tudo aqui até agora em um episódio aleatório de gilmore girls café e um broken wooden goat

Vocês já devem ter percebido que eu ando monotemática, e não estamos nem falando daquele acontecimento passado do qual eu já falei bastante por aqui e vou voltar a falar bastante ainda. Estou falando do novo amor da minha vida, a razão do meu viver, o motivo do meu caminhar: Gilmore Girls.

Antes de qualquer coisa, eu queria esclarecer que eu não assisti Girlmore Girls na minha adolescência. Pois é. Meus early years não foram recheados de bons itens da cultura pop que me renderiam referências engraçadas na vida adulta – essas eu tive que pesquisar sozinha depois, digamos, ano passado, quando eu finalmente descobri que Meninas Malvadas é o filme da minha vida. Nossa você era muito hippie alternativa e só assistia TV Cultura, Isa? Não, caros amigos, eu só via SBT e Globo mesmo. MTV não pegava, não tinha tv à cabo – por pão durice alheia, nada de história sofrida aqui – e na rádio só tocava 88,1 então cês imaginem como foi difícil caminhar para toda essa hipsterização tardia.

Bem, eu não vi Gilmore Gils na adolescência, eu não conhecia Rory e Lorelai ou Stars Hollow, eu não sabia o que a vida poderia me oferecer de bom. Mas, graças a essa maravilha moderna chamada Netflix, eu posso dizer-lhes (vou usar mesóclise mais a frente, aguardem) que minha vida mudou.

Não vou fazer aqui uma lista de 10 motivos pelo quais vocês deveriam (re)assistir Gilmore Girls porque, olhando em retrocesso, eu sou bem ruim nisso de listas. Mas assistam e caminhem comigo nesse mundo inocente e tão adulto e tão fantasioso e tão real, em que todo mundo é meio cagado mesmo antes de Girls e Broad City, e tudo bem, em que todos os relacionamentos são bem complicados, tipo na vida real, e em que o café resolve todos os problemas do mundo.

Eu tomo, mais ou menos, uns três chacoalhões por episódio – você sabia que cada episódio de Gilmore Girls tinha de 70 a 80 páginas de roteiro, quando a média das outras séries do mesmo tamanho é de 60? VIRGE – mas dia desses, vendo o 8º episódio da 2ª temporada, eu me deparei com um diálogo desses que fazem a gente ficar encolhidinha em posição fetal embaixo do edredom abraçando os gatos. Segue em anexo att,

