um mês

E faz um mês.

Apesar de eu ter prometido pra mim mesma que não faria muito alarde (eu fiz, né?), acho que todo mundo já entendeu que eu mudei de casa. Saí da casa dos meus pais – que agora chama “a casa dos meus pais” – e vim, finalmente, para São Paulo. É, foi tudo junto: “morar sozinha” e “morar em São Paulo”.

Quem mora na região “metropolitana” de alguma cidade grande deve entender meu drama – ou ex-drama: você não está nem perto o suficiente para que as coisas sejam próximas, nem distante o suficiente para que role uma mudança de cidade natural. Tipo quando você passa na faculdade em outro Estado e tal. Não: morar “quase em São Paulo” significava 2 horas e meia a cada translado, zero de atividade social e muito, muito stress. As facilidades de ter a casa dos pais ali, logo em frente, eram imensas, mas subaproveitadas por aquele termo que nós, juventude hipster, gostamos tanto de repetir: qualidade de vida.

E faz um mês que eu fiz e refiz as contas (e eu faço e refaço até hoje, e sei que isso ainda vai se repetir pelos próximos meses), e decidi que dava. Se for pra ser sincera de verdade, as contas bateram, os números fecharam, mas nunca fui uma decisão assim, totalmente consciente. Acho que se eu parasse pra analisar friamente, talvez não tivesse saído do lugar. Pior coisa que poderia ter feito.

Faz um mês, na verdade, no sábado: pois eu me mudei num longínquo 9 de fevereiro, ainda que meu número da sorte seja 8. Também preferi não pensar muito nisso. Vi que o que precisava era um colchão e uma geladeira, chamei os amigos e fui. Já comprei estante, escrivaninha e sapateira. Quero dar embora todas as minhas roupas. Não tenho e nem tenho previsão de ter uma televisão, mas sábado chega a penteadeira. Amarela.

Eu ligo pro namorado toda vez que vou esquentar a comida e não tem ninguém pra contar como foi o dia. Eu me tranco no meu quarto sempre que quero ouvir só o meu silêncio. Eu compro itens de decoração que não tenho onde colocar e utensílios de cozinha que não faço ideia de como (nunca vou) usar. Eu troco compromissos sociais – aqueles pelos quais me mudei, pra ter “tempo livre”, pra chegar em casa “a hora que eu quiser – pra ficar admirando meu edredon cinza, que mesmo no calor infernal de São Paulo, combina com as minhas almofadas. Amarelas.

Hoje eu posso me orgulhar de poder dizer praticamente todo dia: vamos lá pra casa, tem cerveja na geladeira. Quase nunca tem comida – eu ainda tenho medo de ligar o fogão. Minha mãe deixa pratos congelados dos quais eu não me vanglorio, mas o Youtube já me ensinou a lavar roupa, a pintar móveis das Casas Bahia e a reutilizar garrafas pet de todas as maneiras que o ser humano já pensou.

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As caixas ainda estão aqui, ainda falta muita coisa. O espaço “comunitário” não vai ganhar minha cara nem agora, e provavelmente nem até que eu finalmente saia daqui e dê o próximo outro passo – mas conviver faz parte da história, não faz? A gente vai criando, improvisando, montando, tipo aquelas tias velhas que juntam caixinhas porque “uma hora eu vou encontrar um uso pra isso”. E a gente encontra. Nem que seja pra arranjar mais um cantinho de plantas, de potinhos, de frescuras inúteis, de fofices, de amor. (Que são um inferno pra limpar).

Essa coisa de vida adulta demorou, mas olha… Vou falar baixinho pra não estragar: fica mais por aqui. Pode vir com menos dinheiro e mais silêncio que não tem problema não. Gostei de você.

[update com poema, vejam só, logo eu:]

se você me conhecesse
veria meu esforço e esmero
saberia que morei em outros 23 espaços alugados
antes de chegar rolando a este

a/c proprietário do imóvel, da Ana Guadalupe

would you be my valentine?

Eu tinha bastante dificuldade de entender o conceito do Valentine’s Day. Aprendi na escola que era uma espécie de Dia dos Namorados, mas que dava pra você escrever cartões também pros seus amiguinhos, pras suas BFFs. E a gente fazia isso, cada ano comemorando com um presentinho mais brega que o outro – e só podia escrever “eu gosto muito de você”, ou “eu te adoro”. Amar era só pra pai e mãe, e olhe lá.

Acabei me perdendo nas explicações bastante confusas que me deram ali, por volta dos 12 anos, quando tudo o que eu queria era perguntar para o menino do topete descolorido se ele would be my valentine? mas me privaram desses sonhos, e eu desencanei.

