let the seasons begin

Quando eu acho que o dia vai ser particularmente bonito, é inevitável: eu ouço Beirut no caminho do trabalho, porque foi assim que o namorado me ensinou que os dias bonitos devem ser. E, bem, como meu “caminho do trabalho” não é uma rapidinha pela manhã, normalmente, dá pra ouvir um CD duas vezes.

Dai eu tava lá, na segunda rodada de Elephant Gun do dia, e senta o moço do meu lado. Engravatado, com cara de sono e óculos de sol. E brigando com a namorada pelo telefone. Logo de manhã, sabe? Numa manhã de sol de uma quinta-quase-sexta-feira. Ele desligou com um “se acalme e depois a gente conversa mais. Eu te amo”. E olhou pra mim.

Eu sorri pra ele, claro. Era uma manhã de sol e eu tava ouvindo Beirut e o dia prometia ser lindo. Ele sorriu de volta, meio que “ah, essas coisas acontecem, mas a gente vai fazer as pazes” – ou ao menos, foi isso que eu pensei que fosse acontecer. Porque, imediatamente, ele pegou os fones de ouvido, colocou no celular e escolheu Elephant Gun, do Beirut, pra ouvir.

Postado originalmente aqui, onde o número de likes de você só confirma a preguiça generalizada que a gente tem das palavras – ou “por que você ainda tem um blog?”

o lado de cá é bem bonito

Depois de um dia como esse, o que a gente faz? A gente escreve.

Eu decidi fazer História com 17 anos porque eu gostava de histórias. Sempre gostei de ouvir histórias e de inventá-las. Do Pirlimpimpim meio pornográfico da minha Bisa às continuações de Harry Potter que só existiam na minha cabeça, eu sempre fui apaixonada por histórias. Daí eu me enganei tremendamente achando que era ali, na margem dos 47/100 da Fuvest que eu ia achá-las.

Pra resumir o causo todo, eu desisti de História e das histórias antigas e me encontrei no Jornalismo. E encontrei pelo caminho um monte de gente contando novas histórias. Descobrindo novos personagens. Dando voz a cenas inimagináveis pro meu mundinho sãobernardense que mal sabia pegar o metrô.

Daí eu me decepcionei com o Jornalismo. Porque, no meio de tantas histórias, encontrei enredos engessados, e personagens abafados, e gente demais metendo o dedo na história alheia – gente que nada tinha a ver com aquilo e que, ao meu ver, cometia o pior pecado de todos: não gostar de ouvir histórias.

Eu fui forçada a mudar de caminho novamente. Não tenho a cara de pau de falar “eu tomei coragem, fui lá e mudei”. Não, não, de jeito nenhum. A formatura, o mercado, os amigos jornalistas e mais um monte de coisas me fizeram ter que abrir caminhos novos – na porrada. Pro meu desgosto. Com força. E um medo do caramba.

E hoje eu vejo que não poderia ter sido melhor de outra forma. Porque se não fosse essa falta de opção, de ter que encontrar outras maneiras de contar, outros lugares para expor, eu estaria hoje presa a uma coisa que não queria mais já fazia tempo – e que já sabia que não queria. Foi no susto, no grito, que eu aprendi a me desapegar ao sonho dos outros e pensar no que efetivamente me faria feliz.

Meio que aquela coisa piegas de fazer a limonada com os limões que a vida te dá.

É basicamente isso: eu desapeguei. Pode até ser que um dia eu volte atrás e fale “cadê aquele jornalismão que eu queria desde o começo?”. Pode ser. Mas eu não dependo mais disso. Na força, eu aprendi que tem tantas outras coisas por aí tão incríveis quanto ele e que me permitiram muito mais. E, que se eu voltar, vai ser bem mais leve.

Se a vida tivesse sido diferente, tenho certeza que não estaria fazendo os planos que estou fazendo agora. Se eu seguisse a carreira bonita que eu queria quando saí da faculdade, tenho certeza que chegaria naquele momento de glória e promoção previsível. Mas só. Na raça, eu aprendi a viver com a incerteza de uma maneira amigável. Uma amizade colorida que flerta, beija e vai embora, mas sempre dá uma ligadinha pra dizer que gostou.

Me dói imensamente ver os grandes amigos jornalistas que sempre me inspiraram sendo obrigados a desapegar também – e em condições tão degradantes. Me dói muito. Mas o que me alivia e que eu tento mostrar é: o lado de cá é bem bonito. É cheio de chances, de oportunidades, de espaços novos, não desbravados, de gente que não sabemos onde vivem ou do que se alimentam.

De histórias pra gente contar de uma maneira diferente. Nova. Que ninguém ainda sabe como faz. Que é no acerto e no erro, sim. E no tesão de quem quer fazer funcionar. Mas, no final, a gente sempre não quis sempre isso?

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De uma das pessoas que me ensinou a desapegar, porque o outro lado pode ser ainda mais bonito.

NHAM!

Quando você percebe que 80% dos posts publicados no seu blog falam sobre, têm títulos relacionados ou reclamam de comida. É aí que você descobre o que aconteceu com este pedaço de ano que se passou.

Você comeu ele.