[Luke holds up a broken wooden goat]
LUKE: How about chuppah goat figure repairman?
LORELAI: Gilbert.
LUKE: What?
LORELAI: The goat. We named him Gilbert, he’s headless. Can you fix him?
LUKE: Yeah, I got some glue here. I can fix him.
LORELAI: Good. I’ll make some tea.
LUKE: So, Sookie stopped at the diner this morning.
LORELAI: Oh.
LUKE: I asked her how your plans were going with the new inn, and she very awkwardly changed the subject to women’s basketball.
LORELAI: Huh.
LUKE: She’s never shown much interest in sports before.
LORELAI: No?
LUKE: What’s going on with that?
LORELAI: Oh well, you know, women’s basketball is getting super popular. That’s good, I think. The tall girls need an outlet. We had a fight. A big, humongous fight. She’s never going to speak to me again.
LUKE: What happened?
LORELAI: I just flat out panicked about the enormity of what we were getting into and it clobbered me, and I clobbered Sookie, and was such a jerk. Hey, if I cry, will it freak you out?
LUKE: Totally.
LORELAI: What if I whimper?
LUKE: How about you suck it up?
LORELAI: Hmm, I’ll try.
LUKE: I don’t get it. You’re as ready as you’ve ever been.
LORELAI: Oh Luke, do not underestimate the complete and total lack of confidence I have in my abilities.
LUKE: What? You’re the most confident person I know. Obnoxiously so.
LORELAI: Thank you.
LUKE: I mean in a good way. You’re good at what you do and you know it.
LORELAI: Oh, no, no, no. I’m good at doing what I have to do. When I had to get a job, I got it. When I had to find a house for us and a life for us, I got it. When I had to get Rory into Chilton, I did it. But I don’t have to leave the Independence Inn. I don’t have to go into business for myself, I don’t have to walk out on that limb and risk everything I’ve worked for.
LUKE: Then do it.
LORELAI: What?
LUKE: Just say where you are.
LORELAI: What is this, reverse psychology?
LUKE: No, just stay at the inn. You’re happy there.
LORELAI: Oh, so you think I can’t hack it.
LUKE: Of course you can hack it.
LORELAI: Great, lip service, that’s what I need.
LUKE: Hey, if I start to cry, will it freak you out?
LORELAI: Ugh. I couldn’t stay where I am if I wanted. Mia is selling the inn. And that hit me hard too, maybe harder than the other thing. I’m gonna be without a home.
LUKE: What do you mean? This is your home.
LORELAI: No, I mean a home home. A memory home. The inn is where Rory took her first step. It’s where I took my first step. It’s more of a home to me more than my parents’ house ever was.
LUKE: You’re just scared. Just like everybody else when they’re taking on something big.
LORELAI: Well, then what does everybody else do to get through this feeling?
LUKE: They run in the back, throw up, pass out and then smack their head on the floor.
LORELAI: What?
LUKE: That’s what I did on the first morning I opened the diner. Look, there is no button to push to get you through this. You just gotta jump in and be scared and stick with it until it gets fun.
LORELAI: How long ‘til the diner got fun?
LUKE: About a year.
LORELAI: Wow. And there’s no button?
LUKE: Nope.
LORELAI: How about a lever, can I pull a lever?
LUKE: Nope.
LORELAI: Turn a knob?
LUKE: Nope.
LORELAI: You just jump?
LUKE: You just jump.
LORELAI: I wanna do it.
LUKE: You should do it. Check it out. [holds up the fixed wooden goat]
LORELAI: Gilbert. You’re not worse for the wear.
LUKE: I’ll go reattach him. How’d this happen anyway?
LORELAI: Oh, something must’ve smacked into him with a hedger.
LUKE: Uh huh, well, no one’ll ever know. Oh, and uh, women’s basketball is in season. You might wanna run that news past Sookie, and maybe you can go to a game or something.
LORELAI: Yeah. Or something. Thanks.

[Fica aqui um agradecimento para essa crazy internet people que disponibiliza roteiros inteiros online pra gente poder viver as neuras tranquilamente sem o trabalho extra de transcrever passagens de séries adolescentes obrigada.]

Cês leram? Se vocês num leram, cês podem assistir o ep. inteiro na linda Netflix ou então nesse link aqui (não que eu financie esse tipo de pirataria) a partir do minuto 36:10. Cês assistiram, agora?

Então, é isso.

Desde que eu criei esse blog lá em 2013, todos os posts, todas as fases, todas as fotos, tudo o que foi feito de lá até aqui poderia ter sido resumido maravilhosamente bem com essa cena. Essa cena de uma mãe solteira gerente de um hotel em Stars Hollow, essa cena com um diálogo entre pessoas imaginárias completamente diferentes de mim, essa cena de uma conversa entre dois personagens de uma série adolescente. Tá aí. A vida. A vida adulta. As aflições, os medos, as reflexões, a ansiedade, o café, os bodes de madeira feitos pelos amigos que, mesmos feios pra cacete, a gente ama e guarda com carinho.

Tá aí, gente.

Assistam Gilmore Girls.

(A mesóclise fica pro próximo post.)

1,2,3

“Pagar minhas contas, uma rotina que me permita conhecer/fazer coisas novas e exercício físico regular”. Foi assim que uma amiga minha definiu o que seria a definição de felicidade pra ela. E eu imediatamente concordei, do jeito que a gente só concorda quando realmente sabe, de dentro pra fora, que concorda tanto assim.