Na real, essa explicação meio confusa acabou sendo a que eu mais aceitei ao longo da vida. A diferença é que, se aos 12 anos eu ficava brava, aos 16 eu achava mentira, bom… Aos 24 eu só tenho a agradecer.

Um amor-amigo, companheiro, leve e brincalhão, que aceita explicações meio tortas, presentes bem bregas e pergunta minha opinião antes de decidir descolorir o moicano. Um amor desses que não serve pro príncipe encantado no cavalo branco, mas que se encaixa perfeitamente no frango-com-limão-que-você-pode-comer-na-sua-dieta, em brincadeiras estúpidas antes de dormir cedo, porque amanhã você tem que trabalhar, e em sorrisos bobos de quem encontra, todo dia, um novo pedido simples e bobo. Uma escolha. Você seria… ? Seria. Todos os dias.

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agora vai

2014 começou torto.

2013 foi um ano preguiçoso, desses que empurram com a barriga, e acho que o Ano Novo tentou tirar o atraso. Começou meio atropelado, e atropelando, levando tudo embora com muita ânsia e pouca, pouquíssima sutileza. Tanta vontade de ser diferente que acabou esquecendo que o igual também é bom, e que tem que ter cuidado com o que já está construído porque, atualmente, qualquer coisinha é suficiente pra desmontar.

Daí parou.

E fica o mantra pra esse ano que, agora, declaro oficialmente aberto: equilíbrio. Uma amiga me disse que é o ano de ouvir, e não de falar. Alguma coisa a ver com a numerologia, o tarô, a borra do café. Tanto faz. Mas vale a dica de parar, pensar e contar até 10 antes de sair por aí colocando tudo em caixas: primeiro, vamos ver se as coisas estão limpas, né?

Segunda chance, 2014. Pra mim e pra você. Mas agora vai.

sobre Cuba

Eu demorei pra escrever sobre Cuba porque eu estava de ressaca. Uma ressaca que nada tinha a ver com a média de 1,7 mojitos/dia que eu tomei durante a viagem; Mais parecida com a ressaca que eu senti no pós-show do Paul McCartney. Uma ressaca que sussurrava lá dentro: você realizou um sonho, Isadora. E junto daquela satisfação que te deixa radiante – além do bronzeado maravilhoso –, traz também uma sensação de “e agora?”.

Eu demorei pra escrever sobre Cuba porque eu estava de ressaca. Uma ressaca que nada tinha a ver com a média de 1,7 mojitos/dia que eu tomei durante a viagem; Mais parecida com a ressaca que eu senti no pós-show do Paul McCartney. Uma ressaca que sussurrava lá dentro: você realizou um sonho, Isadora. E junto daquela satisfação que te deixa radiante – além do bronzeado maravilhoso –, traz também uma sensação de “e agora?”.

A gente sempre teve aquele sonho comunista de conhecer Cuba, ver qual era, aquecer o coração vermelho de esperança marxista. Meus pais, lá nos idos dos anos 80, visitaram a terra do Fidel num esquema muito turista, resort, avião e moças vestidas com frutas tropicais. Eu e o namorado já somos mais pé no chão – pra não dizer falidos – e pensávamos em como adequar o orçamento reduzidíssimo, que cortava de cara qualquer local com mais de 3 cifrões.

Duas coisas ajudaram a bater o martelo: os poucos, mas ótimos, relatos de viajantes mais ou menos tão falidos quanto nós na internet, e o guia Lonely Planet do país. Os blogs porque nos deixaram tranquilos no fator “mochileiros”, deixando claro que era possível fazer uma ótima viagem sem ter que pedir empréstimo no banco, além de terem sido definitivos na escolha do roteiro (reduzido, porque aquela ilha é larga demais). O guia conseguiu reunir algumas dessas informações – como a hospedagem em casas de cubanos, mega barata – com outras mais práticas: locomoção entre as cidades, dúvidas sobre o dinheiro, algumas atenções especiais de segurança.

E daí a gente foi. Quando vimos, estávamos parcelando as passagens (caríssimas) em 1287 vezes e mandando emails com um portunhol vergonhoso, tentando confiar que aquele acordo boca-a-boca – ou nem isso! –, ia ser o suficiente pra garantir que tivéssemos onde dormir em terras cubanas. E foi. O povo cubano começou a ser surpreendente a partir daí: jogando na cara da gente, dois paulistas acostumados a tomar cuidado até com a sombra, que um acordo firmado apenas com um email “te aguardamos en nuestra casa, saludos!”, sem nenhum dinheiro envolvido, seria garantia de uma recepção não só honesta, como pra lá de calorosa.

