e cheia de problemas. A primeira é da Nath que, com as suas cartas, foi um dos pontos altos do ano, sempre pontual, sempre no timing certo: que o seu próximo ano seja repleto desses momentos que você quer registrar para guardar, postar, compartilhar. Porque a vida do instagram é, sim, muito maravilhosa e, no final das contas, a nossa vida é isso aí: um amontoado de bons momentos que a gente quer guardar pra sempre (em volta de um amontoado de momentos blé que a gente só esquece).

A segunda é um mix da apresentação da Patti Smith no Prêmio Nobel, no lugar do Bob Dylan, com a reflexão que ela fez na The New Yorker sobre o ocorrido – ela ficou nervosa, errou a letra, pediu pra voltar. Musa eterna da minha vida, essa mulher incrível que, a medida que envelhece, vai deixando mais e mais pensamentos importantes pra gente:

When my husband, Fred, died, my father told me that time does not heal all wounds but gives us the tools to endure them. I have found this to be true in the greatest and smallest of matters. Looking to the future, I am certain that the hard rain will not cease falling, and that we will all need to be vigilant. The year is coming to an end; on December 30th, I will perform “Horses” with my band, and my son and daughter, in the city where I was born. And all the things I have seen and experienced and remember will be within me, and the remorse I had felt so heavily will joyfully meld with all other moments. Seventy years of moments, seventy years of being human.

– How does it feel, Patti Smith (The New Yorker)

Todo mundo deveria assistir essa apresentação, pelo menos uma vez na vida.

Que a gente se permita ser assim: mais humanos, com mais erros, com mais sentimentos. Vamos com calma. Com amor. E vamos mais gentis.

Vem, sim, 2017. Seja legal com a gente!