Parece pouco, mas é isso. E eu ainda ouso dizer que: nessa ordem, inclusive.

Se tem uma coisa que eu aprendi nesses 27 anos é a listar e priorizar as coisas e, dessa maneira, o primeiro tópico e o mais importante – e, portanto, mais difícil – é o “pagar minhas contas”. Veja bem, não precisa ser “pagar minhas contas e ser rica” ou “pagar minhas contas e comprar um iate”. É só e tão apenas garantir que o aluguel entre, os gatos tenham comida, e a Forever 21 esteja ao meu alcance. As contas, mesmo as supérfluas, são o primeiro ponto de preocupação, o maior, o mais difícil, e o primeiro que deve ser riscado da lista de uma maneira bem prática e programada – que não necessariamente tem que ser ruim ou exaustiva.

O que leva à questão da rotina que eu acabo de nomear como “de boa”, de boa lifestyle. Tempo de parar de ter inveja das pessoas que “largam tudo e vão conhecer o mundo”, que “largam tudo e vão trabalhar com o que amam”, que “largam tudo e….”, de uma maneira geral. Uma rotina que me permite, vez ou outra, conhecer um dos cantinhos do mundo, às quintas à noite trabalhar com o que eu amo e, de vez em quando, largar tudo, nem que seja pra retomar depois, é o que me satisfaz. Os momentos se tornam mais constantes, menos radicais, mais plácidos, menos intensos, mas mais certeiros e mais internos – ainda que os compartilhados. Faz bem.

E o exercício físico regular a gente vai tentando, esse, a gente ainda vai descobrir o que dá prazer e o que dá pra pagar, já que o que dá pra fazer é chato e o que dá pra pagar inviabiliza a primeira parte desse rolê de ser feliz, mas uma hora ele vem, mais leve e com menos cobrança. Não custa nada acreditar.

O mais engraçado é que eu comecei a escrever esse texto em 2015 e hoje reencontrei essa amiga aí do início, dessas  amigas sumidas e que fazem falta, e tanta coisa mudou desde então – mas essas continuam as mesmas. “Pagar minhas contas, uma rotina que me permita conhecer/fazer coisas novas e exercício físico regular”. E quando ela me perguntou como você tá? hoje foi mais fácil responder, mais honesto, mais perto do que tem que ser. Mesmo quando a pergunta mudou pra o que você quer? e um grande ponto de interrogação a ansiedade não foi tanta, deu até aquele gostinho de pensar “tanta coisa, não sei nem por onde começar”, que seja um curso de bordado, um gatinho novo pra completar o trio, pintar a parede do quarto ou toda uma nova vida. Que seja.

Que seja.

imagem lá do Chez Noelle

imagem linda que eu vi no Chez Noelle

domingo é um dia bunda #2

fail edition.

Quer dizer, considerando os últimos tempos, eu poderia muito bem mudar o nome desse blog para “domingo é um dia bunda”. que vergonha.

Mas venho dizer por meio deste que, apesar da semana bizarra cadê-perspectiva-da-profissão-da-vida-do-mundo-socorro-quero-fugir, o final de semana foi cheio de planos, de eventos, de pessoas amadas. De preguiça de sair da cama que foi vencida e trocada por comida boa, amigos, novos amigos, amigos que damos segundas chances. Teve até show, vejam. E lugares lindos. Que bom, né?

(Não que eu não tenha assistido vários episódios de Gilmore Girls. Afinal, eles não vão se assistir sozinhos, né?)

domingo é um dia bunda #1

Sete temporadas de Gilmore Girls – que não, eu nunca tinha assistido, cês imaginem quando é que eu vou levantar desse sofá -, dois baldes de pipoca, uns jogos de futebol bacana, uns homi de bermuda justinha. Talvez seja sobre isso a (boa) vida adulta.

