do que eu falo quando falo de corrida

Agora eu sou dessas que corre na rua. É gente, vocês viveram pra ver esse momento. Eu comprei shortinhos “coxas-saradas”, eu pretendo ter um tênis fluorescente, eu estou, inclusive, pesquisando preço daqueles troços que você põe no braço pra segurar o iPod. Sérião. E foi aí que eu percebi uma regra pra ser aplicada em todas as áreas da vida mas, especialmente, aos relacionamentos.

É a regra da corrida.

Não, nada a ver com quão sarado o possível bofe é. Absolutamente longe disso. A regra da corrida diz respeito à maneira que o possível bofe corre. Porque gente, você pode se vestir com as melhores roupas, andar com o melhor carro, pedir bebida que pixca, ser legal, descolado, engraçado, bonito e gostoso, até. Mas, caro futuro bofe, se na hora de correr a coisa desanda, bom… É porque tem algo aí dentro de você, escondido.

Esses dias eu estava saindo da empresa e vi um cara desses que você olha na rua. Alto, moreno, braços tatuados, barba no ponto, camiseta descolada. Cara de desáiner, mas sem os óculos de aro grosso. Farol fechou, eu mantive a minha distância, olhando pras meninas do meu lado, que riam bonitinho pro bonitinho. E então, o ônibus dele chegou.  E o amigo alto, moreno, braços tatuados e barbudo saiu correndo.

E aí, gente, tudo desmontou. A pose garotão-da-augusta desmoronou, e o menino de 13 anos gordinho, tímido e que era surrado na escola reapareceu – mesmo atrás da barba. Era um rebolado, misturado com braços descoordenados, com cabeças de cachorrinho de caminhão, com nenhum gingado aparente. Toda e qualquer sensualidade foi-se embora, levada por um impiedoso Trianon-Masp atrasado. Até as meninas notaram.

Desde então, passei a aplicar a regra da corrida para as pessoas da minha convivência. Não todas, mas especialmente aquelas que a gente acha que são legais-demais, bonitas-demais, legais-e-bonitas-demais, conhecidas-demais, tem-os-melhores-amigos-demais. Quer ver quem elas realmente são? Bota aquela repórter que usa as coleções da passarela pra correr (diz que o bonitão tatuado tá esperando por ela). Pode ter certeza que, uma  hora, ela deixa aparecer que ela também assiste The Voice na quinta à noite.

paladino da dieta

Eu confesso: sempre tive complexo de mártir. Não é nem difícil admitir isso, porque, admitindo, eu confesso que tenho uma condição, uma condição médica, o que me faz automaticamente entrar numa lista de pessoas com condições médicas e bom, eu tenho esse complexo de mártir. Mas a questão é que eu finalmente eu encontrei um caminho – desses que não faz mal a ninguém, claro – pra canalizar esse sentimento. E esse caminho é minha dieta.

Me privar das coisas maravilhosas que a vida me dá é terrível, sim. E, por princípio, eu sou contra essa história de restringir, cortar, tirar definitivamente. Mas quando 1) os quilos ultrapassam a barreira das suas roupas; 2) você não tem dinheiro pra ir num médico; 3) você tem uma viagem em que usará biquíni em 90% do tempo, você apela pras revistas. Ah, sim, meus amigos: as revistas e os blogs de gente com barrigas chapadas e “antes e depois” que mais encantadores do que o Google Glass.

E aí a gente descobre uma dessas dietas loucas que tiram tudo do cardápio e você emagrece. Pois, claro, você emagrece – e sempre tem uma conhecida que fez a dieta, emagreceu, e tá aí, vivona, com a saúde em dia, pra te motivar. E você decide fazer a dieta. Claro, você adia o começo umas duas, três vezes, até expurgar toda a cerveja do seu organismo (de preferência, com mais cerveja). E então, você começa.

O primeiro dia é maravilhoso. “Eu estou fazendo dieta”, é a placa que você manda fazer na gráfica rápida do lado da sua casa. Põe no Facebook. Pede ajuda das amigas, com aquele ar de “vou ficar mais magra de vocês, preparem-se” – é, amigas, a gente pensa isso, não finjam que não. Você pega seu filé de frango pensando naquele biquíni, no short que mostra a polpa da bunda, nos braços bronzeados. E sorri.

Do segundo dia em diante, você vira o super-herói da dieta. E não é um super-herói pimpão, tipo o Homem Aranha. Não, não. É um super-herói soturno e atormentado. Desses que se escondem em cavernas e têm vozes estranhas. Desses que têm um passado negro e nenhuma perspectiva de futuro. Resta-lhe, somente, seguir com a dieta.

Alface. Cenoura. Frango. Desnatado. Sem gordura. Light. Cada pedaço, cada mordida, é uma batalha contra o mal vencida. Cada cheirada no chocolate alheio – não finja, amiga, não finja… – são anos de corrupção e vandalismo, ops, destruídos. Seus amigos te chamam para tomar cerveja: você para no shopping, come frango e soja. E bebe Coca Zero no bar. Gotham está a salvo. Pensa no biquíni. Biquíni manchado de suor e sangue.

* Esse é meu último post sobre dieta. Talvez.