Sozinha

Hoje eu cheguei sozinha em casa.

Tipo, eu faço isso todo dia. Eu saio do trabalho, venho pra casa, chego sozinha. Nem sempre tem alguém aqui, mas sempre tem gente. Tem uma ligação, um toque “olha, cheguei, fica tranquila”, um abraço até, às vezes – com sorte, um franguinho do limão, de vez em quando.

Hoje eu saí sozinha e cheguei sozinha. Fui, encontrei uma amiga, me despedi e dei uma volta. Já não era mais hora de metrô, todo mundo já estava na rua. Eu andei uns dois quarteirões e percebi que não fazia a menor ideia de como voltar dali. Minha cabeça, já acostumada a cronometrar as paradas dos ônibus, os milímetros dos trajetos, apenas desligou o GPS involuntário e eu demorei uns bons 10 minutos pra entender que, pra sair dali, eu teria que andar. E aí eu andei. E peguei um ônibus. Subi e vim – cheguei, sim.

E daí que eu cheguei sozinha em casa. Não liguei pra ninguém, não sei onde as pessoas estão. Percebi agora – mais ou menos 1 hora depois – que eu fiz tudo isso, e tô aqui, vivona.

Eu já cozinhei, eu já comi atum da lata, eu já pintei um móvel, eu já desentupi banheiro, eu já limpei geladeira e já quebrei umas 3 garrafas. Mas nunca tinha chegado sozinha assim.

Foi bom, viu.

um mês

E faz um mês.

Apesar de eu ter prometido pra mim mesma que não faria muito alarde (eu fiz, né?), acho que todo mundo já entendeu que eu mudei de casa. Saí da casa dos meus pais – que agora chama “a casa dos meus pais” – e vim, finalmente, para São Paulo. É, foi tudo junto: “morar sozinha” e “morar em São Paulo”.

Quem mora na região “metropolitana” de alguma cidade grande deve entender meu drama – ou ex-drama: você não está nem perto o suficiente para que as coisas sejam próximas, nem distante o suficiente para que role uma mudança de cidade natural. Tipo quando você passa na faculdade em outro Estado e tal. Não: morar “quase em São Paulo” significava 2 horas e meia a cada translado, zero de atividade social e muito, muito stress. As facilidades de ter a casa dos pais ali, logo em frente, eram imensas, mas subaproveitadas por aquele termo que nós, juventude hipster, gostamos tanto de repetir: qualidade de vida.

E faz um mês que eu fiz e refiz as contas (e eu faço e refaço até hoje, e sei que isso ainda vai se repetir pelos próximos meses), e decidi que dava. Se for pra ser sincera de verdade, as contas bateram, os números fecharam, mas nunca fui uma decisão assim, totalmente consciente. Acho que se eu parasse pra analisar friamente, talvez não tivesse saído do lugar. Pior coisa que poderia ter feito.

Faz um mês, na verdade, no sábado: pois eu me mudei num longínquo 9 de fevereiro, ainda que meu número da sorte seja 8. Também preferi não pensar muito nisso. Vi que o que precisava era um colchão e uma geladeira, chamei os amigos e fui. Já comprei estante, escrivaninha e sapateira. Quero dar embora todas as minhas roupas. Não tenho e nem tenho previsão de ter uma televisão, mas sábado chega a penteadeira. Amarela.

Eu ligo pro namorado toda vez que vou esquentar a comida e não tem ninguém pra contar como foi o dia. Eu me tranco no meu quarto sempre que quero ouvir só o meu silêncio. Eu compro itens de decoração que não tenho onde colocar e utensílios de cozinha que não faço ideia de como (nunca vou) usar. Eu troco compromissos sociais – aqueles pelos quais me mudei, pra ter “tempo livre”, pra chegar em casa “a hora que eu quiser – pra ficar admirando meu edredon cinza, que mesmo no calor infernal de São Paulo, combina com as minhas almofadas. Amarelas.

Hoje eu posso me orgulhar de poder dizer praticamente todo dia: vamos lá pra casa, tem cerveja na geladeira. Quase nunca tem comida – eu ainda tenho medo de ligar o fogão. Minha mãe deixa pratos congelados dos quais eu não me vanglorio, mas o Youtube já me ensinou a lavar roupa, a pintar móveis das Casas Bahia e a reutilizar garrafas pet de todas as maneiras que o ser humano já pensou.

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As caixas ainda estão aqui, ainda falta muita coisa. O espaço “comunitário” não vai ganhar minha cara nem agora, e provavelmente nem até que eu finalmente saia daqui e dê o próximo outro passo – mas conviver faz parte da história, não faz? A gente vai criando, improvisando, montando, tipo aquelas tias velhas que juntam caixinhas porque “uma hora eu vou encontrar um uso pra isso”. E a gente encontra. Nem que seja pra arranjar mais um cantinho de plantas, de potinhos, de frescuras inúteis, de fofices, de amor. (Que são um inferno pra limpar).

Essa coisa de vida adulta demorou, mas olha… Vou falar baixinho pra não estragar: fica mais por aqui. Pode vir com menos dinheiro e mais silêncio que não tem problema não. Gostei de você.

[update com poema, vejam só, logo eu:]

se você me conhecesse
veria meu esforço e esmero
saberia que morei em outros 23 espaços alugados
antes de chegar rolando a este

a/c proprietário do imóvel, da Ana Guadalupe