*****
Domingo é um dia bunda: num é? Daí que eu tive uma brilhante ideia de escrever uma ou duas frases sobre os domingos, todo domingo, pra ver o que acontece, e se essas bundas são boas bundas, bundas moles, bundas firmes, #bumbunsnanuca.
Eu tô gostani dessa coisa de numerar os títulos dos posts, né? hm que criativa e inovadora.

diarin #3 – e tudo foi maravilhoso

Ano passado eu tirei um restinho de férias – tinha usado 15 dias pra viajar pra Cuba “fora de época”, então tinha mais uns diazinhos finais pra aproveitar – e não fiz… nada. Cheguei a dar uma passada na praia, mas foi meio estranho, voltei pra uma São Paulo em que fazia 35 graus e quis morrer durante todos os minutos que sobraram. Até comi umas coisa gostosa e vi umas coisa bonita, mas não foram assim, férias memoráveis.

Esse ano eu casei.

Minina, eu casei e fiz tudo aquilo que envolve casar – e talvez um pouquinho mais – desde uma festa que foi, sem dúvidas, o momento mais feliz da minha vida*, até uma lua-de-mel incrível, romântica, aventureira, em restaurante grifado e com comida de rua, com perrengue e com luxo, muito bacana mesmo. Eu também descansei, fiquei com os gatos, mudei todos os móveis da casa de lugar, arrumei os armários (desarrumei outros, desgurpa Marie Kondo), fiz minhas arte pra vender na praia, fiz vaso de planta bonito, até dei umas saidinhas com as amigas. Foi daora.

Sim, eu vou contar tudo pra vocês com detalhes. Mas não agora. Primeiro porque há uma ressaquinha espiritual rolando aqui, depois porque eu preciso falar sobre algum outro aspecto da minha vida antes que ache que agora acabaram todos os momentos incríveis da minha vida. Então vamoquevamo.

(Eu gostei muito de fazer essa newsletter que num é newsletter e eu não me sinto obrigada a escrever toda semana, e vocês?)

Tô assistini
Eu e todo mundo estamos assistini Orange is The New Black e Game of Thrones, né? Você também está? Claro que está. Não adianta dizer que não está, eu sei que está. Hunft. E tipo, o mais legal de acompanhar essas duas séries, pra mim, é ver como elas estão ~no compasso do seu tempo (eita) e acompanhando as tendências mundiais e ouvindo seus fãs. Ou seje: de olho no twitter. A evolução das duas é nítida e os caminhos que elas tomaram também. E o que isso quer dizer? GIRL POWER CARALEA SANSA STARK RAINHA DO MEU CORAÇÃO. Claro.

Também dei uma segunda chance pra Gotham – que é bem divertida! – e Sherlock – que eu já não aguentei uma vez e estou oscilando muuuuuito entre momentos bons e momentos de sono profundo. Vamos ver o que aparece por aí agora. Sugestões?

E daí que eu viajei e peguei mais ou menos umas 12 horas de vôo em que eu conseguir assistir  alguns filmes – títulos em inglês porque eu fui alfabetizada com a Sasha assisti tudo no original com dublagem em espanhol e tô com preguiça de procurar o nome em português, beijos Latam:

The intern: que comediazinha mais fofa e pra deixar o coração quentinho. Bocozinha dessas que a gente ama e tem vontade de virar amiga da Anne Hathaway. Eu amo como o Robert De Niro realmente se aposentou e resolveu fazer todos os filmes ruins que seu passado permite. Amo. É o que eu pretendo ser da minha vida. | How to be single: mixed feelings. Engraçadinha pero aquela forçadinha de barra pra ser mucho descolada, feministinha pero aquela cagação de regra pra agradar Hollywood, aquele meio termo que deixa a gente meio feliz, meio confusa de ter gostado. | This is 40 meu deus que filme ruim meu deus Paul Rudd por que meu deus.

Tô leni
HAHAHAHA. Next.

Não, sério, eu comecei a ler duas coisas: Garotos Corvos, por influência da Anna, e Pureza, do Jonathan Franzen, porque me incluíram em um clube do livro muito legal. Tipo coerência, né? I know. Li mais do que 20 páginas de cada um? HAHAHAHA. Ah, eu também li Salt, que porra, putaqueopariu, porra. Mas esse foi antes de tudo. E que porrada.