Viajamos durante 16 dias por alguns lugares: Havana, a cidade mais incrível que eu já conheci, com gente saindo pelas janelas, pelos bueiros, pelas frestas; Cienfuegos, cidade-lego-dos-franceses, com o povo mais engraçado e caloroso, que bebe vodka russa e canta Benny Moré; Trinidad, Paraty cubana, jovem, sexy, animada, das ruas difíceis de andar e das praias surreais; Varadero, artificial como só ela poderia, terra dos resorts e do descanso. Cuba me encantou mesmo quando caímos nos trambiques inofensivos, mesmo quando a cama tinha pulgas, mesmo quando meu estômago desistiu da sua culinária. Cuba é incrível, cada pedaço e, tenho certeza, cada canto que faltou.

E pra quem quer ouvir sobre a situação política-econômica, eu não vou me alongar muito: existem, sim, tantas coisas erradas quanto a gente encontra em cada esquina aqui do Brasil – um abismo social artificial imenso, criado pela bolha bizarra do turismo -, tentativas meio esquizofrênicas de abertura e um descompasso surreal se você analisa com olhos de quem vem de fora e vê o país parado no tempo. Sim, existe. Ao mesmo tempo, existe a garantia de que da educação, da saúde, da segurança de deixar as crianças jogando bola – beisebol, tá aí um grande erro! – na rua até de madrugada, e só se preocupar se algum cubanito mais caliente vai te passar uma cantada na volta pra casa. Existe um sentimento de irmandade meio inexplicável, de acolhimento e simpatia inerentes, uma tranquilidade dessas de abrir a sua casa pra um completo estranho e servir abacaxi com mel no café da manhã.

Os cubanos são incríveis.

Eu até podia fazer um post dia-a-dia da viagem, cheia de fotos, lugares e dicas, mas nem sei se consigo mais distribuir os dias em dias, os locais em locais. De Cuba eu trouxe a sensação que já me acompanha nos últimos meses de 2013, de que não é preciso muito pra ser feliz daquele jeito calmo e tranquilo que eu tanto quero. Não falo do mar do Caribe, das cidades encantadoras (mas delas também). Falo de paz de espírito e convicções pessoais de que a gente pode ser simplesmente bom – e não precisa de muito.

IMG_0688Se alguém pretende viajar pra lá e quiser dicas pontuais, lugares/restaurantes, essas coisas, podem me perguntar nos comentários ou nos ícones de contato ali do lado, que eu terei prazer em responder! Por enquanto, não consigo ir além dessa sensação que tentei descrever aí em cima. Algumas fotos eu coloquei aqui.

FAVORITOS #2

Essa entrevista com Blexbolex, no blog da Cosac Naify:

O artista francês Blexbolex, autor de Cantiga, um dos livros mais lindos que eu já vi – e que ganhei de presente da minha querida @stephieborges – deu uma entrevista exclusiva para o ilustrador Daniel Bueno. Vale a pena ler, nem que seja pra ficar babando nas imagens.

As promessas para 2014 do incrível Juan Pablo Villalobos, no blog da Companhia das Letras:

1. Parar de roubar no quilo; 3. Começar todas minhas frases assim: “Mas porra…”; 7. Soltar no México o boato de que eu conheço Fernanda Lima. A lista do autor mexicano já está impressa e colada no meu mural. Conheci o Juan Pablo através do lindíssimo Festa no covil, seu romance de estreia, e tive a honra de fazer um curso muito bacana com ele – sim, vou contar pra todo mundo que conheço um autor fodão. Amei o personagem infantil de “Covil”, e estou apaixonada pelo retrato mega-irônico da família mexicana que ele faz em Se vivêssemos em um lugar normal. Leio tudo o que ele escreve, dos livros às crônicas por onde eu encontro. Dá um quentinho, sempre, e aquele sentimento de “eu queria ter escrito isso”.

Os 13 melhores livros infantis de 2013, do Brain Pickings:

Quem me conhece sabe que eu sou alucinada por literatura infantil, especialmente livros ilustrados – cês viram a tatuagem nova, né? Fiquei super feliz de saber que algumas das minhas escolhas do ano estão entre as 13 do Brain Pickings (que se vocês não conhecem, conheçam, por favor): My Brother’s Book, do Sendak <3, e Ballad (Cantiga), do moço que eu citei aí em cima. Os outros vocês podem colocar na “lista de presentes para dar pra Isa”, especialmente o The Mighty Lalouche – infantil, ilustrado e sobre boxe? Num posso.

imagem daqui

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