é na manteiga, manteiga, manteiga, manteiga (4X)

Eu tinha uma ideia de começar a postar receitinhas aqui no blog. Porque claro, faz parte da hipsterização da minha vida aprender a cozinhar. As fotos vão para o instagram, com filtros bonitos, mas eu nunca consigo mostrar lá o quanto meus pratos são apetitosos. Eu e namorado já fizemos risoto, macarrão e, a última, foi um hambúrguer melhor do que eu comi na melhor lanchonete da cidade (risos). 

Mas, algumas coisas me impediram de seguir no projeto. A primeira delas é que eu não tenho uma cozinha. Assim, a arte da culinária fica restrita a momentos de abandono integral de casa, que têm que ser meticulosamente combinados com a minha vontade de sair da cama de final de semana. Momento raros. O segundo motivo é que eu descobri que cozinhar é caro, e envolve realizarque carne de supermercado é nojenta e que queijo gorgonzola custa mais que um prato no restaurante fuleco da firma. 

Mais que isso, eu descobri que cozinhar é nojento.

Não digo que o ato de cozinhar seja nojento. Pensei que seria uma dessas com nojinho de tudo mas, uma vez com foco no resultado, sou uma profissional bastante inescrupulosa. Nem me refiro às pilhas de louça sujas que se acumulam misteriosamente depois de você fazer um simples miojo. Não. Quando eu digo que cozinhar é nojento eu me refiro ao processo de descobrimento de tudo o que vai naquele seu prato maravilhoso. Todos os ingredientes. Todos os ovos. Toda a manteiga. Todo o óleo. 

Esse final de semana foi o hambúrguer. A começar que carne moída é uma coisa do inferno. E, vejam bem: eu sou viciada em carne crua. Mas carne moída não dá. Então, pede-se pro namorado fazer a parte sangrenta. E você fica com a parte da chapa. Põe o bolinho de carne na chapa. Liga a chapa. E põe manteiga no bolinho de carne na chapa.

Muita manteiga. Mais manteiga. 

O moço hipster do restaurante bombado diz que “quando falamos de hambúrguer, nunca é gordura demais”. E manteiga. Mais manteiga. E quando você acha que nunca mais vai ser capaz de ver nada amarelo na sua frente, você vira o hambúrguer. E põe mais manteiga. Enquanto-o-bacon-frita. No óleo. 

Tudo isso parece bastante instigante pros mais adeptos da culinária-ogra – e, acreditem, amigos, eu não sou nenhuma lady. Não acho que salada seja comida e o único grão que tem no meu prato é grão-de-bico (no tahine). Mas quando você está segurando uma garrafa de óleo em cima de um bolinho de carne e ela está fazendo barulho de ar entrando pelo gargalo, meus amigos…

E você resolve fazer maionese. “Óleo até dar o ponto”. Vocês têm noção de quanto óleo demora para que dois ovos virem maionese? 

dança comigo, remexe bem

Eu nunca fui magra. E também nunca quis tentar ser. Sempre tive muita consciência de que eu nunca seria conhecida como “aquela magrinha”, e nem poderia ser uma dessas abençoadas mulheres que andam por ai sem sutiã, mesmo após eu ter comprado meus próprios peitos.

Eu até tinha a esperança que um dia se referissem a mim como “aquela pequenininha ali”, porque, afinal de contas, eu passei bem longe da fila de altura, mas o que não me deram em pernas, me deram em “onas” distribuídas em meu metro e meio. Tranquilo. Nada de mignon, nada de pernas finas. Sempre soube que teria que conviver com as gorduras que ralam as coxas.

Digamos que meu modelo de mulher nunca foi Gisele, nem Jennifer Aniston, quiçá uma Juliana Paes. Quando eu era criança, me diziam que eu era a cara da Mili, de Chiquititas. E hoje, bom, hoje eu sou a Hannah, de Girls.

Até ai, tudo bem. Nunca gostei de ficar parada e no combo meio-metro + coxas enormes, ganhei um par de joelhos usados que nunca me deixou dar ao luxo de descansar. Exceto quando a coisa tá tão preta que seu dia a dia se resume a ônibus e sopa. E, caros amigos, essa sopa – quando não é canja – tem creme de leite pra caralho. Creme de leite indo straigh to my fat coxas, criando barriga, acumulando nos braços de fazer pão, deixando até um papinho discreto.

E, convenhamos: eu nunca liguei muito. Por mais que eu sempre declame que “não posso, estou de dieta”, basta o primeiro episódio de Grey’s Anatomy sair que eu tô lá, devorando um tablete de Kit Kat e chorando como se TPM fosse um fator constante na minha vida. Eu nunca liguei muito, mesmo.

Até ver essa foto da Mili:

Image

Barriga sarada, perna fina, shortinho que não entra na dobra da coxa e a cara de “onde está sua Mili agora?” – E a foto é do instagram, minha gente. Nada de photoshop aqui.

Então é isso, crianças. Se a Mili conseguiu, eu também consigo. Preparem suas hashtags, projeto maromba is coming.

canja

Então que o restaurante da firma custa R$ 13,50 pros “não-funcionários e colaboradores”, e você se encaixa nessa magnânima categoria. E dai que o restaurante da firma é ruim. Claro que, além disso, você gasta R$ 13,50 por dia – não é uma metáfora, a minha vida se desenrola em ironias metafísicas assim – de transporte público, porque você (ainda) mora em outra cidade. Não preciso dizer nada sobre a qualidade do transporte.

Nesse cenário, fica óbvio que eu estou emagrecendo. Até porque – por mais uma dessas ironias cósmicas – R$ 27 é exatamente o valor da parcela do próximo mês na Renner, porque todas nós jornalistas precisamos de um vestido de cavalinhos. Todas nós. Logo, entre gastar esse valor com comida ruim e pagar minhas dívidas para que eu possa fazer mais dívidas, eu não como.

Obviamente essa é só mais uma piada ruim. Quem me conhece sabe que eu não tenho maturidade suficiente nem para levar meu próprio corpo a sério. Então, e é no desespero que nós conhecemos o melhor e o pior das pessoas, eu descobri a alternativa que me permite 1) me alimentar de uma maneira minimamente não-fatal; 2) gastar menos que a parcela da Renner: sopa.

Existe sopa na firma. Sopa grossa, encorpada, com colheres nada saudáveis de maisena e outras substâncias não identificadas ou identificáveis. Mas sopa boa, que enche a barriga e esquenta o coração nos dias que o vestido de cavalinho fica para lavar.

Menos quando tem canja.

Quando tem canja, sou só eu. Eu e aquele caldo aguado de resto de frango e resto de arroz e resto de amor. Quando tem canja, não há lei. Quando tem canja a gente investe mais R$ 0,80 centavos no pacotinho de queijo ralado. Quando tem canja, você está sozinha na lanchonete.

E você tenta. Colherada after colherada você bota pra dentro, pensando na sopa de ervilha – que te traz pedacinhos de bacon surpresa -, na sopa de feijão – que, se você tiver sorte, tem cenoura molinha -, na sopa, DEUS, na sopa de mandioquinha. E enquanto você imagina porque desfiariam uma coisa se ela fosse realmente boa e checa o instagram à procura de fotos inspiradoras de rodízios japoneses, olha em volta ansiosa por um suspiro que seja de compaixão.

E derruba o celular na canja.