Tô fazeni
Olha, eu diria que ainda é cedo (cedo, cedo, cedo, cedo). Que eu ainda não comecei a pensar o que vai ser desse semestre, qual foi o balanço de 1 ano de trabalho, qual foi a reflexão dos 27 anos passado o susto. Eu preciso, sim, muito, arrumar alguma coisa pra fazer. Tô fazendo umas coisa bonita, mais livre pra pegar as coisas e botar a mão na massa com menos pressão, mais livre pra procurar uns cursos sem aquela obrigação de ter que ~servir pra algo, mas ainda sem saber muito bem o que fazer com tudo isso.

Os tombo que eu tô levani
Lembra que eu tava toda felizinha com o pilates? Fuén. Uma mistura de fatores professor insuportável e falta de dinheiro me fez desistir, outra mistura de fatores casamento e viagem e ceviche infinito me fez engordar loucamente em um mês, e uma terceira mistura de fatores socorro cicarelli me fez voltar pra boa e velha e horrorosa como eu odeio aquilo academia de sempre. Wish me luck. Eu odeio aquilo com todas as minhas forças, mas fiz um desses acordos ótimos que a gente faz consigo mesma que se eu conseguir emagrecer os quilos que preciso, ganho de presente uma aula de pilates topzera. Aguardemos.

Os pulo que eu tô dani
Eu finalmente cortei/arrumei meu cabelo – tava naquela fase “deixa crescer pra ””fazer alguma coisa”” pro casamento” e foi a coisa mais bonita da minha semana. Olha só como tá lindo e divo. Num tá? E bom… É isso. Eu acho. Já já eu vou conseguir enxergar que mais que tem, num vou? Ô se vou. Wait for me.

diarin03a

o dia <3 | a viagem | o gato | o cabelo (e a cara de sono)

Agora eu tenho que descobrir-escolher o que eu quero fazer da vida daqui em diante. Eita. Faço uma pós? Continuo a fazer cursos de artesanato como se eu realmente fosse vender miçanga? Adoto mais 5 gatos e fico de boas? Inauguro uma hashtag de projeto verão e fico rica vendendo meu corpinho? Veremos.

* Durante a viagem, num mercado de pulgas em Bogotá, havia uma família de nenéns catiorros muito nenéns e com muito frio e envoltos em um cobertorzinho e fazendo montinho neles mesmos para fugir do frio. Eu, obviamente, fui lá e mergulhei no meio deles e peguei um deles no colo e levantei ele na direção do meu rosto e ele mordeu meu nariz com aquela mordidinha banguela de filhote de catiorro. Desgurpa, mas esse foi o momento mais feliz da minha vida, o casamento foi daora até.

revirar-se

Esse caso inominável e bizarro e a gente tá o quê? Explicando pra homem como se comportar.

Tem que explicar. Tem que ensinar. Tem que falar “se você não para de tomar cerveja com o parça que bate na mina, você é igual”. Tem que ser didático e “se você dá risada da piada no whatsapp você é igual”. Tem que contar que “se você acha exagero você é exatamente igual”. Que “se você fala da roupa do batom do biquíni da gorda da vaca da Dilma da puta” você é exatamente igual. Você tem que dizer que não importa a roupa a droga a bebida o filho a idade o funk a escola. Você tem que construir os argumentos pro desconstruidão pegar mulher. Mas ele é tão legal.

Você, mulher, tem que explicar como é fundo e dolorido e pra onde você olha e pra onde você corre tem mais e mais e mais gente igual. Você, mulher, tem que se legitimar através do texto do brother que está envergonhado e que país é esse e que imagina que gente doente, que mundo doente, mas eu não sou assim, eu sou do bem. Você, mulher, nós, mulheres, a gente tem que ouvir que a solução e fazer os 33 virarem mulherzinha na prisão.

Virarem mulherzinha. Mais 33 mulherzinhas.

