barulhinho bom

Eu nunca fui uma pessoa de gatos. Não por eles, é claro: mas eu não sei lidar com gente que não corresponde meu amor na mesma moeda. Sempre fui assim na vida, com amores, com amigos, com bichos. Por que raios você não gostaria de ficar no meu colo à tarde toda? Como é que você não quer que eu te abrace agora? Quem é que não gosta de carinho na barriga, catzo?

Claro que eu não tenho muito poder de dizer “não” em questões relacionadas a animais. Eu vim com um defeito no botão “perigo”, e poderia colocar a mão tranquilamente no aquário da Shamu ou daquele urso polar do Central Park. Minha tia sempre teve gatinhos que, como gatos, me davam 5 minutos de atenção e eu, como Isadora, dizia com a boca cheia que “eu gosto mais de cachorros”. Talvez ainda seja verdade.

Você apareceu na casa do Bruno com a sua irmãzinha, minúscula, mas já brava. E com o seu motorzinho ligado, tão alto que eu sempre me preocupei: é normal ela fazer esse barulho? Claro que era, era só amor. Mesmo quando você queria ficar na sua, era amor, amor alto e claro que nem você conseguia esconder, sua blasé. Você resistiu à falta de cuidado que sua irmã não soube enfrentar, foi e voltou pra gente, como se nunca tivesse ido embora.

E de repente, tinha você ali: miando, pedindo, dando suas cabeçadinhas carinhosas de “por que porra você não acordou e não está me dando comida?”. Seis e meia da manhã, sempre, na janela. Você e seu jeito desleixado de pular, fazendo barulho de mola que sempre me fez pensar: é normal ela fazer esse barulho? Era só você, sendo um gato desajeitado, como você sempre foi.

E nem deu tempo de ser brincalhona. Logo, você, safada que só, começou a engordar de uma maneira estranha, e miar de uma maneira estranha, e fazer barulhos estranhos pra se comunicar com a gente. É normal ela fazer esse barulho? E, de repente, você trouxe o melhor presente que eu poderia ter recebido, uma surpresa que eu nunca imaginaria que viesse. Pelo menos, não no formato daquela bola gorda de pêlo branco. Que você nunca abandonou.

A gente fez você perder um filhotinho, e, por isso, eu nunca vou me perdoar. A gente plantou uma plantinha num vaso pra você ter pra quem miar quando desse saudade. E cuidamos pra que aqueles bichinhos devoradores de leite não te judiassem, logo você, tão pequena ainda. Tão filhote. E você, é claro, cuidou deles como ninguém, lambendo a cria, mesmo, até o último dia, mesmo quando aquele safado, com 6 meses de idade, ainda queria mamar. Aquele Gordo.

Do mesmo jeito que você veio, assim, de repente, e de repente transformou a nossa vida numa coisa louca, numa corrida para fechar privadas, numa preocupação louca por barulhos, miados e objetos perigosos, do mesmo jeito que de repente você mexeu em tudo e deixou tudo diferente pra sempre, do mesmo jeito, de repente, você foi embora. E eu não sei se nesse tempo deu pra mostrar que você foi a coisa mais doida e intensa que dava pra você ser. Mas você foi. E agora só sobrou barulho de vazio.

Obrigada, Bebel. Até mais.

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