Mas a gente não precisa do feminismo, não.

Nayyirah Waheed 01

A gente está indignado, indignadíssimo, com um crime. Um crime absurdo, hediondo, impensável, um crime. Um crime que acontece todo dia – todo. santo. dia. – e ninguém vê. Um crime que quando não são 33 ou não repercute ou não pega tão mal não se pronunciar, passa em branco. Ou, pior ainda: é justificado. Um crime injustificável e inominável e indefensável, tanto quanto os outros 1 a cada 11 minutos crimes que acontecem diariamente mas, esses, sutis, justificáveis, mas e a roupa, mas tinha cara de safada, mas tava querendo, mas tá chorando porque se tá gostando.

Tá todo mundo indignado com a violência e a crueldade da favela, do morro, do tráfico, dos animais, dos pobres, do povo sem estudo porque tem que ler e ter cultura. Ninguém sequer de quantas vezes silenciou as duas ou três mulheres da reunião descoladinha na sala do lado da mesa de bilhar. Quantas vezes chamou de gostosa de vaca vagabunda de puta rodada e essa não essa é só pra comer na balada milionária. De quantas vezes rechaçou, recusou, de quantas vezes julgou a roupa e falou da amiga gorda, da mina vaca, da competição, da legging apertada, de que precisa emagrecer mas tem um rosto lindo. Mas tá todo mundo muito indignado.

Não é nossa função ensinar. Não é nossa função validar. Não é nossa função explicar. São séculos nos tratando como incapazes, burras, menos eficazes. São séculos no diminutivo. No bonitinho. No sensível. Meninas. No educado. No paternalismo patronizing patrocínio que apadrinha ampara protege sustenta defende auxilia. Está. No. Discurso. Não é nossa função compartilhar texto pra deixar (mais) famoso. Vamos escrever nossos próprios textos. Vamos nos compartilhar, divulgar, proteger.  Nos cuidar. Entender quem é o inimigo. Guardar as brigas internas num lugar importante, mas nutri-las com carinho e cuidado para brigá-las com a compreensão de quem já esteve do lado de lá. Quando for possível.

what
massacre
happens to my son
between
him
living within my skin.
drinking my cells.
my water.
my organs.
and
his soft psyche turning cruel.
does he not remember
he
is half woman.

– from

É preciso se unir. E abraçar e cuidar e empoderar e gritar junto e dar as mãos para cada uma das mulheres a nossa volta. Todas-elas. Todas-elas. Todas aquelas que renegamos, que rechaçamos, que chamamos de vadia, que temos inveja, que desprezamos, que nos machucaram, que nos feriram. É preciso abraçá-las. Precisamos promover todas as mulheres a quem admiramos, amamos, todas as mulheres que são muito próximas para dizermos que precisam se emancipar. Aquelas. E todas as que têm medo de falar por erro, e todas as que não desconstruíram e precisam, e todas as que não perceberam mas vão. É preciso dizer que nos inspiram. Que nos dão força. Que estamos juntas. Que somos fortes.

É preciso se posicionar. É preciso entender que não são 30 homens doentes: são 30 filhos saudáveis do patriarcado. Que estupro não é doença, não é sexo, não é desejo: é poder, é política, é dominação. É discurso. Coitada, coitada, coitada… Sofrer coito. Sofrer. Que está na linguagem. Naquele que dizemos todo dia. Na raiz da palavra. Presidenta. Mulher. Mulherzinha. Inha. Nos olhares por cima dos ombros na rua. Na hierarquia superior do homem.

É preciso (se) revirar. Tudo. Do zero. De dentro. Com força. Vermelho.

Nayyirah Waheed 02

Todos os trechos destacados desse post são de Salt, da poeta Nayyirah Waheed. Acho que nunca li nada tão poderoso. Dá pra ler o livro inteiro de graça na Amazon. Façam isso por vocês hoje. E também assistam o documentário Shes’s Beautiful When She’s Angry, sobre o movimento feminista dos anos 1960/70, na Netflix. Pra encher a gente de ideias e de força.

etiqueta do casamento: não f*de o meu rolê

Socorro.

(Se alguém fizesse um gráfico sobre quantos posts desse blog começam contém a palavra “socorro” este ano, aposto que daria uma estatística interessante. Não que alguém esteja contando…)

10 dias.

E como toda a minha lista de afazeres terminou, e como está tudo certo, e como eu não tenho mais nada pra responder quando as pessoas me perguntam “e os preparativos?”, eu vim aqui conversar com vocês sobre aquelas coisinhas que tiram a gente do prumo nessa altura do campeonato.

Muita gente acha estranho que eu tenha tomado essa decisão, de casar. Especialmente os amigos mais próximos, que sabem das minhas inclinações políticas-sociais-de gênero – ou seje, sabem que eu sou feminazi comunistinha que ganha dinheiro dos petralhas e dorme com mais de 10 hómi por noite. Essasoueu, uma princesa. E daí ficam espantados quando eu solto um então gente vou casar.

Eu julgo? Não. Porque eu, como a maioria desses amigos, sabe tudo o que vem envolvido nessa tradição de casamento e que, néam, gente, não é nada muito bacana. Nada. Eu poderia aqui fazer um momento De Repente História™ e jogar uns dados da tradição casamenteira ao longo dos séculos, datando da tradição romana, passando pelos enlaces de Game of Thrones, mas vocês já são grandinhos o suficiente pra procurar no Google.

A questão é que a gente adora uma festa. Adora, assim, desde o momento um. Ir, arrumar, organizar, reunir. E que eu sou um bicho extremamente dos paranauê místico – tanto que usaria meu céu quase inteiro em Peixes pra explicar isso pra vocês – e das passagens, dos ritos, dos eventos, para marcar datas. E somos, bom, somos grandes fãs do amor e das energias positivas que encontros com pessoas amadas proporcionam. E a gente quis casar, fim!

Não interessa a mais ninguém. Sabe o que interessa? Que a gente tá dando uma festa pros amigos. Pra quem acompanhou nossa história. Pra quem a gente ama. Pra quem a gente faz questão. Pra quem não vai ligar se eu tô servindo coxinha na bandeira de plástico. Nem se eu tô mais ou menos gorda de quando conheci o boy.

Não é fácil, migas. Falar que vai casar abre aquela porteira imaginária do limite do bom-senso, um portal tridimensional de um mundo que todos as pessoas em volta acham que podem dar pitaco, que você vai compartilhar da opinião delas, e que você, noivinha, quer ouvir coisas absurdas. Absurdas. Então, segue abaixo PSC um guia das bad trips do casamento para você, amiga de noivinha, futura noivinha, mãe de noivinha, noivinha da noivinha, boy da noivinha, noivinha do boy, não repetir em casa:

// “Agora vocês são um só”: miga. MIGA. Ele pode ir trabalhar no meu lugar? Então, não. Eu não sei de onde é que veio essa história de fusão nuclear que gente que se ama tem que virar um só. Tá, na real eu sei, mas eu vou me esforçar pra não xingar (muito) a religião alheia aqui.

// “E o casamento?”: tudo bem que em termos práticos, 99% da sua vida – se você for fazer tudo sozinha – vai girar em torno dos acontecimentos dessa festa, mas aquele 1% engloba: seus sentimentos, seu trabalho, sua vida pessoal, seus gatos, sua unha encravada, tudo o que passa dentro da sua cabeça… Enfim, aquela pessoa que você era antes de se tornar ~a noivinha. Sabe, a amiga que existia ali antes disso? Sim, ela continua existindo. Pergunte sobre ela. Ela vai gostar.

// Quem vai ser a próxima? Ahhhh essa graciosa conversa entre as amigas envolvidas na festa ¯\_(ツ)_/¯. Ainda bem que faltam apenas duas semanas, acho que não vai dar tempo d’eu criar o Bingo do Desconvite, que consistiria num jogo de erros e acertos envolvendo frases como “A próxima tem que ser a Mariazinha que já vai fazer 30 anos, logo mais está velha pra casar!” e “Boa, Isa, conseguiu amarrar o boy, agora tá com a vida feita”. Todas essas frases são verídicas e aconteceram, sim, entre as minhas amigas, aquelas que a gente considera esclarecidas, desconstruídas etc e tal. O que fazer, além do Bingo do Desconvite? Sentar com cada uma delas e explicar “miga, veja bem o que você tá falando”, claro. E, minhanossasenhora, pensar melhor em como a gente tá criando essas meninas, sem or.

// A cerimônia: ah, o machismo nosso de cada dia… Como fugir dele? Bom, a gente começou por não ter uma cerimônia religiosa, evitando assim qualquer tipo de assassinato nesse dia lindo. Porém, muita coisa além dessa continua: e a coisa do pai entregar a filha pra um novo cara, que vai cuidar dela? Béh! E a coisa de jogar o buquê pra todas as amigas solteiras se estapearem pra ver quem vai casar depois e não ficar pra titia? Béh! Algumas dessas coisas ainda estou processando e tentando achar alternativas menos misóginas. Todas elas envolverão Valesca. Aguardemos.

// Acabou o casamento… e agora? Eu já perdi as contas de quantas histórias ouvi sobre noivas “que surtaram”. Além de tudo o que vem embutido nesse estereótipo de “mulher histérica”, de “bridezilla”, o que eu percebi é que realmente muitas minas são construída pra esse momento da vida. Esse é um dos/o único sonho delas. E quando essa fase de ser o centro das atenções, a princesa, a noivinha, acaba, ou está na iminência de acabar, elas ficam extremamente deprimidas. É triste demais. Demais isso. A gente precisa mesmo pensar em como estamos criando as nossas meninas pra esse conto de fadas da Disney, migas. Não tá certo. Acabou o casamento: e daí? Bora pensar na próxima festa, viagem, rolezinho da pizza, no que vai ter no trabalho na segunda-feira, em quais são teus próximos sonhos? Bora.

// Tá chegando, hein? Você tá se preparando? Isso, migas, quer dizer: você tá fazendo dieta? Você quer ficar mais magra, né? Você tá fazendo bronzeamento artificial? Você tá fazendo clareamento… dental? Não vou ser hipócrita de falar que meu peso não é um fatos que sempre me incomodou e me incomoda ainda mais numa situação dessas, mas migas… Tem perfis #noivafitness entrando em contato comigo no instagram. Fala pra mim: is this real life? Amiga noivinha: segura essa piriquita e pega na minha mão. Você é linda e vai estar radiante, RADIANTE, nesse dia lindo. Independente do #bumbumnanuca ou não.

Tem mais? Ô se tem. Aqui tem mais.

“Credo, Isa, você só reclama, parece que só tem gente chata entre os seus convidados!”. Isso é verdade? Não, não é verdade. Mas tem tanta gente chata circulando os meus convidados, vivendo no meu convívio social, habitando o planeta Terra que nunca é demais botar pra fora o que vem desaquietando meu coraçãozinho pisciano esquerdogata felinazi. Sabe pra quê? Pra mostrar que a gente também não precisa ser 1001% revolucionária e odiar todas as instituições existentes pra ser manter fiel ao que a gente é e acredita. Dá pra casar e ser legal. Dá pra casar e não ser bad trip. Dá pra casar e respeitar as mina, os mano, as trava, as trans. Dá pra casar e ser feliz gente peloamordedeusvamofocarnisso, que é o mais importante.

Casar é amor. É sim. É tanta energia boa que neutraliza o chorume, te juro que sim. Mas falar de amor e coisa bonita num dá ibope, né gente, e eu tô querendo um publipost pra pagar os arranjo de frô dessa história. Longe de mim querer parecer caga-regra na interação social alheia, mas já sendo: miga, não seje essa pessoa. A noivinha agradece. Repassem.

<3